A Verdade - Foto: Divulgação
A Verdade - Foto: Divulgação

Comédia escrita pelo dramaturgo francês Florian Zeller em 2011, A Verdade ganhou elogiada montagem inglesa em 2017, que não apenas foi responsável por exportar esta que se tornou uma das comédias internacionais mais festejadas da década, e rendeu ao autor um Prêmio Laurence Olivier, o mais importante do teatro inglês.

É difícil imaginar, portanto, que A Verdade, espetáculo que estreou na última quinta-feira, 23, no Teatro Vivo, no Morumbi, zona sul de São Paulo, se trata da mesma obra celebrada ao redor do mundo como uma das melhores comédias da década.

Sob a direção de Marcus Alvisi, é fácil supor que alguma coisa se perdeu tanto na versão brasileira do texto (assinada pelo diretor) quanto na encenação, que ao tentar construir uma comédia de ares vaudeville por meio de uma série de blackouts, acaba pecando no timing da peça, fazendo com que a obra perca boa parte de seu potencial cômico.

Faltou ao diretor melhor condução, principalmente de seu elenco que, ao tentar narrar as consequências de uma teia de mentiras armada para acobertar um quadro de infidelidade. Ator com tempo de comédia impecável, Diogo Vilela serve como principal base de sustentação para o espetáculo.

O ator dribla as irregularidades propostas pela direção ralentada de Alvisi e consegue extrair risos sinceros e entusiasmados do público, o que dificilmente se repete com seus colegas de cena. Carolina Gonzales e Paulo Trajano surgem pouco à vontade em suas personagens, desperdiçando piadas e passagens que poderiam soar cômicas, mas morrem na praia.

Bia Nunes, por sua vez, também pouco faz para valorizar suas poucas entradas em cena. Presença rara nos palcos paulistanos, a atriz, que já se comprovou ótima na comédia em obras como Capitanias Hereditárias (2000) e Os Monólogos da Vagina (2000), ambas sob a direção de Miguel Falabella, Em A Verdade, a atriz não parece ter encontrado o tom de sua personagem, que passeia entre a comicidade sardônica e a melancolia.

Festejada no Rio de Janeiro, A Verdade chega a São Paulo como uma comédia menor, deixando a impressão de que ainda não engrenou de fato. Impressão essa reforçada tanto pelo cenário pouco inventivo de Ronald Teixeira e Guilherme Reis e pela iluminação opaca assinada (inacreditavelmente) pelo mago da luz Maneco Quinderé.

De qualquer forma, ainda que resulte aquém das expectativas, A Verdade tem um grande trunfo na manga, que é a figura de Diogo Vilela, ator que usa de sua relação cada vez mais profícua com o público para fazer desta uma experiência realmente cômica e leve, numa comédia que resulta excessivamente despretensiosa.