Sede - Foto: Caio Gallucci
Sede - Foto: Caio Gallucci

Em meados de 2014, ao estrear no Brasil Incêndios, peça do dramaturgo libanês radicado no Canadá Wajdi Mouawad, o ator Felipe de Carolis propôs ao público uma reflexão intensa e pouco ortodoxa sobre as relações familiares e a maneira que o teatro as tratava. Usando de signos e elementos previamente reconhecíveis dentro de encenações do gênero, Aderbal Freire Filho virou do avesso o jogo teatral naquela que figurou entre todas as listas de “melhores” montagens daquele ano.

No rastro do sucesso daquela montagem, Carolis decidiu permanecer na investigação acerca da obra de Mouawad e, em 2017, estreou, ainda em parceria com Aderbal Freire Filho, Céus, drama sobre as questões que norteiam e envolvem atos terroristas e as formas usadas para desvendar os crimes.

O êxito de crítica dos dois espetáculos inspiraram o jovem ator e produtor a investir numa trilogia de obras do autor libanês no Brasil. Ainda que sem um contato direto em termos de temática, os espetáculos buscam desvendar a linguagem sedutora e, ainda assim, não tão palatável de Mouawad.

Sede, peça que fecha essa trilogia, em cartaz desde o dia 1 de fevereiro no Tucarena, na zona oeste de São Paulo, talvez seja, das três, seu trabalho mais complexo, poético e delicado. Diferente da intensidade de Incêndios e da verborragia geracional de Céus, Sede é peça introspectiva, feita no tempo da delicadeza cênica, o que pode, numa primeira leitura, afastar os não iniciados que desejem uma obra menos complexa.

Mouawad usa de uma linguagem fragmentada e poética para analisar um tema geralmente penoso como o suicídio. Longe de qualquer âmbito melodramático, o texto busca tratar de maneira direta não as causas que levam uma pessoa ao suicídio, mas sim a forma que pessoas de fora possam vir a lidar com ele.

É através da figura do jovem Sylvain Murdoch (Felipe de Carolis) que a peça se desenvolve. Murdoch faz parte de um grupo de jovens que, em escala mundial, na década de 1990, não encontrou motivos para seguir num mundo em que não se senta representado, ou feliz, e escolheu tirar a própria vida, num dos muitos casos que chegaram a ser considerados epidêmicos por órgãos de saúde ao redor do globo.

O corpo do jovem é encontrado congelado e submerso num lago, abraçado ao de uma garota, pelo antropólogo forense Bloom (Marcelo Várzea), que, através deste encontro passa a revisitar seu passado e reavaliar suas escolhas de vida. Em paralelo, a jovem Noruega (Luna Martinelli) desenvolve uma síndrome do pânico crescente, que a leva a ataques cada vez mais violentos.

Sob a direção de Zé Henrique de Paula, Sede se sobressai justamente pelo jogo de delicadeza e poesia frente a uma temática abordada sem filtros morais. É verdade que,já de início, o espetáculo parece soar menos sedutor do que de fato é. As canções originais compostas por Fernanda Maia e executadas ao vivo por um trio de músicos soam deslocadas e jamais cativam.

Interpretadas por Carolis, as canções não apenas afastam sua personagem do público, como também atenua cenas densas apelando para um trivialismo desnecessário, mesmo porque, a despeito de sua carreira em musicais Carolis ainda não parece ter encontrado o tom confortável para interpretar as canções de Maia, o que parece mesmo atrapalhar seu desempenho em cena.

O ator constrói um Murdoch sem muitas nuances, e acaba num tom monocórdio e pasteurizado que não movimenta a trama. A personagem, tema central da encenação, parece se perder na interpretação de Carolis que ainda precisa encontrar uma forma de desenvolver a personagem para que ela reverbere como o texto dá a entender.

Pelo caminho contrário percorrem Luna Martinelli e Marcelo Várzea. A dupla constrói bonita parceria cênica, em interpretações delicadas. Com sua voz grave, Martinelli passeia com desenvoltura pelas crises e os momentos quase angelicais de sua Noruega, numa referência direta às personagens do amor platônico da juventude masculina.

Por esse caminho, a atriz encontra jogo perfeito com Várzea, ator que pavimenta os caminhos de sua personagem com interpretação baseada no olhar. A delicadeza impressa pelo intérprete em seu Bloom resulta tocante e atenua pontos dissonantes da direção de Zé Henrique de Paula, se sobressaindo como uma das melhores interpretações de Várzea, ator que, na última década, se descobriu dramaturgo e desenvolveu linguagens triunfantes como diretor.

Em cartaz no Tucarena até o dia 29 de março, Sede é peça delicada que ainda precisa acertar alguns ponteiros para emergir com a potência que seu texto pede, e, ainda em progresso, já tem fôlego crescente, ainda que, no fim, peque pelo distanciamento excessivo (reforçado pelas projeções do cenário de Bruno Anselmo e a luz de fran Barros) e não emocione.

SERVIÇO:

Data: 01 de fevereiro a 29 de março (sexta-feira a domingo)

Local: Tucarena – São Paulo (SP)

Endereço: Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes

Horário: 21h (sexta e sábado); 18h (domingo)

Preço do ingresso: R$ 30,00 (meia) a R$ 60,00 (inteira) e de R$ 35,00 (meia) a R$ 70,00 (inteira)