Stella Tobar celebra 25 anos de carreira com solo gestado após negativa para adaptação de obra americana

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Em meados de 2014, a atriz, diretora e dramaturga paulista Maria Stella Tobar refletia sobre seu envolvimento com a obra da escritora e psicóloga norte americana Clarissa Pínkola Estés, autora do clássico best-seller Mulheres que Correm com Lobos (1989). Tobar se preparava para mergulhar na adaptação teatral do romance analítico A Ciranda das Mulheres Sábias (2006), da autora, quando um e-mail da representante de Estés alterou seus planos.

“(…) Sinto muito, não podemos dar-lhe permissões, nem derivado, nem direitos para teatro/ performance, nem quaisquer outros direitos para usar comercialmente a autobiografia da Dra. Estés, nem qualquer parte de suas frases assinadas (…)” dizia a mensagem em resposta ao pedido de cessão de direitos para adaptação da obra.

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A frustração tomou conta da artista que, crente de que receberia uma resposta positiva, precisou arquivar seu já avançado trabalho de adaptação. “Isso foi bem impactante! E frustrante! Mesmo porque já tinha sabido de outros trabalhos a partir das obras de Clarissa Pínkola Estés, adaptados do Mulheres que Correm com os Lobos. Então receber a negativa e ainda com a contundência com que foi respondido… Fiquei me questionando se eu seria a porta-voz certa desse livro, e por isso o universo estava me dizendo não”, relembra a artista.

A partir desta negativa, Tobar precisou de um tempo para digerir a impossibilidade de seguir com a produção para, só então, se atentar a um detalhe do e-mail que recebeu da representante de Estés.

“Desejando-lhe o bem em seu próprio trabalho original. Aqui está uma citação da Dra. ensinando sobre seu trabalho sobre voz própria: ‘A guerra e migrações forçadas e a aculturação destroem as estórias. Use sua própria voz, a partir da sua própria vida e do que você mesmo viveu e testemunhou em primeira mão… desse modo as estórias que acontecem a cada um – contadas pelos olhos de quem as testemunhou – nunca mais se perderão para o mundo novamente.’”, dizia a correspondência que soou para a artista como um conselho encorajador.

Assim, a artista decidiu colocar sua própria voz a serviço de histórias próprias e de outras personalidades. Foi assim que nasceram obras como o infantil O Menino e a Cerejeira (2016), baseado no conto homônimo do escritor e filósofo pacifista japonês Daisaku Ikeda, e o recente Minhas Queridas (2020), quando a artista partiu das cartas trocadas entre a escritora Clarice Lispector e sua irmã para criar espetáculo que teve carreira interrompida durante a pandemia.

“Segui esse conselho dela realizando dramaturgias a partir de obras que me tocam profundamente. Eu não estive em cena, mas por ter feito a dramaturgia e dirigido, minha voz de alguma maneira está lá. Então, no fundo, sei que transformei um não em um sim. E isso também é uma jornada de mulher sábia”, conceitua.

Contudo, embora tenha exercitado parte do conselho, Tobar ainda precisava terminar de digerir aquela negativa de um projeto que considerava ser uma obra certeira. E esse processo tem fim a partir de amanhã, 11, quando chega ao universo online Semente, solo autoral no qual a artista expõe as dores e angústias do isolamento de uma mulher com sua filha tendo que lidar com as frustrações de sua carreira de atriz e a negação de seus desejos íntimos.

Nesta jornada, muitos temas entram em colapso com a realidade da personagem, tanto o luto pela morte de um parente e as questões existenciais acerca do ato de viver. “Realizar esse espetáculo, em um momento tão desafiador como esse, é também meu aprendizado nesse caminho das mulheres sábias. Estou na ciranda, de mãos dadas com a Dra. Estés e todas as mulheres que se transformam”.

A obra marca também a estreia oficial da artista no universo digital, muito embora a obra tenha sido pensada e gestada para um cenário pré-pandemia. Sob a direção de Eucir de Souza, Semente é também a celebração dos 25 anos de trajetória artística da atriz, que encontrou na celebração uma forma de dar continuidade ao trabalho, paralisado após a instauração da quarentena e do isolamento.

“Esse solo, que nasce de uma necessidade artística imensa de criar mesmo em (e a partir de) condições de isolamento foi sincronicidade com a data. E isso eu celebro! Porque está tudo certo se seguimos as nossas necessidades. Há alguns anos decidi que faria apenas os trabalhos que me tocassem profundamente, que realmente tivessem significado. Assim, venho produzindo mais e – ainda bem – sendo convidada para realizar propostas que reverberam muito nesse sentido. A proposta de Semente era estrear ano passado, mas acabamos pausando o processo por um tempo devido a minha exaustão como mãe de adolescente e bebê em isolamento pandêmico”.

E essa exaustão também foi assimilada a encenação. “O cansaço se transformou em matéria-prima, assim como tudo o que envolvia as imprevisibilidades da casa, já que o espetáculo foi criado a partir da minha casa. Algo que também fiz conexão agora é que no último espetáculo que fiz como atriz em 2018 (Nos Países de Nomes Impronunciáveis, de Paula Autran sob direção de Magali Biff) eu estava grávida da minha filha mais nova, e isso se tornou cena, eu aparecia com a barriga de fora. Em Semente, Angelina surge em uma das cenas, no meu colo. Isso aconteceu em um dos ensaios, não foi planejado, mas determinou aquela cena e abriu tantas camadas que ficou”.

O texto que absorve também as necessidades de adaptação do teatro dentro da linguagem digital. “Alguns recursos desse híbrido entre teatro e cinema só são possíveis nesse formato e plataforma. Eles fizeram parte do processo de criação como princípio e determinaram mudanças estruturais no texto, como a subdivisão de duas mulheres (originais do texto) em mais três, gerando cinco facetas dessa mesma personagem em situações diferentes. Foi uma mudança que abriu mais camadas na dramaturgia construída originalmente para o palco. Há momentos em que temos as cinco facetas subdivididas na tela”.

“Eucir pensou a encenação dessa forma. E se um dia decidirmos apresentar presencialmente, será outra a linguagem. Mas por enquanto a vontade é explorar esse formato e suas possibilidades”, conta.

Fruto de uma série de senões (a negativa acerca dos direitos de adaptação, e um livro nunca finalizado – de onde surgiram as crônicas que formam o espetáculo), Semente é grito de resistência que Stella Tobar pretende fazer germinar graças a ajuda de parceiros que estiveram a seu lado na caminhada iniciada – ainda que inconscientemente – em 2014.

“Qualquer obra surge mesmo é quando reunimos os parceiros certos naquele momento. Tudo é trabalho coletivo, eu jamais teria conseguido trazer isso à luz não fosse essa união possível e a vontade de realizar dessa equipe maravilhosa que estava, assim como eu, em isolamento pandêmico e sedenta por criar. A voz desse trabalho é a de todos”.

Semente cumpre curta temporada gratuita com transmissão via Zoom de 11 a 18 de março, quinta-feira a quinta-feira, sempre às 22h. Após cada sessão, a equipe criativa do espetáculo realiza um bate-papo com a plateia. Os ingressos podem ser retirados através da plataforma Sympla.

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