Celebrando o amor, peça busca analisar relações modernas jogando luz sobre vida conturbada de dois irmãos

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Em meados de 2016, após sofrer um assalto com uma arma de
fogo apontada para sua cabeça, o ator Eduardo Martini decidiu que estava na
hora de promover algumas mudanças tanto na sua vida pessoal quanto na
profissional.

Pretendendo iniciar uma virada em sua carreira, dedicada
desde o início da década passada apenas a comédias, Martini aceitou o convite
do diretor e dramaturgo paulistano Aimar Labaki para assumir aquela que seria
uma das personagens mais difíceis: a drag
queen
Shirley Pão na Chapa, na tragicomédia Dark Room, de Mário Viana.

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“Fazer uma drag
passada da vida era muito interessante. Porque enquanto se é jovem tudo e muito
bonito, e parece muito fácil, mas lidar com o presente tendo sido alguém muito
importante no passado, e com o presente vazio me chamava muito a atenção”,
pontua o ator que, há 30 anos, havia encenado seu último drama em cena, Ninguém se Lembra mais de Frédéric Chopin
(1986).

Reconhecido pelas comédias que celebrizaram seu nome, Martini
se tornou figura rara em produções dramáticas até aquele ano em que, buscando
um salto na carreira, decidiu renovar o repertório. “O cognitivo das pessoas me
interessa muito, e isso tá em risco porque as pessoas estão deixando de ser
elas mesmas em prol de alguma outra coisa que elas não são, para consumir
alguma coisa que elas não querem e não são felizes quando consomem”, pontua o
ator que, desde então, passou a constar mais assiduamente na ficha técnica de
peças dramáticas.

Em 2017 assumiu a direção de Angel, peça de Caros Fernando Barros e Vitor de Oliveira sobre os
bastidores escusos da administração de uma boate masculina, numa trama que
envolve a sedução e o jogo de poder entre os garotos da boate e uma deputada
interpretada por Cléo Ventura.

Já em 2018, o ator dirigiu e compôs o elenco de Depois Daquela Noite, apenas de Carlos
Fernando Barros, sobre a crise conjugal na vida de dois casais que têm suas
histórias entrelaçadas graças a uma tempestade que muda completamente o destino
das quatro personagens vividas por Carol Hubner, Renato Scarpin e Theo Hoffman,
além do próprio Martini.

E no primeiro semestre deste ano de 2019 compôs o elenco de Nunca Fomos tão Felizes, texto e direção de Dan Rosseto, na qual viveu um calhorda machista numa de suas mais impressionantes desconstruções cênicas ao lado de Matheus Monteiro, Larissa Ferrara e Nicole Cordery.

Agora, meses após a última investida dramática, o ator se
prepara para estrear Chorávamos Terra
Ontem a Noite
, texto de Eduardo Ruiz encenado originalmente em 2011 sob a
direção de Lavínia Pannuzio, e que ganha, a partir de 13 de outubro uma nova
versão sob a produção do próprio Martini e a direção de Carina Sacchelli.

No drama, dois irmãos se reencontram após anos para lidar com a perda do pai, as dores e lembranças que a morte acarreta e a possível venda da casa. “Eu acho que é a questão de a personagem do Elder [Gattely] ter esse reencontro om suas raízes. Essa peça mostra o reencontro com os traumas que ele passou ao lado daquele irmão, de tudo o que eles viveram naquela cidade, e de como ele decidiu fugir daquilo. E quando ele volta e tem esse reencontro, ele percebe que é aquele cara bronco, filho de um pai que batia na mãe”, explica Sacchelli que, nessa obra, assina sua primeira direção.

Chorávamos Terra Ontem a Noite

Atriz e produtora envolvida tanto com o teatro quanto com o audiovisual, Sacchelli recebeu o convite do próprio Martini para assumiu sua primeira direção solo. Antes já havia assinado a assistência de direção de outros espetáculos com o ator, como a comédia Chá das 5 (2014), e Angel.

