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Entre fragmentos e fricções, Homem-Bomba constrói intenso trabalho de ator

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Entre fragmentos e fricções, Homem-Bomba constrói intenso trabalho de ator
Homem-Bomba | Foto: Guto Muniz

Ator de múltiplas facetas, Luiz Arthur construiu uma carreira baseada em personagens e interpretações de altas temperaturas desde que ganhou projeção com a encenação de A Morte de DJ em Paris, em 1999. De lá pra cá, o ator enfileirou trabalhos que lhe renderam prestígio e reconhecimento graças a visceralidade com a qual sempre encarou suas personagens.

Em Homem-Bomba, solo que segue em cartaz até sábado, 27 de julho, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro, zona central da capital, não é diferente. O ator interpreta uma personagem dúbia e repleta de nuances e questionamentos acerca da vida e do processo de animalização social ao qual o mundo contemporâneo parece ter aderido.

Em clara referência ao clássico romance O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde, Arthur encena o texto de Cynthia Paulino com a mesma intensidade com a qual constrói – como diretor – a encenação de tom fragmentado e friccionado. Com uma interpretação precisa, o ator apresenta uma personagem dúbia, com lapsos de uma lucidez homicida.

O texto de Paulino, a despeito de abusar de alguns lugares-comuns da crítica social, deixa às claras as intenções do açougueiro interpretado por Luiz Arthur, uma espécie de fragmento de uma sociedade adoecida, ansiosa e imediatista, daí a escolha da encenação por um registro de fala incessante. Sem perder o fio da meada, Arthur volta a se comprovar um dos melhores atores de sua geração com um excelente timing da tragicomédia na qual pauta sua personagem.

É verdade, contudo, que esse mesmo ritmo incessante também ameaça prejudicar a encenação, quando não atinge o pleno e completo diálogo com o público, tornado e corpo de juízes já ao fim dos 60 minutos que compõem este espetáculo que ganha, principalmente, por seu preciso desenho de luz assinado por Marina Arthuzzi, e uma trilha refinada assinada pelo próprio ator, que faz crescer a encenação.

Se, ao fim do espetáculo, a fragmentação e o ritmo intenso nem sempre falam a favor, o desempenho irretocável de Luiz Arthur enche Homem-Bomba de som e fúria num dos grandes desempenhos da temporada.

SERVIÇO:

Data: 10 a 27 de julho (quarta-feira a sábado)

Local: Oficina Cultural Oswald de Andrade – São Paulo

Endereço: Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro

Horário: 20h (quarta a sexta-feira); 16h (sábado)

Preço do ingresso: Grátis