Espetáculo propõe encontro entre Elza Soares, Nina Simone e Billie Holiday ao historiografar segregação

Ladies Sings the Blues propõe um olhar para o processo racial estabelecido entre EUA e Brasil

Publicado em 09/12/2021 08:30
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É difícil não estabelecer relações musicais e (sobretudo) sociais quando se estuda a fundo a trajetória da carioca Elza Gomes da Conceição Soares e das norte americanas Billie Holiday (1915-1959) e Nina Simone (1933-2003). 

Cantoras, negras e vítimas de uma estrutura social orquestrada para destruí-las, as artistas conseguiram, cada uma a sua forma, uma vitória frente ao sistema racista, machista, patriarcal e desigual no qual seus respectivos países se baseiam.

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E são as convergências dessas trajetórias que entram em foco em Ladies Sings the Blues, espetáculo que cumpre curtíssima temporada no palco da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, sob a produção do Coletivo 3 de Nós, formado pelas multi artistas Jessica Madona, Savina João e Camila Borges (substituída em cena por Danuza Novaes).

Na obra, as artistas são acompanhadas de banda formada por Lua Bernardo (contra-baixo) e por Rayra Maciel (percussão e direção musical) e interpretam canções que sagraram as intérpretes ao longo dos anos costurados por solos com passagens biográficas e declarações acerca de temas como o racismo, a segregação racial, o machismo e suas trajetórias afim de construir um legado próprio.

De Holiday, o espetáculo se alicerça sobre Strange Fruit, a letra escrita pelo compositor e professor universitário nova iorquino Abel Meeropol (1903-1986) e musicado pela artista, que a musicou e gravou em 1939. 

Narrando os linchamentos sangrentos de pessoas negras no sul dos Estados Unidos, a canção foi tida pelo governo do país como uma afronta direta, e levou Holiday a ser presa e passar por diversos processos de tortura psicológica que aceleraram seu vício em drogas e a tiraram de cena em 1959. O grupo ainda apresenta standards como All of Me (Cole Porter, 1954), Solitude (Duke Ellington/ Eddie DeLange/ Irving Mills, 1934) e Fine and Mellow (Billie Holiday, 1939).

Já Simone é representada a partir de Mississippi Goddam, canção autoral gravada pela intérprete em 1964, na qual a artista relata o massacre racial em uma igreja na cidade de Birmingham, no estado do Alabama, nos Estados Unidos, um ano antes. A canção se tornou um dos hinos do movimento anti-racista dos Estados Unidos na década de 1960 e pôs Simone pela primeira vez no palanque da luta racial.

Da artista, outros clássicos entram em cena: I Put a Spell on You (Screamin’ Jay Hawkins/ Herb Slotkin, 1956), Feeling Good (Anthony Newley/ Leslie Bricusse, 1964) e Ain’t Got No/ I Got Life (Galt MacDermot, 1968).

Por fim, Elza Soares surge representada por repertório, em suma, contemporâneo. Fênix da música popular, a artista passou por processo de renascimento artístico em 2015 ao lançar A Mulher do Fim do Mundo, renovador álbum que lhe apresentou a novas gerações e – ato contínuo – apagou boa parte de sua produção fonográfica anterior à década de 2010.

Guardadas as devidas proporções, Ladies Sings the Blues busca recuperar parte deste repertório perdido ao pescar pérolas como Etnocopop (Carlinhos Brown, 2002), canção de celebração afro lançada pela cantora em seu clássico álbum Do Cóccix até o Pescoço, mas eclipsado pelo sucesso massivo de sua gravação de A Carne (Marcelo Yuka/ Seu Jorge/ Wilson Cappellette, 1988), a canção do grupo Farofa Carioca que a cantora tomou para si.

Do repertório mais clássico, o espetáculo pesca ainda Desabafo (Tatu/ Nezinho/ Campo, 1974), canção apagada em álbum menor da discografia da artista, que ganha nova chance a partir do musical, que apresenta ainda Banho, o samba noise composto por Tulipa Ruiz e gravado pela artista em 2018 em seu Deus é Mulher, e o clássico contemporâneo A Mulher do Fim do Mundo (Rômulo Fróes/ Alice coutinho).

Quarta produção do Coletivo 3 de Nós, Ladies Sings the Blues dá continuidade à pesquisa iniciada em 2017 com a encenação de A Mais Forte, visão contextualizada aos tempos atuais do clássico texto do sueco August Strindberg (1849-1912) que desaguou ainda em Maria da…, no qual a performer Savina João discutia o assédio sexual e, por fim, Todos te Amam Até Você Se Assumir Preta, solo de Jessica Madona que dialogava com o assassinato de George Floyd (1973-2020), nos Estados Unidos.

Ladies Sings the Blues cumpre curtíssima temporada de 11 a 13 de dezembro no Auditório da biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo, com sessões sempre às 19h e com ingressos gratuitos.

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