Online, O Despertar esvazia força cômica e expansiva de obra de Dario Fo e Franca Rame

Publicado em 19/6/2021
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Ao encenar em 1982 a primeira montagem brasileira de Morte Acidental de um Anarquista, texto do dramaturgo italiano Dario Fo (1926-2016) montado 12 anos antes na Itália, estrelado por Antônio Fagundes, Antônio Abujamra (1932-2015) promoveu a abertura de um processo de popularização da obra do autor, que culminaria em montagens consecutivas de mais dois espetáculos de sucesso de público e crítica.

Denise Stoklos põe em cena Um Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico (1983), enquanto Marília Pêra (1943-2015) bate recordes de bilheteria com Brincando em Cima Daquilo (1984), as duas, compilações de textos curtos sobre a condição feminina escritos por Fo e sua principal parceiras, a atriz, diretora e dramaturga italiana Franca Rame (1929-2013).

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Em ambas as obras, a condição da mulher no século XX era posta em xeque ao apresentar diferentes situações, como a de uma trabalhadora de chão de fábrica que narra sua rotina de classe média baixa, e a da mulher que é mantida prisioneira pelo marido que a descobriu envolvida em um caso extraconjugal.

A partir daí, uma série de outros textos de Fo e Rame ganharam os palcos brasileiros, estrelando nomes como Domingos Montagner (1962-2016), Martha Meola, Débora Bloch, Wilson de Santos, Paulo Goulart Filho, Dan Stulbach, Herson Capri, Amir Haddad, Antônio Pedro, Osmar Prado, Julio Adrião, entre outros.

Em cena desde o dia 11 de junho, quando estreou curtíssima temporada online, O Despertar adiciona a paulista Carla Candiotto à essa lista de célebres intérpretes da obra de Dario Fo e Franca Rame no Brasil. Sob a direção de Neyde Veneziano, a obra é a segunda incursão digital da obra do casal de italianos no Brasil.

Em 2020, Martha Meola driblou as limitações do digital ao sublinhar a condição irônica e desesperadora da mulher encarcerada pelo marido em casa com a montagem de Uma Mulher Só, sob a direção de Marco Antônio Pâmio.

Em O Despertar, Candiotto passeia pelo mesmo cenário da encenação anterior ao pôr em cena a história da mulher de classe média baixa que, trabalhando num chão de fábrica, precisa lidar com as agruras da vida enquanto tenta se aprontar para sair com seu filho, ainda um bebê de colo.

Na adaptação assinada por Veneziano, a personagem se aproxima ainda mais da realidade brasileira ao ser localizada como funcionária de uma loja de artigos orientais de R$ 1,99. Em cena, Veneziano e Candiotto não apenas reforçam o assédio sexual que a personagem deixava sugerido, como também sublinham os abusos domésticos, levantando discussões ainda mais contemporâneas dentro do texto já atemporal.

Encenado por Marília Pêra e Denise Stoklos, o texto teve valorizada a grandiloquência que dá graça à história muito alicerçada na comédia física, e é justamente aí que O Despertar parece render menos do que poderia.

Atriz de talento inegável e com influências da commedia dell’arte, Candiotto não consegue a expansão necessária para fazer do pequeno espaço que lhe é dado um aliado para contar sua história. A artista usa de todos os artifícios que pode para tentar manter a obra no ritmo frenético que faz do texto original, Il Risveglio (1977), um dos títulos mais saborosos da parceria entre Fo e Rame.

A direção de Veneziano opta por tentar criar um cenário que se aproxime de um realismo bufão, o que parece surtir o efeito aprisionador, e mantém Candiotto em situação claramente desconfortável. A opção da diretora – que já assinou boas encenações da obra de Fo no Brasil, entre elas Mistero Buffalo (2005) e Francesco (2019) – soa inexplicável, uma vez que a produção foi registrada no palco de um teatro.

O espaço cênico daria a possibilidade de Candiotto abusar do tom expansivo da obra, mas, ao condensá-la em espaço limitado, faz com que O Despertar surja como obra fora do compasso cômico e crítico que eternizou o nome da dupla Dario Fo e Franca Rame no imaginário da cultura ocidental.

Em cartaz apenas até amanhã, 20, O Despertar é obra que não se adaptou bem ao universo online, comprovando as limitações de uma linguagem urgente que apenas sublinha as muitas possibilidades que uma obra pode ter em cena se montada em seu tempo e tamanho certos.

SERVIÇO:

O Despertar

Data: 11 a 20 de junho (sexta-feira a domingo)

Local: Canal Veneziano Produções

Horário: 20h

Preço do ingresso: Grátis

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