Jô soares em O Livro Ao Vivo
Jô soares em O Livro Ao Vivo

Multiartista que produziu, ao longo de mais de 60 anos, obra milimetricamente moldada ao gosto popular, Jô Soares escreveu, entre 2018 e 2019, dois dos maiores sucessos editoriais da década. “O Livro de Jô – Uma Autobiografia Desautorizada” é um título que, dividido em dois volumes, reuniu causos, histórias e proporcionou o resgate de profissionais das artes no Brasil pouco lembrados atualmente. 

Com uma escrita ágil e coloquial, Jô Soares, ao lado do jornalista Matinas Suzuki Jr., fez de sua biografia uma espécie de memorabilia acerca da história sociocultural do Brasil nos últimos 60 anos, recheada de causos saborosos. 

Analisando sua trajetória de showman, é sintomático que o autor de romances como “O Xangô de Baker Street” e “Assassinato na Academia Brasileira de Letras”, transfira suas memórias do livro para os palcos. Em O Livro Ao Vivo, ora em cartaz no Teatro FAAP, José Eugênio Soares roteiriza (algumas) memórias em um espetáculo que irmana momentos de deboche a relatos de tocante delicadeza, sempre no compasso de uma comicidade inerente ao autor. 

Auxiliado pelo jornalista e co-autor dos dois volumes do best-seller, Matinas Suzuki Jr., Jô passeia ao vivo por suas memórias ao longo de pouco mais de uma hora com o divertimento e o frescor de quem realmente está prestes a contar um causo recém-lembrado. 

Herança de mais de seis décadas de profissão, a naturalidade com a qual o multiartista relata em cena passagens de seus mais de 80 anos de vida faz com que a plateia se esqueça que faz parte de um espetáculo teatral, e se sinta à vontade como se (mais uma vez) estivesse na sala de casa assistindo aos programas que Jô pôs na telinha desde que surgiu em meados da década de 50 na TV Record, passando por questões pessoais, como o relacionamento com seu filho, Rafael Soares, morto em 2014, aos 50 anos de idade.

Linguagem utilizada ao longo de décadas para encher plateias, a simples “contação de causos” se popularizou na forma de show graças aos precursores de um tipo de show que, no Brasil, guardadas as devidas proporções, se metamorfosearia no que hoje se conhece como stand-up comedy. 

Tendo como principal nome do gênero, o cantor e ator Rolando Boldrin, esse tipo de espetáculo já ganhou proporções de superprodução em shows de nomes como Chico Anysio, Agildo Ribeiro e o percussor das superproduções José Vasconcelos, numa linguagem que depois Bibi Ferreira desossaria ao tomar para si e utilizar como a espinha dorsal de seu itinerante Histórias e Canções, com o qual viajou o Brasil entre as décadas de 1980 e 2010. 

Sem as grandes proporções de seus colegas (ou de outrora), Jô se utiliza apenas da confiança em sua história, num palco nu adornado por uma iluminação linear e a projeção da capa dos dois volumes de suas memórias. Sentados lado a lado, Jô e Suzuki relembram causos contados no livro, mas também histórias que se tornaram clássicas, como passagens que envolvem nomes de suma importância para a comédia brasileira, entre eles, Ronald Golias e Carlos Alberto de Nóbrega. 

Mas, tal qual em suas memórias, o anfitrião não se priva de contar a plateia causos já conhecidos e clássicos, como o que rememorou acontecimentos da TV ao vivo com o programa TV Mistério, provando que, mesmo com história requentada, Jô sabe fazer uma plateia gargalhar. 

No tempo de uma delicadeza proporcionada pelo tempo, o autor faz de seu O Livro Ao Vivo uma experiência de domínio de plateia que, no auge da comunicação e do vício tecnológico, ainda é hipnotizada pela arte de contar histórias dominada por este showman que deu a impressão, já de início, apresentar espetáculo trivial. Impressão passageira, visto que, ao final de O Livro Ao Vivo, Jô Soares prova que com uma cadeira e um refletor ainda é capaz de fazer um monte de gente feliz. 

SERVIÇO: 
Data: 11 de abril a 29 de junho (quinta a sábado) 
Local: Teatro Faap – São Paulo (SP) 
Endereço: Rua Alagoas, 903 – Higienópolis 
Horário: 21h 
Preço do ingresso: R$ 40,00 (meia) a R$ 80,00 (inteira)