Maria do Caritó | Foto: Divulgação
Maria do Caritó | Foto: Divulgação

Entre as décadas de 1990 e 2000, Lília Cabral, já uma estrela profícua da teledramaturgia do Brasil, subiu ao palco em espetáculos que se tornaram verdadeiros blockbuster de suas temporadas. Em Solteira, Casada, Viúva, Divorciada (1993) e Divã (2006), a atriz deu vida a mulheres envolvidas com questões como idade, relacionamentos e outros temas que costumam servir de alicerce para comédias sobre a famigerada “mulher do século XXI”, às voltas com a divisão entre carreira e lar e as cobranças sociais.

Guardadas as devidas proporções, outras peças protagonizadas pela atriz no período (Futuro do Pretérito, de 1996, e Unha e Carne, de 2003) giravam na mesma órbita temática, num looping quebrado em 2012 com a encenação de Maria do Caritó, comédia de Newton Moreno dirigida por João Fonseca.

Embora esteja longe da densidade de outras obras do autor, como as antecessoras Agreste (2004) e As Centenárias (2009), e a mais recente As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão (2019), Maria do Caritó se localiza como um dos títulos mais saborosos escrito por Moreno. Compreendido com perfeição por João Fonseca, o tom farsesco da obra é levada às últimas consequências ao localizar Cabral como uma solteirona de quase cinquenta anos de idade que, prometida a um santo fictício, não pode se casar e precisa levar a vida como uma espécie de curandeira milagrosa da região sertaneja onde mora com o pai

A farsa é assumida, principalmente, quando não há um compromisso com qualquer naturalismo dentro do elenco, que dobra personagens que vão desde uma cartomante até o pai da personagem-título (ambos interpretados com maestria por Fernando Neves); ou com a linha evolutiva da obra que passeia pelo registro quase onírico e inocente da personagem interpretada por Cabral.

Embora menos ambicioso na carga dramática, Maria do Caritó é jóia lapidada pelo mesmo tempo da delicadeza dramatúrgica que Moreno constrói seus textos. Tanto que, quando ameaça soar apenas como uma comédia protocolar, a obra ganha contornos políticos com a inserção de casal de fazendeiros interpretados por Dani Barros e Leopoldo Pacheco. É a boa e velha engenhosidade de Moreno que, se pesa a mão no drama familiar já próximo ao desfecho a montagem, também entrega bons momentos para todo o seu bem sucedido grupo de atores – encerrado com Silvia Poggetti no papel de dona do circo.

Se a concepção cênica passeia no tom da farsa, é interessante notar que outros elementos, como luz (Paulo César Medeiros) e figurino (J.C Serroni) assumem tom naturalista, num caminho anticlimático que poderia soar destoante, mas apenas reforça o tom solar da encenação de Fonseca, que deu a Cabral total liberdade para se comprovar atriz ainda maior do que já havia se provado – principalmente após a virada estilística de sua carreira, com o destaque recebido como a vilã nada maniqueísta de Páginas da Vida (2006), novela de Manoel Carlos.

Disponível na plataforma Espetáculos Online, Maria do Caritó foi a última peça encenada por Lília Cabral, mas seguiu a atual tradição da atriz de levar seus espetáculos para outras mídias – no caso, cinema – em filme dirigido por João Paulo Jabur que esvaziou o encantamento lúdico da obra de Newton Moreno.

Para assistir Maria do Caritó (a peça) acesse aqui: