Sem sex appeal, montagem brasileira de Chicago resulta pouco sedutora ao buscar público familiar

Direção e time de protagonistas rende muito pouco ao narrar história sobre a espetacularização do crime

Publicado em 16/03/2022 17:31
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Quando estreou nos palcos da Broadway, em 1975, Chicago, musical de John Kander e Fred Ebb (1928-2004) com texto de Bob Fosse (1927-1987) a partir de peça homônima escrita pela norte americana Maurine Dallas Watkins (1896-1969) em 1926, com base em uma reportagem acerca de dois crimes passionais cometidos por duas mulheres acusadas de matar os maridos na Chicago de 1924.

Na obra, a dupla Kander e Ebb, criam a partir do texto de Fosse clima burlesco no qual retratam a espetacularização dos crimes na Chicago dos anos 20 e satirizam o sistema prisional dos Estados Unidos, no qual uma figura de fama proeminente pode enganar com facilidade a lei tendo como aliada a imprensa e uma boa mídia – numa clara alusão ao caso do icônico julgamento de Charles Manson (1934-2017), alçado ao posto de celebridade instantânea após uma série de assassinatos que culminaram na morte da estrela em ascenção Sharon Tate (1943-1969) na Hollywood dos anos 1960.

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Sob a direção de Fosse e estrelado por Chita Rivera e Gwen Verdon (1925-2000), Chicago se tornou um dos espetáculos mais incensados da temporada – ainda que eclipsado pelo sucesso instantâneo de A Chorus Line

Entretanto, foi apenas 21 anos depois, com o revival da Broadway estrelado pela atriz vencedora do Prêmio Tony Bebe Neuwirth (que levaria sua segunda estatueta pelo papel de Velma Kelly) e pela coreógrafa e diretora Ann Reinking (1949-2020), que Chicago se tornou um marco cultural no mercado norte americano.

A remontagem de 1996 não apenas repunha nos holofotes discussões que se mostraram atemporais (como o preço do sucesso, o desejo pela fama instantânea e a citada espetacularização do mundo criminoso), como estabeleceu uma nova linguagem a ser seguida pelas futuras montagens da obra ao redor do mundo, e também por outras produções que visassem celebrar a obra de seu idealizador, Bob Fosse.

Reinking desossou a montagem original para chegar àquilo que considerava o essencial da montagem: suas coreografias e as excelentes canções da dupla Kander e Ebb – algumas alçadas a standards do cancioneiro norte americano, entre elas All that Jazz, All I Care About e Nowadays

A direção do revival focou toda a sua ação no trabalho de suas duas protagonistas, Roxie Hart e Velma Kelly, essencialmente exímias bailarinas, atrizes e cantoras, além dos intérpretes de figuras que permeiam o centro da história, como o inescrupuloso advogado Billy Flynn, a carcereira Mama Morton, a repórter Mary Sunshine e o marido traído Amos Hart, descartando grandes figurinos e adotando apenas algumas referências ao teatro burlesco, o vaudeville e, claro, os shows de variedades.

Ao enfocar apenas o trabalho essencial de seu elenco, assumindo linguagens minimalistas para seu cenário e figurino, e sem nenhum efeito especial que encha os olhos do público, Chicago manteve seu fôlego ao permanecer em cartaz por nada menos do que 26 anos (e segue em cartaz na Broadway), ainda que seja espetáculo menos popular que outros títulos também com vida longa, entre eles O Fantasma da Ópera, O Rei Leão e Wicked – títulos que se tornaram folclóricos na cultura do teatro musical norte americano.

Ao longo de mais de duas décadas, o espetáculo se manteve em alta nos palcos nova iorquinos, também, por contar com grandes estrelas se revezando nos papéis principais. Já passaram pela produção nomes como as estrelas de cinema Brooke Shields, Melanie Griffith, Patrick Swayze (1952-2009) e Cuba Gooding Jr., o rapper Usher, a mulher maravilha Lynda Carter, a spice girl Mel B, o backstreet boy Kevin Richardson, a estrela do futebol americano Eddie George, a estrela televisiva Sofia Vergara, a destiny child Michelle Williams e as estrelas da Broadway Jennifer Holliday e Paulo Szot, entre outros.

A escolha por figuras famosas para compor o elenco norte americano pode explicar, por exemplo, a necessidade de que nomes famosos também componham o elenco de outras produções ao redor do mundo. Em 2004, em sua (boa) primeira montagem no Brasil, os papéis de Velma Kelly e Roxie Hart foram desempenhados por duas estrelas da TV (com currículos de peso dentro do teatro musical), Danielle Winits e Adriana Garambone, respectivamente.

