Apesar de crítica protocolar, Onde Está a Leveza triunfa graças a direção dinâmica e mergulho na linguagem digital

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Prática que tem se tornado popular ao redor do mundo desde meados da década de 1990, a revisão crítica de antigas obras musicais, literárias, cinematográficas e teatrais já ganhou adeptos nos mais diferentes segmentos das expressões artísticas entre o final do século passado e o início deste século XXI.

Obras como a ópera Carmen, de Georges Bizet (1838-1875), e Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen (1828-1906), já passaram pelo filtro contemporâneo a ponto de ganharem remontagens com finais alternativos e continuações não oficiais a fim de redimir uma personagem, geralmente feminina – no caso da peça norueguesa, o norte americano Lucas Hnath buscou a redenção para a protagonista Nora em bem sucedida produção na Broadway.

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Guardadas as devidas proporções, é com essa lupa moderna e revisionista que a companhia gaúcha Teatro Geográfico enxerga A Insustentável Leveza do Ser, clássico do romancista checo-francês Milan Kundera, em Onde Está a Leveza?, experimento cênico digital que cumpriu curtíssima temporada no universo online entre os dias 08 e 24 de março.

O espetáculo assinado pela companhia – formada essencialmente por mulheres – propõe discutir o papel de uma das personagens do clássico literário, Teresa, e sua relação com o marido, com a mãe e com a sociedade à época conhecida como Primavera de Praga e a exacerbação de seus desejos profissionais, sexuais e sociais.

Ao pôr Teresa em evidência, a companhia busca não apenas retratar sua história, mas desconstruir conceitos machistas e misóginos na estruturação e nas ações da personagem ao longo do romance, desde o sexo não consentido (num processo de culpabilização da figura da vítima) até sua falta de colocação no mercado profissional.

O fato é que falta solidez dramatúrgica a essa contestação e à busca de contemporanizar as discussões e situações propostas no romance de Kundera, fazendo com que Onde Está a Leveza? se sobressaia como espetáculo mais interessante por sua (boa) encenação assinada por Tatiana Vinhais, que consegue injetar dinamismo no experimento cênico, se valendo das diversas possibilidades e ferramentas digitais.

A encenadora enxerga na linguagem pop e dinâmica uma maneira de contar a história de maneira friccionada sem jamais abandonar a condução da linha argumentativa e crítica do espetáculo, reforçada pela inteligente escolha de alicerçar a trilha ao entorno do espetáculo nas canções que compõem a fase primordial da obra construída pela cantora e compositora carioca Marisa Monte.

O repertório registrado pela artista em seu seminal álbum MM (1989) traça paralelo entre a busca da leveza e a intensidade rascante da, então, intérprete. Temas como Comida (Sérgio Britto/ Arnaldo Antunes/ Marcelo Fromer) e Sonhos (Peninha) valorizam a encenação, e não soam apenas como escolhas de beleza popular ou plástica.

O bom elenco também angaria bons momentos, principalmente pela conexão que consegue transmitir mesmo com as dificuldades impostas pela comunicação virtual. Mérito também da direção de Vinhais, que, embora não pode excessos, consegue extrair boas atuações do elenco formado por Carol Andrade, Carol Kern e Gabs Ambròzia, principalmente em seus primeiros momentos em cena.

Com desfecho voltado à crítica ao combate à pandemia do Coronavírus menos interessante do que sua construção no geral, Onde Está a Leveza? triunfa pela encenação dinâmica somada ao registro interessante de seu elenco que tornam a experiência mais uma boa imersão dentro das possibilidades do teatro digital.

SERVIÇO:

Este espetáculo está fora de cartaz

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