Musical sobre Cole Porter aponta necessidade de renovação da grife Möeller & Botelho

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Musical considerado marco zero na popularidade da magistral obra construída pela dupla de diretores Charles Möeller e Claudio Botelho, Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava foi, na virada do século, a consagração destes profissionais com contribuição imprescindível para o teatro musical brasileiro, ainda hoje em busca de uma linguagem própria que o emancipe da hegemonia das superproduções enlatadas importadas diretamente de praças como a Broadway nova iorquina e o West End londrino.

Hoje, vertida em verdadeira grife com mais de 40 espetáculos no currículo, o título Möeller & Botelho se tornou uma espécie de termômetro qualitativo para espetáculos do quilate de Company (2000), Ópera do Malandro (2003), Sweet Charity (2006), A Noviça Rebelde (2008), Gloriosa (2008), Avenida Q (2009), O Despertar da Primavera (2009), Gypsy (2010), Hair (2010), Um Violinista no Telhado (2011) e Judy Garland – O Fim do Arco-Íris (2011), apenas para citar o crème de lacrème do que veio a ser o período que compilou a fase áurea da dupla.

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Exibindo inevitáveis sinais de desgaste nesta última década, os diretores enfileiraram produções que podem ser divididas entre aquelas com maior ou menor êxito artístico. Ambiciosos, experimentaram a criação de uma linguagem própria no (ótimo e soturno) espetáculo 7 – O Musical (2007), enquanto reinventaram linguagem que se ocuparam de consagrar com a produção de títulos como Beatles num Céu de Diamantes (2008), Milton Nascimento – Nada Será como Antes (2012) e Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos (2014).

Na seara menos inspirada, a dupla criou e aceitou convites para se dedicar a espetáculos menores, em títulos como Como Vencer na Vida sem Fazer Força (2013), Nine – Um Musical Felliniano (2015), Cinderella – O Musical (2016) e Se meu Apartamento Falasse (2017).

Em compensação, também criaram títulos com ambições artísticas plenamente atingidas, como o lúdico Os Saltimbancos Trapalhões (2014), o clássico Kiss me Kate – O Beijo da Megera (2015), o thriller soft O Que Terá Acontecido a Baby Jane (2016), e o clássico da contracultura Rocky Horror Show (2016).

Em cartaz no Teatro Porto Seguro desde sexta-feira, 21, quase 20 anos após sua estreia, Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava, infelizmente, se encontra no primeiro grupo. Passando a limpo a vida e a obra do compositor mais importante da música popular americana, o espetáculo pode ser lido como uma espécie de embrião do que viria a ser o mercado do teatro musical voltado para as biografias musicais, já experimentado anteriormente com êxito impressionante por Bibi Ferreira nas peles de Edith Piaf e Amália Rodrigues.

Embora retorne a cena envolto em certa aura de saudosismo, que costuma ser importante aliado em espetáculos do gênero, Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava ressoa mais irregular do que sua brilhante trajetória pregressa deixa transparecer.

Partindo do depoimento de cinco mulheres importantes na vida do compositor, sua mãe Kate, sua esposa Linda, sua amiga Elsa, sua agente Bessie e sua musa Ethel, o espetáculo busca encenar a trajetória de Porter a partir da condução de uma personagem inerente a todas elas, a morte.

Na pele da folclórica dama de preto, Malu Rodrigues encontra neste trabalho o principal veículo para tentar virar a chave e encontrar novos registros para sua interpretação, geralmente linear desde que ganhou projeção no mercado do teatro musical há 10 anos justamente na mão da dupla, em brilhante montagem de O Despertar da Primavera.

A atriz ainda busca o tom da personagem em interpretação que, se não a tira de sua zona de conforto, ao menos dá claros sinais de que a atriz persegue novas nuances, que devem surgir com o tempo. O mesmo se pode dizer de Marya Bravo, cantora de excelência inquestionável e que, neste espetáculo, enfrenta a missão de dar vida a primeira dama do teatro musical norte americano, Ethel Merman.

Envolta em nervosismo comum por se tratar de uma noite de estreia, Bravo ainda precisa encontrar o tom de sua Ethel, atriz tão intensa na vida quanto na arte que surge em registro excessivamente delicado e sensual na pele da atriz que, verdade seja dita, angaria para si alguns dos melhores momentos do espetáculo, graças a suas interpretações de Love for Sale (1930) e It’s All Right With Me (1953).

