Em Semente, Stella Tobar potencializa frustrações e medos, mas germina esperança poética

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Não tivesse a pandemia do Coronavírus causado o congelamento do mercado cultural ao redor do mundo com o fechamento de teatros e espaços culturais, talvez Semente, solo que Stella Tobar apresenta online em curta temporada iniciada na última quarta-feira, 11, fosse obra de tom mais protocolar do que sua boa premissa faz supor.

Mas o espetáculo, nascido da frustração de uma resposta negativa para adquirir os direitos de adaptação para os palcos do romance autobiográfico A Ciranda das Mulheres Sábias (2006), da escritora e psicóloga norte americana Dra. Clarissa Pínkola Estés, cresce justamente por unir esse sentimento de frustração à claustrofobia de uma mãe artista isolada e preocupada com o caos exterior.

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É neste misto de emoções e processos interrompidos que Semente cresce e disseca a persona da atriz e dramaturga que, em cena, expõe as dores das crônicas da vida real, filtradas por olhar de tom tão poético quanto descrente.

A obra abrange uma série de temáticas que buscam dar conta deste misto de assuntos e emoções, desde a negação dos desejos sexuais – na história narrativa que fecha o espetáculo com contornos trágicos – até a necessidade de transformar esta personagem auto inspirada em uma figura funcional, sublinhando as pequenas mortes impostas pelo cotidiano.

Embora tenha a frustração como premissa básica, o texto assinado por Tobar passa longe de uma obra contemplativa ou autocomiserativa. Semente é, guardadas as devidas proporções, solo que imprime teor celebrativo ao jogar luz sobre a sobrevivência e a poesia em meio ao caos.  Impressão fortalecida pela (ótima) trilha composta pelo músico carioca Sérvulo Augusto.

A trilha de Augusto é obra fundamental que se funde com (impressionante) naturalidade à dramaturgia de Tobar e às direções de luz e imagem, assinadas, respectivamente, por Giuliano Caratori e André Grynwask. 

Mérito da direção de eucir de Souza, que, constrói ambientação cênica que sublinha a poesia das expressões e, a despeito de ameaçar perder o timing na segunda metade do espetáculo, resulta vitoriosa por confiar no texto e na beleza plástica proposta, também, pela direção de arte de Clau Carmo (que também assina a boa concepção de figurino).

Contudo, o ponto que, de fato, eleva a obra é a interpretação precisa de Tobar, que, embora percorra, a princípio, caminhos mais seguros e reverentes a sua própria escrita, cresce à medida que o espetáculo avança e consegue desconstruir impressão meramente contemplativa que pode, na maioria dos casos, matar uma obra pensada para o universo online.

Não é o caso. Embora mergulhe de cabeça na pulsão de um registro da frustração, Semente conquista boa dinâmica que celebra o poder da criação a partir da tragédia, sem jamais abandonar o registro poético (e iconoclasta), que sublinha o desejo de fazer brotar a esperança do impossível chão.

SERVIÇO:

Data: 11 a 18 de março (quinta-feira a quinta-feira)

Local: Plataforma Zoom

Horário: 22h

Preço do ingresso: Grátis

Ingresso retirado via Sympla.

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