Pulsando contemporaneidade, John e Eu cresce ao mergulhar em linguagem pop para traçar perfil único de assassino

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Um ano após completar quatro décadas, a morte do ex-Beatle John Lennon (1940-1980), assassinado com cinco tiros disparados em frente ao prédio onde morava, em Nova York, ainda é assunto tabu ao redor do mundo, que já movimentou o mercado cultural a ponto de inspirar uma série de livros, documentários e artigos que buscam compreender o que levou o texano Mark Chapman a assassinar o músico britânico de quem era fã confesso.

Estranhamente, esse caso rendeu pouquíssimas obras voltadas para o universo teatral, a exceção de espetáculos que se valiam da figura mítica e pacifista criada pelo ao lado de sua companheira, a cantora e artista plástica japonesa Yoko Ono, e de sua obra alicerçada em massa ao lado dos ex-parceiros de banda Paul McCartney, Ringo Star e George Harrison (1943-2001).

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Mas é seguro que, se não for o único, John e Eu, solo escrito e estrelado por Nicolas Trevijano, que chegou ao universo online na última quinta-feira, 18, é talvez um dos raros espetáculos de fôlego a recontar a história do assassinato do ex-Beatle pelas lentes da única pessoa de fato capaz de traçar uma narrativa acerca do acontecimento: seu assassino.

O espetáculo traça um perfil de Chapman numa tentativa de contar sua história e, acima de tudo, explorar sua forma de ver o mundo sem jamais propor um julgamento para inocentá-lo ou voltar a condená-lo pelo crime. Chapman é apresentado exclusivamente como uma personagem que narra sua história de forma não-linear, estabelecendo paralelos com a história do próprio Lennon, criando laços e situações de proximidade.

E é justamente nesta aposta que moram as virtudes e os pontos destoantes do texto desenvolvido por Trevijano com o auxílio dramatúrgico de Juliana Sanches. A dramaturgia traça perfil saboroso sobre a personagem, num trabalho de investigação profundo, que alimenta o interesse pelo desenvolvimento da peça como um todo. Mérito também da excelente construção a qual o ator mergulha sem receios.

Trevijano constrói a personalidade de seu Chapman com base no olhar e na fragilidade de um homem constantemente invisibilizado socialmente e que alimenta constantemente as dores vindas dos constantes abandonos que precisou enfrentar ao longo da vida. Embora construa perfil fidedigno ao imaginário de um sociopata, o ator não busca necessariamente mimetizar a personagem, e sim estabelecer um contato psicológico com a plateia.

Essa opção faz com que, ao fim de pouco menos de uma hora de peça, não haja uma definição nítida acerca dos motivos que levaram a personagem a cometer o assassinato, mas fica estabelecido o combinado de que ele seria capaz de fazê-lo.

Por outro lado, a dramaturgia peca ao apostar num registro narrativo que beira a simples contemplação. As passagens que narram os diálogos da personagem ou sua preferência musical, por exemplo, pouco fazem pela história em si, uma vez que àquela altura o perfil já está traçado.

Ator habilidoso, Trevijano consegue driblar as armadilhas que fazem com que o texto soe menos fluente e excessivamente literário, exibindo potência cênica similar a que marcou um de seus melhores desempenhos em cena, em Aberdeen – Um possível Kurt Cobain. Mas é o apoio da direção de Marco Antônio Pâmio que faz, de fato, toda a diferença no experimento cênico apresentado online, em temporada até o dia 25 de maio.

Vindo de experimento anterior (o solo Uma Mulher Só, estrelado por Martha Meola), onde decidiu apostar no tripé elenco-texto-direção, sem grandes arroubos estilísticos dentro das possibilidades do online, Pâmio se lambuza de estética pop potencializada pelas ferramentas dessa nova linguagem.

O diretor comprova habilidade dentro do universo digital ao injetar dinamismo na encenação, tornando a experiência mais interessante não apenas por sua temática altamente pop, mas também pela linguagem que não se furta a abusar da imagem de John Lennon e da desconstrução de toda a misticidade que o cerca.

Essa linguagem é explorada com habilidade, principalmente, por Cássio Brasil, que assina o excelente cenário, além do figurino, da dupla André Grynwask e Pri Argound, responsável pela ótima luz e pelo processo de pós produção, e por André Barmak, que assina a edição do vídeo apresentado como registro do espetáculo e essencial para injetar vida à narrativa que, apresentada de forma linear e monocórdia, talvez perdesse boa parte de sua sedução. 

O fato é que John e Eu é boa obra que não se furta a mergulhar de cabeça num universo pop abraçado com perfeição pela linguagem digital, que permite a expansão da potência de obra que, estivesse em cena de forma convencional, talvez não tivesse o mesmo poder de sedução.

SERVIÇO:

Data: 18 de março a 25 de maio (quinta-feira a domingo)

Local: Plataforma Zoom

Horário: 20h

Preço do ingresso: Grátis

Ingressos retirados com até uma hora de antecedência via Sympla.

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