Adaptação online de clássico de Ibsen desperdiça boa premissa com elenco e direção opacos

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Seria surpreendente se, em meio a pandemia resultante da maior crise sanitária do mundo em um século, algumas obras clássicas não entrassem nos radares de grupos e coletivos teatrais para buscar, no passado, a representação de temas contemporâneos.

Dois dos mais emblemáticos títulos a tratar sobre crises sanitárias, A Peste (1947), de Albert Camus (1913-1960), e Um Inimigo do Povo (1888), de Henrik Ibsen (1828-1906), de fato, se estabeleceram no universo online com montagens adaptadas para a linguagem virtual popularizada pela prática de isolamento necessária para a prevenção do Coronavírus.

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É verdade que, no caso da obra do franco-argélio Camus, a montagem data de antes mesmo da pandemia, em encenação dirigida por Vera Holtz e Guilherme Leme Garcia e estrelada por Pedro Osório.

Contudo, Inimigos (E o Povo?) é obra pensada essencialmente para o universo online a partir da peça de Henrik Ibsen, que narra a investida de um médico em informar ao povo de uma pequena cidade que as águas utilizadas no balneário responsável por manter a economia local ativa estavam contaminadas e seria preciso um longo tratamento que inviabilizaria ganhos da prefeitura.

Na adaptação assinada e dirigida por Alexandre Krug e produzida pela Penélope Cia de Teatro, uma assembleia virtual é convocada pelo infectologista Dr. Tomáz para discutir com os cidadãos de uma pequena cidade interiorana sobre a qualidade da água potável da cidade e da necessidade de um tratamento generalizado, que impedirá a exploração comercial da água local.

Embora trabalhe com a ideia da crise sanitária, a adaptação do clássico de Ibsen trabalha com argumento menos fluido do que a obra na qual se baseia. O espetáculo não deixa efetivamente claros os motivos da contaminação ou quais problemas reais são desenvolvidos dentro do argumento econômico.

Problema que a adaptação não consegue sanar ao longo de pouco mais de uma hora de encenação, que pretende traçar o perfil de uma série de personalidades que, em tese, funcionam como o pilar daquela pequena sociedade. Estão presentes a professora primária, um médico sem especialidade revelada, um motoboy, uma policial e um desempregado, além da presença da imprensa, do prefeito e do próprio médico responsável por alertar a população.

E é justamente nesta construção que se concentra parte das irregularidades de Inimigos (E o Povo?). O elenco opta por registro que, embora flerte com linguagens clownescas e – até absurdas – resultam chavões, estruturados em estereótipos que prejudicam o desenvolvimento da história.

O grupo foge da linguagem realista e verossímil, mas não desenvolve outro registro que potencialize a narrativa, fazendo com que o espetáculo resulte pouco dinâmico e, graças também à dramaturgia, irregular. A direção de Krug não injeta fôlego à obra, deixando que os atores optem por construções próprias – todas acima do tom.

É verdade, contudo, que o mecanismo, se bem utilizado, pode gerar a empatia do público com as personagens – como é o caso da professora primária interpretada por Liz Mantovani, que, ainda que se perca da metade para o final, se sai melhor que seus colegas.

David Carolla na pele do Dr. Tomás também rende menos do que a personagem pede. Ainda que o texto, a partir da segunda metade, resulte pueril, Carolla opta por registro histriônico que faz frente à opção idêntica de André Capuano, que interpreta o prefeito da cidade em construção recheada de estereótipos que prejudicam as cenas da personagem.

Enfim, ainda que consiga resultados interessantes graças a sonoplastia de Felipe França e a parte do cenário, Inimigos (E o Povo?) é obra opaca frente a adaptação do clássico de Ibsen. Pensada para o universo online, é verdade, talvez crescesse em cena com o tempo necessário para decantar, mas, em temporada digital, resulta irregular.

SERVIÇO:

Data: 01 a 30 de abril (quintas e sextas)

Local: Canal oficial da Penélope Cia de Teatro no YouTube

Horário: 20h

Preço do ingresso: Grátis

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