Resvalando no clássico, Tebas Land se impõe pela excelente comunhão entre texto, direção e elenco

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A empatia e os limites que cercam as relações estabelecidas para com o próximo são, guardadas as devidas proporções, dois dos pontos que movimentam a dramaturgia de Tebas Land, texto do premiado autor uruguaio radicado na França ,Sérgio Blanco, que ganhou espantosa e unanime montagem em Londres, em 2016, e que ora chega a São Paulo após três consagradoras temporadas no Rio de Janeiro.

Sob a direção de Victor Garcia Peralta, o espetáculo cumpre
temporada no Sesc 24 de Maio, no Centro da capital, e se impõe como um das
montagens mais azeitadas em cartaz na cidade este ano. O diretor encontra rara
união entre texto, elenco e um apuro técnico de luz, trilha e cenografia que
faz de Tebas Land uma comunhão teatral.

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O texto de Blanco, em fluente versão de Esteban Campanela,
resvala no teatro clássico para abordar o experimentalismo estético da chamada
autoficção, na qual funde elementos biográficos e ficcionais sem estabelecer diretamente
os limites que denotam um ou outro. E é justamente por compreender a proposta
de não se distanciar do chamado “teatro convencional”, com uma quebra prosaica
da quarta parede, que a versão brasileira triunfa.

Peralta cria em cena um bonito jogo estético no qual a dupla
de atores estabelece uma relação fluida com o (ótimo) cenário de José Baltazar
e a luz afinada de Maneco Quinderé, mago na construção de quadros cênicos que
abusam da praticidade sem perder a poesia. A trilha sonora pensada por Macello
H. valoriza a climática da peça que, embora sugira contornos soturnos de início,
se comprova muito mais solar e acolhedora ainda que fuja de qualquer desfecho
edificante.

Em cena, Otto Jr. e Robson Toinni criam um jogo de cena
delicado. Torinni busca sublinhar trejeitos que, embora ameacem certo caricaturismo,
resultam consistentes. O ator interpreta um presidiário, condenado por
assassinar o próprio pai com 21 golpes de garfo, e, ao mesmo tempo, dá vida a
um ator responsável por interpretar a personagem na peça de teatro gestada por
Ó, personificada na interpretação de Otto Jr.

Com uma construção talhada no tempo de uma serenidade
teatral, Jr. cria uma cumplicidade com o público que rende inevitável empatia
no jogo da plateia com o elenco. O ator, ao lado de Torinni, produz uma relação
tocante que, ponto para o texto de Blanco, sugere um envolvimento que não se
consuma, causando um anticlímax mais catártico do que frustrante.

Outro ponto interessante a se notar na obra de Sergio
Blanco, já apontado anteriormente na última produção brasileira de um texto
seu, A Ira de Narciso, é a
contestação e revalidação dos clássicos. Neste espetáculo, o dramaturgo busca
reavaliar os contornos de parricídio que envolvem a tragédia grega de Édipo, enquanto,
de maneira mais frouxa, tenta estabelecer uma ponte sacra entre a tragédia e o
assassinato retratado em cena.

Contestando os valores sociais da própria paternidade,
Blanco alinha uma dramaturgia que parece receber contornos políticos, muito
mais pelo momento do Brasil do que pelo texto em si, causando certo desconforto
com a relação tão casual entre um presidiário, assassino condenado, e o dramaturgo
que quer contar sua história. Ainda que não levante nenhuma bandeira acerca de
uma espetacularização do sistema carcerário, a montagem – que também não se
envolve com a temática – deixa transparecer certa empatia com a problemática.

Cumprindo curta temporada no Sesc 24 de Maio, Tebas Land é peça que, ao longo de
(inacreditáveis) quase duas horas,  não
reinventa a roda teatral, ao abusar de contornos clássicos para contar uma
história com certo fundo social, mas cumpre muito bem o seu papel, numa
montagem elegante, azeitada e visceral.

SERVIÇO:

Data: 21 de junho a 21 de julho (quinta a domingo)

Local: Sesc 24 de Maio – São Paulo (SP)

Endereço: Rua 24 de Maio, 109 – República

Horário: 21h (quinta a sábado); 18h (domingo)

Preço do ingresso:  R$
20,00 (mia) a R$ 40,00 (inteira)

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