Encontrando equilíbrio na linguagem, Quando as Máquinas Param acha caminhos para Plínio Marcos online

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Desde que a pandemia do Coronavírus congelou o mercado teatral obrigando toda uma classe de profissionais a aderir, em maior ou menor grau, a uma linguagem digital que vinha sendo estudada e desenvolvida por nichos específicos que se expandiram a medida que a reabertura e retomada cultural parecia cada vez menos próxima, uma série de espetáculos usaram das plataformas digitais primeiro para transmitir seus espetáculos, e, depois, para estudar e desenvolver linguagens.

Flertando sempre com os dogmas do audiovisual, uma série de obras nasceram do período pandêmico investigando linguagens que, com o tempo, foram se afastando progressivamente do teatro, seja através da dramaturgia (cada vez menos teatral), seja pela relação com a câmera, transformando peças em curtas travestidos de espetáculos.

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À primeira vista, a montagem de Kiko Rieser para o clássico Quando as Máquinas Param, título essencial da (monumental) obra criada pelo maldito Plínio Marcos (1935-1999), poderia ser mais um exemplo desta descaracterização teatral em prol de uma linguagem pretensamente cinematográfica. O registro em preto e branco e filmado em plano sequência dava a impressão de que haveria uma aproximação danosa com o cinema, se afastando do teatro base.

Impressão falsa. Quando as Máquinas Param de fato lança o dramaturgo santista no universo online e há sim um flerte com uma linguagem cinematográfica que moldou tendência entre o final da década de 1940 e início de 1950 com o lançamento de Festim Diabólico (1948), de Alfred Hitchcock (1899-1980), e desaguou em obras como Malcolm & Marie (2021), de Sam Levinson.

Rieser, contudo, não se deixa levar pelo canto da sereia cinematográfica e é inteligente ao manter intacto o texto de Marcos. E é justamente a força do texto que mantém o espetáculo interessante. A obra, que já contou com centenas de montagens, sendo duas delas mais opacas entre 2018 e 2019, se mantém relevante, ainda que soe como uma crônica de uma sociedade que já não existe, mas que envelheceu bem ao longo das décadas.

Ao apostar no plano sequência e na interação dos atores em cenário que não exige adaptações e figurinos simples (ambos assinados por Kleber Montanheiro e Thaís Boneville), a direção injeta fôlego e beleza plástica à obra que, online, poderia soar meramente protocolar, ou, até, anacrônica.

Rieser leva Marcos a dialogar diretamente com o caos da realidade social contemporânea sem precisar apostar em adaptações ou alterações (recurso que, geralmente, descaracteriza a obra original) a fim de adequá-la ao discurso moderno.

Ainda que o jogo cênico de André Kirmayr e Larissa Ferrara oscile na primeira metade do espetáculo, Quando as Máquinas Param cresce a partir de sua segunda metade se impondo como grande espetáculo feito para grandes atores. Na pele da sonhadora Nina, Ferrara encena com delicadeza a figura submissa, porém decidida.

A cena final, geralmente reconhecida como o grande momento de brilho dramático da personagem, é bem aproveitada pela atriz, mas Ferrara aproveita mesmo dos momentos menos óbvios. A atriz entrega bons momentos principalmente quando a personagem se encontra mais vulnerável.

Já Kirmayr constrói um Zé mais sólido. O ator impressiona pela composição que aposta em tintas mais fortes, mas jamais abandona o ar singelo e (até) ingênuo da personagem, desenvolvendo imediata conexão com o público.

Em cartaz até o dia 20 de abril, com sessões às segundas e terças-feiras, Quando as Máquinas Param encontra o equilíbrio ideal entre o pêndulo muitas vezes descontrolado do teatro e da linguagem audiovisual.

SERVIÇO:

Data: 29 de março a 20 de abril (segundas e terças)

Horário: 20h

Local: Canal oficial do Centro Cultural São Paulo no Youtube

Preço do ingresso: Grátis

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