Potente como experimento cênico digital, Dora ressoa trajetória de guerrilheira com dramaturgia apagada

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Quando, em 2011, a ex-Presidente Dilma Rousseff instaurou, por meio de um colegiado independente, a investigação dos crimes contra os direitos humanos cometidos por governos brasileiros entre 1946 e 1988 (período que abarca o fim da ditadura do primeiro governo Getúlio Vargas e o fim da ditadura instaurada pelo governo militar), manifestações ao redor do país começaram a emergir em apoio ao resgate da memória daqueles que foram presos, torturados, exilados e mortos pelos dois governos, com ênfase no instaurado por meio de golpe constitucional em 1964.

Não seria surpresa se, entre estes nomes presentes na chamada Comissão Nacional da Verdade, estivesse o da estudante de medicina mineira Maria Auxiliadora Lara Barcelos (1945-1976), caçada como subversiva pelo governo militar ao se impor contra o sistema de saúde e manicomial no interior de Minas Gerais, e considerada foragida até seu suicídio na Alemanha.

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Conhecida como Dora – nome que adotou para aderir à guerrilha contra a ditadura e como principal forma de proteção -, a estudante não conseguiu terminar seus estudos e, atormentada com os próprios problemas mentais, se jogou na frente de um trem alemão na segunda metade da década de 1970.

É com o intuito de contar a trajetória dessa jovem que Sara Antunes mergulha no universo online em Dora, potente experimento cênico digital que traça não apenas o perfil da guerrilheira, mas o clima social, político e cultural daquela década conturbada em que Maria Auxiliadora ainda era uma jovem que buscava sorver ao máximo das expressões culturais que a cercavam.

Flertando com estética tropicalista, Sara Antunes narra a história de sua personagem em experimento que se banha nas mais diversas possibilidades propostas pela linguagem digital. A artista usa de fato – por meio de citações dramatúrgicas e na trilha sonora – da obra tropicalista arquitetada por nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão (1942-1989) e Tom Zé a partir dos estudos de Hélio Oiticica (1937-1980).

Através de canções como a sugestiva Mamãe, Coragem (Caetano Veloso e Torquato Neto), que sublinha a relação da jovem com sua mãe, Volver a Los 17 (Violeta Parra) e a doída Pra Dizer Adeus (Edu Lobo), que traça uma ambientação histórica, Antunes arquiteta uma linguagem que dialoga ainda com a estética do cinema novo de glauber Rocha (ano) e o teatro de protesto capitaneado por grupos como o Oficina e o Arena.

Diretora e autora da obra, Antunes apresenta encenação dinâmica, que mescla depoimentos com diferentes experiências sonoras, além de um monólogo friccionado e entrecortado por uma sobreposição de imagens que, a bem da verdade, desvaloriza o trabalho dramatúrgico do espetáculo.

Baseado em cartas e material colhido com a família da guerrilheira, Dora não tem o trabalho dramatúrgico de Antunes valorizado dentro da imensidão de signos e imagens que se sobrepõem não apenas ao texto, mas também ao trabalho de intérprete da atriz, tornando difícil a conexão com a personagem ou mesmo com a narrativa.

Antunes assume tom monocórdio ao narrar a trajetória da guerrilheira, o que contribui para a sensação de afastamento com a obra, inegavelmente potente enquanto experimento de linguagens, mas defasado na narrativa (ainda que tente construir pontes afetivas contando com a bonita participação de Angela Bicalho, mãe de Antunes).

Enfim, Dora caminha com fluência pelo universo digital e comprova que é possível injetar dinamismo através de uma boa montagem, contudo se ressente de uma conexão mais direta com a plateia e, principalmente, de uma linguagem que valorize de fato o registro dos caminhos percorridos por Maria Auxiliadora Lara Barcelos, personagem que merece ser revisitada com mais frequência.

SERVIÇO:

Data: 06 de março a 04 de abril (sábados e domingos)

Local: plataforma Vimeo

Horário: 20h

Preço do ingresso: Grátis

Ingresso deve ser retirado via Sympla

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