As Comadres | Foto: Lina Sumizono
As Comadres | Foto: Lina Sumizono

Quando estreou em meados da década de 1960 em Quebec, no Canadá, a comédia Les Belle-Soeurs chocou público e crítica, representantes de uma sociedade que, a época, ainda era bastante resistente às investidas do feminismo e as mudanças proporcionadas pelos planos de igualdade social previamente enxergados na Globalização.

No texto do canadense Michel Tremblay, uma dona de casa do subúrbio ganha um milhão de selos promocionais e convida suas amigas para ajudá-la a colá-los durante uma festa. O encontro do grupo abre espaço para uma série de discussões em voga em 1965, ano da primeira montagem, e ainda hoje, em 2019, quando cumpre temporada no Sesc Consolação até o próximo domingo, 28 de julho, com o título de As Comadres.

Sob a supervisão artística de Ariane Mnouchkine – fundadora e ainda hoje líder do grupo francês Théâtre du Soleil -, o espetáculo chega ao Brasil na adaptação musical do diretor francês René Richard Cyr com músicas de Daniel Bélanger, e assumindo uma linguagem própria do Théâtre du Soleil de Mnouchkine, revezando, por sessão, 20 atrizes em 15 personagens.

O revezamento faz bem para a peça, que não apenas evita vícios, como também proporciona experiências infinitas para a plateia que se aventurar a ver mais de uma vez a montagem que, ao longo de das horas entregou um excelente tempo cênico, com ritmo invejável e uma transição entre comédia e drama que sublinhava tensões e evitava marasmos.

Com excelente entrosamento, o elenco da sessão acompanhada pelo Observatório, construiu bonita parceria cênica. As atrizes enfrentam, sem medos ou receios, a maratona vocal de um musical com vigor, ainda que nem todas tenham a voz necessariamente talhada para o canto. Mas este se torna detalhe pequeno frente a direção musical competente de Wladimir Pinheiro.

O diretor não apenas tira, vocalmente falando, o melhor das atrizes, como também faz crescer as músicas compostas por Bélanger, originalmente menores que o texto de Tremblay. Em As Comadres, os arranjos fazem toda a diferença para que os temas criem auxiliem na criação do clímax, que atinge seu ápice na canção de apresentação das “comadres” e no enérgico tema em homenagem ao bingo, que deixa clara a contextualização social deste espetáculo bem adaptado aos subúrbios brasileiros.

Ponto para o excelente elenco, que entrega desempenho uniforme. Entretanto, a despeito da ótima construção, que dá destaque a todas as atrizes, um grupo consegue, ainda assim, sobressair, como é o caso de Sirléia Aleixo, atriz que carrega uma comicidade inerente e conquista com um carisma impressionante emprestado a sua Ivete, ao contrário de Fabiana de Mello Souza que, também carismática, domina um timing cômico que ajuda na construção de sua beata Romilda.

Ariane Hime, na pele de Teresa, também carrega um timing próprio que ajuda na condução do espetáculo, fazendo ótima dupla com Leda Ribas, na pele da doente e manipuladora Olivina. Letícia Medella a pele da beata Branca Viiera constrói interpretação pautada pelo tempo da delicadeza e se sobressai, ao lado de uma inspirada Ana Achcar, na pele de uma esnobe Lusete, personagem que se prova a figura perfeita de uma representação da classe média alta.

Entretanto, apesar dos destaques, quem se sobressai na montagem, conseguindo uma das melhores interpretações de sua carreira em musicais é Janaína Azevedo, atriz com atuações pontuais em São Paulo, mas com carreira mais que consolidada no Rio.

Azevedo, na pele da vencedora de um milhão de selos, Germana, ao mesmo tempo em que faz rir, entrega uma interpretação tocante repleta de som e fúria num de seus melhores trabalhos de atriz.

O espetáculo percorre não apenas a crítica social, como também tenta – e consegue – debater o lugar da mulher na sociedade sem cair no lugar comum, tampouco, ao longo de duas horas, deixar de prender a atenção da plateia, ainda que guarde passagens menos inspiradas que condizem menos com o todo – como a discussão acerca do aborto com interpretações um pouco histriônicas. Mas volta a crescer quando, já no final apoteótico, discute as pequenas corrupções suburbanas do dia a dia do cidadão.

Em cartaz apenas até 28 de julho em curtíssima temporada no Sesc Consolação, na zona central da capital, As Comadres se sobressai como um dos melhores espetáculos em cartaz, seja pelo trabalho despretensioso de um texto adaptado com exatidão, seja no trabalho de um grupo excelente de atrizes sob a supervisão artística metódica de Ariane Mnouchkine, que não apenas extrai o melhor de seu grupo, como também promove comunhão entre (excelente) cenário e ótimo desenho de luz neste que é um musical fora da curva, e triunfa justamente por não se deixar seduzir pela produção da grande máquina.

SERVIÇO:

As Comadres

Data: 05 a 28 de julho (quarta a domingo)

Local: Teatro do Sesc Consolação – São Paulo (SP)

Endereço: Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque

Horário: 21h (quarta a sábado); 19h (domingo)

Preço do ingresso: R$ 14,00 (comerciário) a R$ 40,00 (inteira)