Atriz que fez parte da primeira versão do espetáculo e que, desde então, conquistou algumas das melhores performances dos espetáculos da dupla de diretores, como no excelente Kiss me Kate – O Beijo da Megera, há quatro anos, marcando sua consagração como atriz ao angariar prêmios do quilate do Aplauso e Cesgranrio e indicação a todos os outros, Alessandra Verney constrói uma Bessie Marbury com insuspeita comicidade.

Sagrada uma das melhores cantoras de sua geração, Verney se depurou como intérprete após cair na estrada com seus espetáculos solo Café de Hotel e #MemoHits, experiência que fez crescer sua interpretação em temas como I Hate Man (1948), mas prejudicou sua abordagem de So in Love (1948), belíssima e sofrida canção que pede lirismo mais aflorado do que a pungente abordagem da artista.

Se Verney trabalhou com uma comédia talhada no tempo de certa delicadeza fina, o mesmo não se pode dizer de Bel Lima, atriz que dá vida a mãe do compositor, Kate Porter. Com interpretação caricata, Lima persegue as piadas em cena sem, contudo, atingir a delicadeza do timing cômico pelo qual o musical buscou passear ao longo de (excessivas) duas horas.

Se a direção de Möeller & Botelho pecou pelo excesso, acertou em cheio não apenas na seleção do repertório, mas também na escalação de Analu Pimenta e Stella Maria Rodrigues, atrizes que se destacam na encenação. Na pele da melhor amiga do compositor, a jornalista Elsa Maxwell, Analu opta por uma construção também caricata, porém adequada a perfeição para a figura não menos caricata e mítica de Maxwell. Nas interpretações de I’ve got you Under my Skin (1936) e Blow Gabriel Blow (1934), a atriz se sobressai como ótima cantora.

Mas quem de fato se destaca na encenação é Stella Maria Rodrigues, também presente na versão original do espetáculo há 19 anos. Grande atriz e uma das melhores de sua geração, Rodrigues tem um tempo cênico talhado para o tablado do clássico ao moderno. Consagrada entre 2017 e 2018 por suas brilhantes interpretações em espetáculos como Emilinha (2017), na qual deu vida a cantora Emilinha Borba, Solteira, Casada, Viúva e Divorciada (2017) e Romeu & Julieta ao som de Marisa Monte (2018), Rodrigues vive a esposa do compositor, Linda Porter.

Com interpretação delicada, Rodrigues valoriza não apenas o texto como também realiza bonito jogo cênico com suas colegas, além de construir diálogo tocante com o público. Sua interpretação de All of You (1954) é o grande momento do espetáculo pela visceralidade construída no tempo de uma delicadeza sofrida, abrindo possibilidade para a indicação dos principais prêmios do gênero.

Enfileirando 26 canções construídas em quadros interessantes (com destaque para a beleza plástica de High Society Calypso, de 1956, e Let’s Do It, Let’s Fall in Love, de 1928, em fluida versão de Claudio Botelho), o musical, contudo, não consegue dissipar a impressão de trivialidade do texto assinado por Charles Möeller, tampouco dos arranjos de Marcelo Castro, executados por um trio formado por piano (Marcelo Castro), contrabaixo e violão (Vanessa Ferreira) e bateria e percussão (Bruna Barone).

É simplista também a luz assinada por Paulo César Medeiros, geralmente irrepreensível. Simples também, porém funcional e com elegância plástica imponente, o cenário de Rogério Falcão contribui bem para a história, que cresce mesmo graças aos (excelentes) figurinos de Marcelo Marques e ao visagismo assinado por Beto Carramanhos.

Quase 20 anos após sua consagradora estreia, Cole Porter – Ele Nunca Disse que me Amava é espetáculo feito para os corações saudosos da simplicidade e delicadeza dos espetáculos do início da década passada, quando os musicais ainda eram gestados e produzidos de forma artesanal e menos enlatada.

Contudo, contagiado pelo mercado da franca produção, a versão recauchutada deste clássico não serve a grife criada pelos diretores Charles Möeller e Claudio Botelho, que, neste espetáculo, apenas reforçam a impressão de que sua fórmula apresenta claros sinais de desgaste que precisa urgentemente de reinvenção para não se tornar simplesmente trivial.

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