A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong - Foto: Divulgação
A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong - Foto: Divulgação

Quando a pandemia do novo Coronavírus atingiu em cheio o mercado cultural fechando teatros e congelando produções em plena atividade, Clarice Niskier tinha acabado de subir ao palco da Sala Marília Pêra no Teatro PetroGold, no Leblon, para estrear A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong, solo inspirado na obra do multiartista maranhense Zeca Baleiro.

Foi, portanto, sintomático que a atriz retornasse ao mesmo palco para dar o primeiro passo no universo do teatro online com a estreia do solo dirigido e supervisionado por Amir Haddad dentro da programação do projeto Teatro Já, do mesmo PetraGold.

Na obra, um híbrido entre filosofia, história e poesia na qual qualquer semelhança com uma peça de teatro é pura coincidência, Niskier celebra 40 anos de trajetória artística olhando para sua própria vida e para a evolução da cultura brasileira com foco principal na canção popular  desenvolvida desde o final do século XIX.

Embora tome como principal mote de estudo a obra de nomes como Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Ferreira Gullar (1930-2016), Eduardo Galeano (1940-2015), Hélio Pellegrino (1924-1988), Oswald de Andrade (1890-1954) e o historiador Yuval Harari, Niskier se lambuza mesmo é na estética pós-tropicalista abrigar todo tipo de cultura popular pelo mesmo valoroso guarda-chuva.

A atriz desconstrói o conceito de arte e elegância vigente em sua memória afetiva com as construções sociais projetadas por sua mãe e celebra de Brigitte Bardot, Caetano Veloso e Chico Buarque a Harari, Sérgio Buarque de Holanda e outro pensadores que ajudaram a registrar a eterna evolução sócio-cultural do povo brasileiro.

Em verso, A Esperança na Caixa de Chicletes Ping-Pong investiga desde o mito da colonização salvadora até os malefícios da globalização em encenação simples cercada pela obra magistral de Zeca Baleiro, de quem Niskier enfileira 59 canções entre temas autorais e covers (como a bonita versão do maranhense para Tudo Passará, clássico lançado por Nelson Ned em 1969).

Embora peque pelo excesso em inexplicável uma hora e meia de duração, o espetáculo apresenta boa síntese de uma construção cultural brasileira que, pós-movimento tropicalista já na década de 1970, aprendeu que a cultura popular é uma só e não pode ser dividida como, de tempos em tempos, tenta-se fazer o purismo burro da chamada alta cultura.

SERVIÇO:

Este espetáculo está fora de cartaz.