“Eu tive bastante receio de aceitar, mas o Eduardo me deixou
muito segura, e estar com ele me dá essa segurança também”, assume a diretora
que também decidiu assumir a direção do espetáculo por tratar de um tema que
muito a interessa. “Eu queria trabalhar com a quebra desse romantismo de que
dois irmãos que tiveram a mesma criação deveriam ter uma conexão, uma relação
afetuosa, e não é isso que a gente vê. O que mais existe são irmãos que não têm
afinidades entre si, e ficam naquele small
talk
, naquela conversa de elevador”, conceitua.

A diretora também foi a responsável por trazer ao projeto o
ator Elder Gattely, que vive Luís, irmão mais novo que sai de casa para fugir
dos abusos do pai, mas acaba repetindo o modus
operandi
. “Todos nós temos marcas relacionadas à nossa infância, à forma
que fomos criados, e a relação com pais, mães e irmãos. E ele, que fugia tanto
do pai, não percebeu que acabou se tornando ele mesmo aquele homem que era
horrível, mas o amava, e ele nunca percebeu”, diz.

Já para Martini, que vive Antônio, o irmão mais velho que
permaneceu cuidando do pai até sua morte, vê nessa peça a chance de falar de um
dos assuntos que mais persegue ao longo de sua carreira: o amor. “Eu sentia a
necessidade de falar de amor. Para mim não existe beijo gay, existe beijo. Eu
acho que esse separatismo está criando uma briga absurda. Não existe formação,
há um excesso de informação que não é peneirada, são muitas fake news. Depois de tudo o que eu
passei, quis mostrar isso, que as pessoas precisavam de formação, e não há nada
melhor para se formar do que falar de amor. E isso independe de sexo, raça,
nível social” pontua o ator, que encontra nesse espetáculo também uma relação
muito pessoal.

“A doença do meu pai foi triste, e há a dificuldade de querer
ter sido amigo dele, como eu gostaria de ter sido agora que ele se foi. Eu
senti vontade de me curar um pouco disso tudo, e mostrar para as pessoas os
tempos perdidos em situações que você acha que é uma bobagem, uma besteira e
você acha que são importantíssimas, mas não são, porque toda a vida passa”.

Na peça, que estreia no novo Centro Cultural da Diversidade,
antigo Teatro Décio de Almeida Prado, no Itaim Bibi, a história dos dois irmãos
é tratada como um drama de linguagem simples e cenário realista. “Eu acho que a
peça, já sendo um drama, tem um texto muito poderoso, que não precisa ser
contada de forma histriônica. É possível se comunicar com o público de maneira
simples sem contar uma história quatro tons acima”, explica a diretora que
concebeu, ao lado de Martini, uma cenografia simples e de fácil assimilação.

“Tá tudo muito musical por aí. O cenário, as roupas, as
luzes, é basicamente um show… e o ser humano se perdeu. As coisas ficaram
fúteis, rasas. O teatro não tem receita, mas a gente tem que pensar que vai
pegar pela emoção, e essa é a missão do ator: atingir o público, e isso eu
tenho cada vez mais, mesmo na comédia. Quero fazer com que as pessoas entendam
que não precisa tanta loucura, tanta violência e ódio. É preciso falar de amor.
E quando se fala de amor é tão pouco praticado que as pessoas não entendem
mais, daí começou a separar. E isso me incomoda muito porque você só julga
aquilo que você se afasta, e aí não tá falando de amor. Quer dizer, por que não
entendo dois homens se amarem? Porque não estou falando de amor, mas do meu
julgamento sobre duas pessoas. Quando tá todo mundo easy, falam de amor de uma maneira linda, mas com os animais, as
plantas, da Amazônia, mas na hora de se relacionar com o ser humano, não rola”.

Chorávamos Terra Ontem a Noite fica em cartaz de 13 de outubro a 03 de novembro (domingos) no Centro Cultural da Diversidade, no Itaim Bibi, sempre às 19h. Também em cartaz no espaço estarão Angel, as sextas e sábados, de 11 de outubro a 02 de novembro, às 21h, e Depois Daquela Noite, que segue de 10 a 31 de outubro, quintas-feiras, também às 21h. Os espetáculos fazem parte do Festival do Amor pensado por Martini, e os ingressos para todos os espetáculos custam de R$ 20,00 (meia) a R$ 40,00 (inteira).

Chorávamos Terra Ontem a Noite
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