Contemporânea e potente, Viva Cacilda! Felicidade Guerreira dá passo adiante em investigações cênicas online

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Em 1998, se antecipando às celebrações dos 80 anos de vida e 30 anos da morte de Cacilda Becker (1921-1969), o diretor Zé Celso Martinez Corrêa mobilizou seu grupo Oficina para montar Cacilda!, um dos espetáculos mais ambiciosos da companhia naqueles últimos anos e, também por isso, um de seus maiores sucessos de público e crítica.

A obra de Zé Celso – estrelada por Bete Coelho – não só foi o maior vencedor do ano seguinte no Prêmio Shell e no Prêmio APCA, como também lotou por sucessivas temporadas o Teatro Oficina, em São Paulo, tendo sido remontado em diversas outras ocasiões, uma delas em 2001 para ganhar registro em DVD e VHS.

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Com uma popularidade incontestável e ainda relativamente viva na memória recente do universo teatral, seria de se esperar que qualquer remontagem da obra ficasse aquém de sua original, assim como aconteceu com as continuações que seguiram assinadas e dirigidas pelo mesmo Zé Celso.

É nessa corda bamba que caminha a premissa de Viva Cacilda! Felicidade Guerreira!, experimento cênico online no qual a fotógrafa, diretora e dramaturga paulistana Lenise Pinheiro adapta e irmana o texto original de Corrêa com roteiro autoral construído com passagens contemporâneas acerca da vida, da obra e da ideologia de Cacilda Becker, atriz que se sobressaiu como um dos principais nomes da classe artística no combate à ditadura e na revolução de costumes que o Brasil viria a experimentar com mais afinco na década seguinte a sua morte.

A obra bebe diretamente não apenas do texto, mas também da linguagem anarquista do Teatro Oficina e da montagem original sem jamais soar como mera cópia. Com segurança, Pinheiro insere contemporaneidade sem jamais renegar a obra original – que por si só já pulsava modernidade. 

As passagens de seu roteiro são costuradas à dramaturgia original com (impressionante) naturalidade, resultando em experiência orgânica, e sobrevivendo à armadilha da adaptação contemporânea que, geralmente, aprofunda mais a distância entre a obra original e o diálogo com o presente.

Em Viva Cacilda! Felicidade Guerreira! o diálogo com o moderno é favorecido principalmente pelo ar eternamente moderno de sua homenageada e pela destreza da atriz Isabella Lemos, intérprete de Becker, em fugir a construção de uma caricatura da atriz, embora aborde essa possibilidade em construção pautada muito mais pelo o que significou Becker do que necessariamente do que ela foi.

Estivesse nas mãos de atriz menos habilidosa, talvez a Cacilda! de Lenise Pinheiro surtisse efeito menos impactante, contudo Lemos aproveita as nuances do texto com precisão, sem jamais apelar para uma construção melodramática, embora flerte com outras expressões, como a do drama clássico e a da linguagem absurda.

A atriz constrói uma Cacilda ciente de seu legado para além de sua vida, e é justamente por dar enfoque nesta figura segura de si e de suas conquistas que Viva Cacilda! Felicidade Guerreira! cresce evitando comparações com a obra original. O espetáculo opta por fugir de qualquer registro de autocomiseração para sua personagem, buscando uma Cacilda que dialogue com os tempos modernos, quando a revolução de costumes – iniciada há quase uma década – se alicerça no combate.

Ao longo de pouco menos de uma hora, o espetáculo traça um panorama da vida da jovem atriz nascida na interiorana cidade de Pirassununga, no interior de São Paulo, até seu sucesso nos palcos e a fundação de seu Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) fora de qualquer ordem cronológica.

E nessa falta de linearidade reside boa parte do charme da obra que, à medida que se desenvolve, se comprova mais dinâmica e desafiadora do que seus primeiros momentos aparentemente mais protocolares fazem supor. Mérito da ótima direção de Pinheiro, que compreende muito bem a linguagem do dinamismo de um experimento cênico online e promove uma encenação que não usa de muletas do audiovisual para estabelecer o contato com o público.

A medida que o espetáculo se desenvolve em uma espécie de plano sequência, o texto ganha mais força, ajudando a valorizar tanto a cenografia quanto o visagismo e figurino assinados pelo Coletivo Takamakina de Teatro.

Em cartaz em curtíssima temporada online e gratuita até sábado, 13 de março, com transmissão no canal oficial do coletivo no Youtube, Viva Cacilda! Felicidade Guerreira! é espetáculo potente que volta a jogar luz na discussão acerca de uma expressão online que se aproxime do teatro sem precisar de muletas para intensificar a experiência. A tríade texto, direção e elenco comprova que ainda é capaz de segurar uma boa montagem.

SERVIÇO:

Viva Cacilda! Felicidade Guerreira!

Data: 08 a 13 de março

Local: Youtube Coletivo Takamakina

Horário: 19h

Preço do ingresso: Grátis

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