Madura, Myra Ruiz mergulha com intensidade em roteiro nem sempre à altura de seu talento como cantora

Publicado em 21/6/2021
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Myra Ruiz

Show: Myra II: Melancolia Eufórica

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Data: 19 de junho

Local: Teatro FAAP – São Paulo

Cotação: *** ½

“Eu vou falar bem devagar para esse momento nunca acabar, e para eu recuperar o fôlego”, gracejou Myra Ruiz após mergulhar com intensidade em 7 Things (Miley Cyrus/ Tim James/ Antonina Armato), rock lançado pela estrela pop Miley Cyrus em 2008 em Breakout, o segundo álbum da carreira da artista que ainda tentava traçar personalidade própria após emergir como um dos principais nomes do cast da superpoderosa Disney.

Cyrus foi nome recorrente no roteiro de Myra II: Melancolia Eufórica, show que, no título, faz referência a espetáculo passado (Myra), e no qual a atriz e cantora paulistana mergulhou em universo particular calcado em hits pop, em sua maioria lançados após a segunda metade dos anos 2000. Ruiz passeou pela obra de nomes como Lana Del Rey, Billie Elish, Dua Lipa e a sensação contemporânea teen Olivia Rodrigo com fluidez que comprovou que a artista é cantora maior do que o repertório escolhido faz supor.

Madura, Ruiz não se privou de passear por repertórios menos óbvios, como o da girl band 4 Non Blondes e do camaleão David Bowie (1947-2016) em show de pouco mais de uma hora no palco do Teatro FAAP, em São Paulo, em sessão única transmitida no último sábado, 19.

“Eu via um teto cinza. Talvez ele fosse rosa, mas eu via tudo em preto e branco naquele tempo”, brincou, bem humorada, a artista que desenvolveu espetáculo baseado nas histórias de amor que viveu ao longo de seus 27 anos de idade. Ruiz desfiou histórias sobre o amor romântico, relações tóxicas e, principalmente, a superação em espetáculo que pecou justamente pela quantidade de textos alocados entre as canções.

Ruiz é boa cantora que causa empatia imediata com o público, muito por seu bom humor, muito pela voz tamanha que põe a serviço de canções de reconhecimento imediato do público que pretende alcançar A artista tem a esperteza de se comunicar principalmente com o público juvenil que angariou após estrelar a versão nacional do blockbuster da Broadway Wicked (2016).

E é justamente este conhecimento de causa que faz com que a artista mergulhe com tanta naturalidade e segurança em temas menores, como Favorite Crime (Olivia Rodrigo/ Daniel Nigro), Ride (Lana Del Rey/ Justin Parker) e My Future (Billie Elish/ Finneas O’Connell). Entretanto é essa mesma segurança que leva a artista a pescar pérolas pop pouco óbvias, como Edge of Seventeen, hit oitentista composto pela norte americana Stevie Nix à época da morte do beatle John Lennon (1940-1980).

É essa seleção que leva Melancolia Eufórica a caminho diferente do que faz supor o material gráfico de divulgação, o cenário, o (belo) figurino assinado por Caio Sobral e o medley de abertura, que une hits da era disco da saborosa parceria de Rita Lee e Roberto de Carvalho.

Ruiz entra em cena enfileirando Corre-Corre (1979), Chega Mais (1979) e Saúde (1981), em número que dá falsa impressão de show temático, quebrada logo no segundo número, quando a artista interpreta o supracitado rock 7 Things com citação a Brutal (Olivia Rodrigo/ Daniel Nigro), canção valorizada pela guitarra afiada de Danilo Toledo.

Toledo, que também assume o violão, brilha ainda na anticlimática Sorte e Azar (Cazuza/ Roberto Frejat), a canção gravada em 1982 pela banda Barão Vermelho e lançada apenas em 2013 após reedição do clássico álbum produzido por Ezequiel Neves (1935-2010), que, por superstição, suprimiu a faixa da edição original.

Com banda formada ainda por Yara Oliveira (destaque na bateria), Renato Leite (baixo) e Andrei Presser (teclados, arranjos e direção musical), Ruiz deita em cama bem armada ainda com a adesão do quarteto de backing vocals: Anderson Lima, Luma Gouveia, Guilherme Lopez, Isabella Guimarães.

Os quatro cantores brilham, principalmente ao acompanhar a artista em surpreendente abordagem de Panis et Circenses (Caetano Veloso/ Gilberto Gil), que deságua em versão opaca de Blues da Piedade (Cazuza/ Roberto Frejat), o hit sócio político do Barão Vermelho que tem seus versos pouco valorizados na voz de Ruiz, que se sai melhor ao celebrar o Starman de Bowie.

Encerrado ao som de Levitating (Dua Lipa/ DaBaby/ Stephen Kozmeniuk/ Sarah Hudson/ Clarence Coffee Jr.), hit lançado em 2020 pela inglesa Dua Lipa, Melancolia Eufórica volta ao tom disco do início do espetáculo e reforça a impressão deixada pelos espetáculos anteriores de Myra Ruiz: a de que a cantora é figura artisticamente madura o bastante para segurar um show próprio a despeito do repertório nem sempre à altura de sua voz tamanha.

Confira abaixo o roteiro do show apresentado na noite de 19 de junho:

1- Corre-Corre/ Chega Mais/ Saúde (Rita Lee/ Roberto de Carvalho)

2- Brutal (Olivia Rodrigo/ Daniel Nigro)/ 7 Things (Miley Cyrus/ Tim James/ Antonina Armato)

3- Certas Coisas (Lulu Santos/ Nelson Motta)/ Apenas mais uma de Amor (Lulu Santos)/ O Último Romântico (Lulu Santos/ Sérgio Souza/ Antônio Cícero)

4- Favorite Crime (Olivia Rodrigo/ Daniel Nigro)

5- High (Miley Cyrus/ Caitlyn Smith/ Jennifer Decilveo)

6- Midnight Sky (Miley Cyrus/ Andrew Watt/ Ali Tamposi/ Louis Bell/ Isley Juber/ John Bellion)/ Edge of Seventeen (Stevie Nicks)

7- Ride (Lana Del Rey/ Justin Parker)

8- My Future (Billie Elish/ Finneas O’Connell)

9- What’s Up (Linda Perry)

10- Panis et Circenses (Caetano Veloso/ Gilberto Gil)

11- Blues da Piedade (Cazuza/ Roberto Frejat)

12- Starman (David Bowie)

13- Sorte e Azar (Cazuza/ Roberto Frejat)14- Levitating (Dua Lipa/ DaBaby/ Stephen Kozmeniuk/ Sarah Hudson/ Clarence Coffee Jr.)

14- Levitating (Dua Lipa/ DaBaby/ Stephen Kozmeniuk/ Sarah Hudson/ Clarence Coffee Jr.)

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