Caso Cabaré Privê - Foto: Ana Alexandrino
Caso Cabaré Privê - Foto: Ana Alexandrino

Quando Pedro Granato pôs em cena, em 2016, a enérgica montagem de Fortes Batidas sob a produção de sua companhia Pequeno Ato, deu à luz um teatro em constante diálogo (em linguagem, estética e ideologia) com o público jovem contemporâneo das grandes metrópoles.

Desde então, sob a batuta do diretor, o Pequeno Ato pôs lupa sobre a divisão política da sociedade brasileira à luz de uma polarização irracional. Surgiram então montagens que beberam da fonte do cinema argentino (Onze Selvagens), da obra de Nelson Rodrigues (1912-1980) (O Beijo no Asfalto) e de uma visão política acerca do crescimento do fundamentalismo e da extrema direita ao redor do mundo (Distopia Brasil).

Com a pandemia do novo Coronavírus e o congelamento do setor cultural, culminando no fechamento de teatros e espaços culturais, impedindo a presença do público, a companhia aderiu ao movimento dos experimentos cênicos online e estreou Caso Cabaré Privê, suspense policial em cartaz desde o início do mês de agosto com temporada prevista inicialmente para se encerrar em 20 de setembro.

Com dramaturgia assinada por Tainá Muhringer e Felipe Aidar, o espetáculo narra os acontecimentos que cercam a morte do filho do Presidente da República durante uma festa particular num cabaré em plena pandemia. Propondo um experimento interativo, a obra dá a chance de o público interrogar as funcionárias do cabaré a fim de solucionar o mistério da morte da personagem (referida durante o jogo com o trocadilho infame de FDP).

Em cena o Pequeno Ato mantém intacta a linguagem estética construída em encenações anteriores e dá importante passo à frente na investigação acerca da linguagem digital. Ao propor (bem sucedida) interação do público com a obra, o grupo explora a plataforma do Zoom sem o caráter contemplativo de boa parte das obras que estrearam até o momento.

A Cia. entrega performance corajosa, uma vez que, ao longo de uma hora e meia, deixa que o público seja o real protagonista da obra. Ao assumir o risco (uma vez que uma plateia pouco interativa pode desvalidar a experiência como um todo), o Pequeno Ato cria verdadeiro híbrido entre a ferramenta digital e seu teatro jovem.

Caso Cabaré Privê - Foto: Ana Alexandrino
Caso Cabaré Privê – Foto: Ana Alexandrino

Ainda que se arrisquem nas mesmas armadilhas da maioria dos experimentos (que buscam um equivocado híbrido entre o audiovisual e a encenação teatral, com o uso geralmente excessivo de imagens pré-gravadas), o grupo triunfa ao optar por imagens que de fato levam a encenação para frente, sem qualquer teor didático ou pretensamente poético.

O grupo, inclusive, se livra de qualquer ranço pretensioso com a fina encenação assinada por Granato. O diretor extrai o melhor da experiência digital, ainda que ela soe defasada, por exemplo, na divisão do elenco. Na sessão acompanhada no último sábado, 22, seria justo salientar o destaque da construção cômica de Gabriela Gonzalez, que tirou bons momentos de sua personagem latina, entretanto fica mai difícil analisar trabalhos individuais.

No todo, o Pequeno Ato manteve, enquanto elenco, a força motora de seus espetáculos anteriores. A exceção de Gonzalez, o grupo (formado por Andressa Lelli, Bella Rodrigues, Bruna Martins, Carolina Romano, Claudia Garcia, Felipe Aidar, Gabriela Gonzalez, Gustavo Zanela, Helena Fraga, Jade Mascarenhas, Letícia Calvosa, Ludmilla Cohen, Luiza Guilien, Isabela Mello, Manuela Pereira, Renan Ramiro e Thiago Albanese em participação especial) manteve interpretação sem grandes arroubos cênicos, mas segurando com garra o jogo da improvisação.

Contudo, o espetáculo, já próximo de sua resolução, o espetáculo soa irregular. O texto de Aidar e Muhringer toma caminhos pueris ao flertar com uma espécie de moral óbvia frente às escolhas do grupo de investigadores formado pela plateia.

Na pele do investigador chefe – e por isso o nome mais exposto do elenco – Felipe Aidar cambaleia, construindo personagem maniqueísta, mas, justiça seja feita, segura bem o dinamismo da interação incessante e improvisada com o público.

Enfim, a despeito das irregularidades que pautam seu desfecho, Caso Cabaré Privê é corajoso e sedutor experimento cênico que não só avança nas investigações virtuais que, até esta montagem, jamais deram mergulho tão profundo nas possibilidades propostas pelo teatro digital, como também envolve o público, eleito o real protagonista da montagem.

SERVIÇO:

Caso Cabaré Privê

Data: 01 de agosto a 20 de setembro (sábados e domingos)

Local: Zoom

Horário: 21h (sábados); 20h (domingos)

Preço do ingresso: R$ 20,00 a R$ 50,00

Link: Sympla.com.br/pequenoato