Uma Mulher Só - Foto: Ronaldo Gutierrez
Uma Mulher Só - Foto: Ronaldo Gutierrez

Quando a pandemia do novo coronavírus fechou teatros e congelou o mercado cultural em meados de março de 2020, artistas – atores, diretores, produtores – se jogaram no universo digital buscando uma sobrevida (a princípio) artística que, com o tempo, se converteu em respiro financeiro para alguns profissionais do setor.

Com obras pensadas especificamente para plataformas digitais que foram reinventadas para o formato (como o facilitador de reuniões remotas Zoom), o movimento batizado Teatro Digital deu vazão a obras pioneiras como O Filho do Presidente, do grupo carioca Teatro Caminho, Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt, com Nicole Cordery e Mauro Schames sob a direção de Bruno Kott, e A Arte de Encarar o Medo, do paulistano Os Satyros, entre muitos outros.

Já devidamente difundida em (boa) parcela do cenário cultural no eixo Rio-São Paulo, a nova linguagem deu vazão a uma série de experimentos cênicos online, que buscaram trabalhar com a linguagem da performance ao se embrenhar em temas como a pandemia e o caos urbano ao redor do mundo em espetáculos nem sempre preocupados em se comunicar com o público, em prol de uma suposta vanguarda na produção digital.

No caminho contrário segue Uma Mulher Só, primeiro monólogo da carreira da atriz paulistana Martha Meola que marca sua estreia também no universo virtual. Sob a direção de Marco Antônio Pâmio, o espetáculo faz parte de uma série de obras escritas em meados da década de 1970 pelo dramaturgo italiano vencedor do Prêmio Nobel Dario Fo (1926-2016) e a atriz e dramaturga também italiana Franca Rame (1929-2013).

Popularizada no Brasil em meados da década de 1980, com uma série de montagens estreladas por nomes como Denise Stoklos e Marília Pêra (1943-2015), a obra de Fo e Rame sobre a libertação feminina e questões que regem este universo frente a evolução dos tempos estreou no online na última sexta-feira, 11, com transmissão via Zoom.

Na obra, Meola dá vida a uma mulher que vive enclausurada em casa e se anima com a chegada de uma nova vizinha de prédio enquanto precisa lidar com todas as demandas da casa, do marido que a mantém trancada, de um ex-amante, do cunhado doente e do filho ainda bebê.

Permeando campos como a claustrofobia e a angústia, o espetáculo jamais abandona o humor mordaz dos autores, valorizado pelo carisma de Meola e pelos caminho que Pâmio conduz a atriz numa montagem que flerta com a linguagem de uma graphic novel da década de 1950 ao localizar a personagem no papel de uma clássica dona de casa dos tempos pré-revolução feminista. Impressão sublinhada pela ótima direção artística de Rapha Gama (assinando figurino e cenário diretamente da casa da atriz).

Uma Mulher Só triunfa justamente por apostar na clássica tríade do texto-intérprete-direção sem se pretender vanguardista e inovador. A fina direção de Pâmio leva Meola à beira do abismo emocional desta personagem que atinge as últimas consequências sem jamais precisar reinventar a roda teatral, mas ainda assim brincando com a linguagem multimídia proposta pelas possibilidades do modelo teatral pandêmico.

Confiando na força do texto e da intérprete, Uma Mulher Só estabelece, ao longo de enxutos 40 minutos, pontes e conexões com o contemporâneo sem jamais nivelar o público por baixo ou impedir a comunicação direta neste que é um dos espetáculos menos experimentais da nova onda teatral e, por isso, um dos melhores até então por compreender que a simplicidade, quando bem utilizada, também enriquece a comunicação teatral.

SERVIÇO:

Uma Mulher Só

Data: 11 a 27 de setembro (sexta-feira a domingo)

Local: Zoom

Horário: 20h (sextas e sábados); 17h (domingos)

Preço do ingresso: R$ 10,00 a R$ 250,00.