Ninho - Foto: Lígia Jardim
Ninho - Foto: Lígia Jardim

Desde que a pandemia do novo Coronavírus congelou o mercado cultural exigindo que artistas ao redor do Brasil encontrassem uma forma de dar sobrevida às suas produções, buscando respiro artístico e  financeiro, um novo movimento ainda em desenvolvimento surgiu, buscando uma fusão entre o universo das redes, o audiovisual e a linguagem teatral em alguma medida.

Surgiram, então, experiências bem sucedidas no meio, como o seminal Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt, de Nicole Cordery, Mauro Schames e Bruno Kott, A Arte de Encarar o Medo, do grupo Os Satyros, e Peça, fruto da parceria de Marat Descartes com Janaína Leite, entre outros títulos que tinham a câmera como um dos agentes imersivos da obra, utilizando de efeitos cenográficos que transformavam o espetáculo em imersões na nova linguagem digital.

Em paralelo, outras obras optaram por diminuir o grau de experimentações virtuais, tendo como foco a tríade direção-texto-interpretação, resultando tão interessantes quanto. Entre os títulos estão Onde Estão as Mãos Esta Noite?, de Juliana Leite, estrelando Karen Coelho sob a direção de Moacir Chaves, Uma Mulher Só, excerto da obra de Dario Fo (1926-2016) e Franca Rame (1929-2013) sob a direção de Marco Antônio Pâmio e protagonizado por Martha Meola e mesmo a adaptação de Eu não Dava Praquilo, estrelando Cásso Scapin sob a direção de Elias Andreato.

Com esta nova modalidade teatral inserida nas produções durante a pandemia, uma série de espetáculos têm se adaptado ao formato, potencializando, inclusive, uma futura estrutura de venda de ingressos para transmissões online diretamente dos palcos. Projetos como Teatro Já, do Teatro PetraGold, no Rio de Janeiro, e o Festival Palco Presente, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo são dois exemplos bem sucedidos de apresentações remotas em moldes tradicionais.

Entretanto, à medida que houver o retorno da plateia ao espaço físico, os espetáculos que optarem por transmitir suas sessões online podem enfrentar verdadeiros desafios para encontrar uma interação direta entre público presente e remoto.

Traduzido e estrelado por Janaína Suaudeau sob a direção de Bruno Guida, Ninho, que estreou no último dia 01 de outubro e segue em cartaz até amanhã, 08, com transmissão online diretamente do palco do Espaço Viga Cênico, em São Paulo, talvez seja o maior exemplo deste desafio.

A obra do dramaturgo espanhol Marc Garcia Coté é peça de tom épico, com dramaturgia friccionada e repleta de elementos e passagens que, a bem da verdade, nem sempre contribuem para o desenvolvimento da história da garota que, após um acidente de avião, decide guardar silêncio por muito tempo.

Seu silêncio é quebrado e, em ritmo vertiginoso e incessante, ela começa a expor passagens de sua vida, os medos, os anseios e tudo o que a corroeu durante o período de silêncio autoimposto.

O figurino e os adereços de Marcela Donato, o visagismo de Daniel Infantini e a trilha original de Marcello Pellegrino constroem atmosfera lírica para os devaneios da personagem, que crescem à medida que o espetáculo se desenvolve em pouco menos de uma hora.

Ninho é, de fato, um grande espetáculo plástico. Entretanto, a transmissão optada pela produção – uma câmera parada com uma resolução irregular – faz com que a montagem saia prejudcada, perdendo boa parte da força e encanto. 

Não fosse a ótima atriz que já se comprovou ser anteriormente, Janaína Suaudeau teria o desempenho ainda mais comprometido pela transmissão, que não é apta a mostrar os detalhes de sua construção (prejudicando também o trabalho de maquiagem de Louise Hélène).

Safa, contudo, a artista consegue driblar irregularidades e fazer sua interpretação, construída milimetricamente para levar o público na mesma viagem vertiginosa de sua personagem co base apenas no tom de sua voz e no trabalho corporal, se sobressair nos percalços.

Na transmissão, a encenação de Bruno Guida tem menos sorte e resulta monótona e sem dinamismo, assim como a luz de Anna Turra, prejudicada pela falta de nuances da câmera.

Ao optar pelo formato de uma câmera estática reproduzindo um espetáculo gestado para o palco, sem uma interação ou adaptação ao formato (ou mesmo o uso de outros elementos que possibilitem melhor resolução para a obra), Ninho resulta em obra monocórdia, como uma peça filmada para arquivo.

Tão logo haja controle da pandemia, uma  encenação para público presente (e não remoto) deve chegar aos palcos, o que deve potencializar a obra e os trabalhos envolvidos, mas, ao optar por transmissão protocolar, Ninho se transforma em peça mais irregular do que sua ficha técnica deixa transparecer.