Pandas Ou Era uma Vez em Frankfurt | Foto: Divulgação
Pandas Ou Era uma Vez em Frankfurt | Foto: Divulgação

Quando foi anunciado o decreto de distanciamento social e quarentena para o combate e a prevenção do novo COVID-19 (Coronavírus), o setor teatral não apenas foi o primeiro a sair de cena, mas também o primeiro a se movimentar em campanhas para incentivar a permanência das pessoas em casa através de lives e de ações virtuais, como disponibilizar a íntegra de peças e textos teatrais.

Sem uma previsão efetiva de quando o cenário se normalizará, artistas já começam a pensar formas de fazer desta nova realidade virtual uma forma de fomentação a arte. Para além das lives musicais e das leituras encenadas que foram até então o principal caminho seguido pela classe para seguir em movimento, novas formas de promover a experiência cênica começam a ser testadas.

O grupo carioca Teatro Caminho, que estrearia num apartamento o solo O Filho do Presidente, adaptou a encenação para caber na plataforma de videoconferência Zoom, com apresentações esporádicas e comandadas pelo ator Ricardo Cabral. Em paralelo, o ator Ivam Cabral levou para seu perfil oficial do Instagram, por meio de lives semanais, sua peça Todos os Sonhos do Mundo, transportando a encenação dos palcos para sua casa.

Com estreia oficial agendada para hoje, 15, após uma série de pré-estreias na mesma plataforma Zoom, Pandas ou Era uma Vez em Frankfurt é o primeiro produto realmente pensado para se tornar uma espécie de híbrido entre teatro e vídeo, produzido especialmente para uma plataforma digital e com um elenco de dois atores.

Partindo do texto História do Urso Panda (Contada por um Saxofonista que tem uma Namorada em Frankfurt), do dramaturgo romeno radicado na França Matéi Visniec, Pandas ou Era uma vez em Frankfurt conta com adaptação e dramaturgismo assinados pelo diretor Bruno Kott, que assina a concepção e a condução do elenco formado por Nicole Cordery e Mauro Schames.

A partir da história de duas pessoas que acordam na mesma cama e não se conhecem, a peça traça uma narrativa acerca da construção de uma relação e de como ela se configura frente a situações extremas. Na encenação, as duas personagens sem nome estabelecem uma conexão que remete ao texto original de Visniec, no qual um homem revê a vida através de seu relacionamento com a morte.

Contudo, a despeito da fina dramaturgia desconstruída por Kott, o que de fato chama a atenção é a encenação que absorve a linguagem fugaz e imediatista do mundo virtual numa encenação de precisos 30 minutos de duração. Desde o prólogo com vídeos sugados da rede Tik Tok até a troca insana de cenários (e a contrarregragem de cada ator), resulta impressionante a encenação que conserva alguns dos cânones do teatro, sem que soe excessivamente reverente.

Kott compreende com perfeição as linguagens e as funde num espetáculo que não se propõe pretensiosamente teatral, nem tampouco cinematográfico, é um híbrido ainda descortinando caminhos desconhecidos. E é essa ânsia de desbravar o desconhecido que impressiona, principalmente pela disposição de Nicole Cordery e Mauro Schames.

A dupla não apenas se comprova à vontade, como envolve a plateia virtual, que, a despeito de resistências e dificuldades tecnológicas, vêm aderindo a experiência, muito graças à novidade em si, mas principalmente pelo desempenho dos atores. A dupla troca com insuspeita naturalidade e constrói registro sólido, driblando eventuais problemas comuns ao mundo virtual – sendo a conexão um dos mais corriqueiros.

O fato é que Pandas ou Era uma Vez em Frankfurt já seria produto válido apenas pela experiência de vanguarda que, diferente da regra básica para primeiros testes de novas linguagens, atinge grau de excelência que seria elegível para os principais prêmios do gênero se estivesse montado numa sala de teatro. 

Havendo a impossibilidade, a produção surfa pelas ondas da novidade mostrando que, num cenário caótico de saúde e política, o teatro encontra meios de sobreviver e produzir conteúdo de alto nível a despeito das críticas de tom mesquinho demais para o momento mundial.

SERVIÇO:

Pandas ou Era uma Vez em Frankfurt

Data: 15 de maio a 06 de junho

Local: Plataforma Zoom

Horário: 20h

Preço do Ingresso: Valor solidário

Onde comprar: Site Sympla

Todo o valor arrecadado será revertido para Fundo Marlene Colé, idealizado para assistir artistas neste momento de pandemia.

A produção avisa: para assistir à experiência, é necessário baixar o aplicativo Zoom no seu computador através deste link. Depois, é só reservar o seu ingresso pelo Sympla clicando neste link e seguir as instruções.