Estruturado em sensibilidades, Help joga luz em discussões sazonais em busca de reflexão

Publicadohá pouco tempo
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Embora não exista, nos ambientes acadêmico e científico, um consenso sobre quando se teria dado início ao processo de globalização, que transformou o ocidente em uma potência culturalmente modeladora e economicamente excludente, é possível precisar que, há pelo menos 500 anos, este é um processo comum que gestou a visão de mundo de qualquer ser humano nascido em países da Europa, das três Américas e de algumas capitais asiáticas.

Com esta realidade em mente e compreendendo o conceito básico e (de)limitador do processo de globalização, não é difícil encontrar respostas para o crescente processo de xenofobia em grande parte de países ao redor do mundo. Somam-se a esta realidade pautas estruturais como o racismo e o machismo que ajudam a sublinhar a linha cada vez menos tênue formada para separar pessoas pretas e de países considerados menores daquelas brancas dentro de países colonizadores.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Guardadas as devidas proporções, é esta linha e seu fortalecimento que entram em análise em Help, peça escrita e dirigida por Sidney Santiago Kuanza sob a produção do coletivo Corpo Rastreado e do Selo Homens de Cor, e que compôs a programação da 24ª edição do Festival Cultura Inglesa no último fim de semana e segue em cartaz na plataforma on demand do projeto com exibição até o dia 28 de março, domingo.

A obra traça o perfil de três jovens nascidos e criados em um país insular, entre a Jamaica e Barbados, que buscam na imigração chances de reconstruir, cada um a sua forma, suas vidas, seja em busca de liberdade, de oportunidades profissionais ou tendo como foco as oportunidades de uma futura geração vindoura.

A trajetória do trio muda completamente quando eles são confrontados pela figura de um oficial da imigração que confronta suas atividades no país à luz de estereótipos e uma visão deturpada e colonialista da cultura caribenha.

No texto, Kuanza alicerça a construção de suas personagens em (bons) arquétipos, enquanto consegue evitar (alguns) estereótipos para retratar não apenas estas três figuras protagonistas, mas também o antagonismo da personagem (bem) vivido pelo ator inglês radicado no Brasil James Turpin.

Turpin constrói personagem dúbio, que se equilibra entre figuras marcantes na cultura racial mundo afora, desde o representante da truculência (física, moral e psicológica) da força policial, até o arquétipo do branco salvador que propõe alguma ruptura e salvação para sua personagem.

Com a mesma delicadeza, Mawusi Tulani alicerça sua personagem em campo menos óbvio. Embora ameace traçar caminho melodramático, Tulani imprime ares suaves a personagem que evoca desde a ancestralidade materna até a sensualidade e o drama do abandono, evocando registros de seu trabalho dentro do paulistano Teatro da Vertigem.

Wand Barbosa, por sua vez, rende menos que seus colegas. O ator, contudo, sofre com o mesmo problema que afeta diretamente a personagem do autor e diretor. Help é texto que se alicerça com mais solidez no conceito a ser retratado do que necessariamente em seu desenvolvimento, e as duas personagens (um bailarino que busca brilhar da forma que lhe possibilitam, enquanto lida com a homofobia e o racismo, e um jovem ainda em busca de seu caminho na vida, acusado de tráfico de drogas) soam irregulares.

Impressão essa que a direção, fragmentada e em busca não tão bem sucedida do flerte com elementos cinematográficos não dilui. A direção, inclusive, ao tentar se conectar com produções para a telona, valoriza pouco o trabalho de luz de Juliana de Jesus, que acaba apagado no resultado final, refletindo diretamente nos figurinos funcionais de Antônio Vanfill.

O texto de Kuanza trabalha com um apanhado de cenas que buscam uma conexão temática ou estética, mas não necessariamente dramatúrgica, a despeito do (singelo) final orquestrado ao som de Quizás, Quizás, Quizás, belo bolero composto pelo cubano Osvaldo Farrés (1903-1985) e lançado em 1947 pelo porto riquenho Bobby Capó (1922-1989).

Enfim, a despeito de irregularidades, Help é obra construída no tempo quente de uma discussão que não parece receber a devida atenção, ainda que, de tempos e tempos, ganhe os holofotes, merece mais atenção, como clama a obra em cartaz apenas até este domingo no cardápio on demand do Festival Cultura Inglesa.

SERVIÇO:

Espetáculo disponível on demand no site oficial do Festival Cultura Inglesa até o dia 28 de março.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio