Certeira, aposta no minimalismo faz Aviso Prévio crescer e se livrar da possibilidade de soar como mero teatro filmado

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Escrita e encenada em 1987, Aviso Prévio foi obra que marcou o início dos experimentos da dramaturga mineira Consuelo de Castro (1946-2016) com o teatro da fantasia, longe da linguagem realista que pautou a construção da história teatral no Brasil e de boa parte de sua obra até aquele momento.

Estrelado por Nicette Bruno (1933-2020) e Paulo Goulart (1933-2014) em encenação dirigida por Francisco Medeiros (1948-2019), Aviso Prévio ganhou menos montagens do que se poderia esperar para o texto que foi responsável por sagrar Castro como um dos principais nomes da dramaturgia patropi.

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Também por isso a montagem estrelada por Kiko Vianello e Fernanda Couto, ora em cartaz no universo online, é um dos espetáculos de maior destaque nesta temporada voltada a espetáculos híbridos encenados no ambiente online. Embora tenha estreado em 05 de março no Viga Espaço Cênico, contando com a presença do público, a produção precisou paralisar suas atividades devido o recrudescimento da pandemia do Coronavírus.

O espetáculo chegou na última terça-feira, 16, no universo online, transmitindo registro fluente de sessão apresentada em 07 de março, domingo. Sob a direção de Clara Carvalho, Aviso Prévio ressurge quase 35 anos após sua montagem original sem nenhum sinal de que o tempo tenha lhe feito mal. Ao contrário, as quase três décadas e meia que separam as duas montagens provaram que o texto amadureceu pulsando modernidade e relevância.

A obra narra a vida de Ela e Oz, personagens oníricos e longe do campo da realidade que vivem à beira de um grande acontecimento dentro de seu relacionamento, representado por diferentes alegorias, desde a influência da estética circense até crítica à vida cotidiana representada pelo ambiente corporativo e seus abusos e frustrações.

Clara Carvalho prioriza na encenação um minimalismo que ameaça, à primeira vista, deixar a impressão do desconforto inerente de um registro de espetáculo pensado exclusivamente para o palco e gravado com ares de mero teatro filmado. Mas é justamente nessa secura que mora a beleza e a poesia de Aviso Prévio, que não só dribla essa armadilha – constante nas produções de uma temporada afetada pela necessidade do isolamento e distanciamento -, como também imprime ritmo dinâmico a um espetáculo de pouco mais de uma hora.

Mérito também – e principalmente – do bom jogo do elenco. Fernanda Couto e Kiko Vianello constroem diálogo próprio e azeitado, que dá conta do ritmo crescente que a obra toma à medida que se desenvolve. À sua maneira, a dupla dá vida aos sonhos, dores, frustrações, desejos, medos e mágoas de suas personagens que surgem de um caldeirão de referências, e bebem de influências como as de Edward Albee (1928-2016), Harold Pinter (1930-2008) e Samuel Beckett (1906-1989).

Vianello e Couto mergulham com intensidade na proposta, guiados também – e principalmente – pela (ótima) trilha de Ricardo Severo, que parte de suas próprias influências para criar obra sonora a partir do clássico Somewhere Over the Rainbow (Harold Arlen/ Yip Harburg, 1938), tema do filme O Mágico de Oz (1939).

Embora a dupla construa personagens sólidas e se mostrem aptos a mexer em qualquer zona de conforto, é inegável o destaque para Fernanda Couto, que passeia com naturalidade por registros que vão desde o clownesco e o bufão até a clássica comédia dramática que, no fim das contas, é o que estrutura o texto de Consuelo de Castro.

Embora conte com desenho de luz (assinado por Fran Barros) menos inspirado, o espetáculo reúne em sua encenação alguns bons trabalhos baseados num minimalismo poético que deságua no trabalho de nomes como a cenografia (e principalmente os objetos cênicos) de Amanda Vieira e Marichilene Artisevskis (esta última, também assinando o bom figurino).

Enfim, embora não se proponha a grandes investigações cênicas dentro do universo virtual, Aviso Prévio é obra que cresce pelo minimalismo não só de apostar no tripé básico elenco-direção-dramaturgia do teatro, mas também por confiar na atemporalidade de um texto que merece mais atenção dentro do cenário nacional e projeção, quiçá, internacional.

SERVIÇO:

Data: 16 a 25 de março (terça-feira a quinta-feira)

Local: Transmitido através de canal oficial no Youtube

Horário: 20h

Preço do ingresso: R$ 20,00

Ingressos retirados via Sympla

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