Já a nova montagem, em cartaz desde 20 de janeiro no palco do Teatro Santander, em São Paulo, tem em seu elenco a atriz e cantora Emanuelle Araújo ao lado do vencedor do Prêmio Tony Paulo Szot, que chega à produção brasileira após elogiosa passagem pela montagem norte americana ainda em 2020. 

Bailarina, atriz e cantora que construiu trajetória formada essencialmente pela passagem por grandes musicais, Carol Costa ganha sua primeira grande protagonista ao dar vida a Roxie Hart menos de um ano após levar para casa seu primeiro Prêmio Bibi Ferreira pelo seu desempenho como atriz coadjuvante em Chaves – Um Tributo Musical.

A montagem – que tem um dos melhores ensembles de uma produção musical desde Barnum – O Rei do Show – consegue valorizar o roteiro e a história original, que, embora tenha relação essencialmente com o american dream soa – talvez como resultado do vasto efeito da globalização contemporânea – universal.

A criação de Fosse – sob a excelente óptica de Reinking – surge preservada nesta montagem feita aos moldes da matriz nova iorquina. Contudo, é em seu chamariz principal que a nova montagem brasileira de Chicago peca. O elenco principal não parece pronto para lidar com a exigente composição do espetáculo.

Personagem criado nos moldes de uma das maiores bailarinas da Broadway, a lendária Chita Rivera, Velma Kelly foi interpretada por nomes de exímio preparo físico – salvo raras exceções -, entre eles a norte americana Bebe Neuwirth, a inglesa Ruthie Henshall e a carioca Danielle Winits, todas íntimas das extenuantes coreografias da assassina estelar.

Grande atriz e uma das cantoras mais interessantes de sua geração (com discografia diversa capaz de abarcar desde hits do axé até o repertório do maldito Jards Macalé, passando pelo pop contemporâneo), Emanuelle Araújo soa deslocada no papel de Kelly. Sem conseguir reproduzir as coreografias pensadas para sua personagem, Araújo não transmite a grandiosidade da assassina repleta de sex appeal, e não alcança a imponência de alguns dos grandes números destinados à personagem, entre o seminal All that Jazz, os originalmente impressionantes I Can’t Do It Alone e When Velma Takes the Stand, e o duo final Hot Honey Rag, dividido com uma contida Carol Costa.

A atriz, contudo, se apega em seus pontos fortes e faz crescer números como I Know a Girl, os duetos My Own Best Friend (com Carol Costa) e Class (com Lílian Valeska), e brilha no Cell Block Tango, um dos melhores números da montagem. Com Valeska acontece parecido. 

Uma das maiores (e melhores) vozes do teatro musical brasileiro, a atriz compõe sua Mama Morton com uma jocosidade que pouco faz pela personagem, e enfraquece seu grande número, When You’re Good to Mama, que mantém sua imponência graças ao alcance vocal de sua intérprete.

Na pele do inescrupuloso advogado Billy Flynn, Paulo Szot, por sua vez, apaga a má impressão deixada por sua última passagem pelo teatro musical brasileiro na pele de um engessado Henry Higgins, em My Fair Lady (2016), e constrói com excelência a personagem responsável por dois grandes momentos da montagem, as canções All I Care About e a explosiva We Both Reached for the Gun, além de imprimir graça ao lânguido Razzle Dazzle.

No time de coadjuvantes, Eduardo Amir rende pouco na pele de seu Amor Hart. Sem o timing da comédia dramática pedida pela personagem, o ator ensaia um grande momento ao solar Mister Cellophane, outro grande momento da obra, mas resulta em registro irregular.

Por fim, no time de protagonistas, Carol Costa também não alcança seu grande momento na pele da assassina Roxie Hart. Excelente bailarina, Costa brilha em números como Me and my Baby, mas não atinge o ápice de números como Roxie, a grande canção de sua personagem que rende menos do que poderia na montagem brasileira. Com voz que se molda à perfeição para a composição de sua protagonista, Costa (ainda) não atinge em sua interpretação o ápice dramático de seu balé.

Contudo, talvez o ponto mais baixo da montagem esteja nas escolhas da direção de Tânia Nardini. A diretora parece buscar limpar eventuais “sujeiras” da montagem, fazendo deste um espetáculo clean, sem palavrões e com sex appeal restritivo. Falta à montagem a sedução proposta pelo jazz de Kander e Ebb e pelas coreografias de Fosse e Reinking, o que torna a montagem de 2022 de Chicago uma obra essencialmente menor se comparada a sua primeira produção.

SERVIÇO:

Data: 20 de janeiro a 29 de maio (quinta-feira a domingo)

Local: Teatro Santander – São Paulo (SP)

Endereço: Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041 – Itaim Bibi

Horário: 21h (quinta-feira a sábado); 17h (sábados); 15h e 19h (domingos)

Preço do ingresso: R$ 37,50 (meia) a R$ 340,00

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