A Vida Útil de Todas as Coisas
A Vida Útil de Todas as Coisas (Divulgação)

Diretor e dramaturgo, de produção constante, Kiko Rieser coleciona trabalhos de maior ou menor grau de sedução, entre eles as adaptações literárias Capitu, Olhos de Mar (do clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis), Amarelo Distante e A Dama da Noite (ambas sobre a obra de Caio Fernando Abreu). 

Em A Vida Útil de Todas as Coisas, espetáculo em que assina texto e direção, Rieser se afasta da literatura clássica para buscar inspiração no que, a primeira vista, poder ser lido como uma ficção científica contemporânea. Discutindo a funcionalidade do corpo humano e a sina descartável da raça humana frente ao uso da tecnologia, o dramaturgo entrega um projeto ambicioso que, inevitavelmente, bebe da fonte de obras recentes, como a série Black Mirror, do serviço de streaming Netflix. 

Tendo como enredo uma sociedade nem tão distante assim, onde partes defeituosas do corpo são trocados por máquinas, o A Vida Útil de Todas as Coisas parte do drama de uma família que descobre a doença mental degenerativa de seu patriarca e precisa lidar com o fato de não existirem peças para a troca. 

Em meio ao drama, lhes é proposto entregar o ente familiar em troca de um robô. A oferta da vasão a um protesto solitário do filho vivido por Eduardo Semerjian, e abre a discussão acerca da ética e da humanidade em risco frente a praticidade cibernética.

Excelente ator, Semerjian constrói uma personagem de nuances delicadas, ainda que trabalhe exclusivamente com os elementos do texto. O ator consegue uma cumplicidade com o público, que lhe garante sucesso no sutil tom catártico no qual se desenvolve até seu desfecho que, a certa altura, peca pela previsibilidade. 

Na pele do patriarca, João Bourbonnais também se sai bem na construção do idoso que lida com as limitações da terceira idade em tom bonachão. Sem estar necessariamente à vontade com o texto, Bourbonnais pode crescer ainda mais durante a temporada.

Contudo, verdade seja dita, Rieser reuniu em cena, um dos elencos mais harmônicos desta temporada teatral, e soube trabalhar com elementos que fazem com que o público construa identificação com as personagens e com a história como um todo. 

Louise Helène, por exemplo, consegue um alívio cômico com um insuspeito timming da comédia de situação proposta pelo texto. A atriz também tende a crescer ao longo da temporada, principalmente na virada dramática de sua personagem. 

Em um elenco repleto de ótimos atores, é importante ressaltar o destaque de Luciana Ramanzini, com uma construção exata de uma personagem que assume um tom tragicômico. A atriz constrói uma atendente, endurecida e robotizada pela dor da perda, irrepreensível. Sua cena final é construída no tempo da delicadeza, com bonita atuação focada no olhar. 

A (boa) dramaturgia de Rieser resulta sedutora na construção das personagens e seus desfechos que, embora previsíveis, tocam. Já sua direção opta por caminhos conservadores que não valorizam o trabalho da ficha criativa. O (excelente) cenário de Marisa Bentivegna, por exemplo, se perde na intenção pouco aproveitada de interagir com o elenco, assim como os figurinos criados por Kleber Montanheiro, pouco valorizados pela cena.

O desenho de luz de Aline Santini, por outro lado, constrói e sublinha tensões cênicas que dialogam com a (bonita) trilha de Gregory Slivar. Contudo, o saldo final de A Vida Útil de Todas as Coisasse mantém positivo, principalmente por expor delicada discussão – ainda que com baixo teor de ineditismo – acerca dos avanços tecnológicos e, pela tangente, o cenário político contemporâneo. 

SERVIÇO: 
Data: 23 de maio a 15 de junho (quinta a sábado) 
Local: Oficina Cultural Oswald de Andrade – São Paulo (SP) 
Endereço: Rua Três Rios, 363, Bom Retiro 
Horário: 20h (quintas e sextas); 18h (sábado) 
Preço do ingresso: Grátis