Valorizado por beleza plástica, Loucas dribla excessos e cresce ao confiar em bom elenco

Publicadohá pouco tempo
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Quando a pandemia do Coronavírus exigiu a adoção de medidas de isolamento para compor seu avanço ao redor do mundo, congelando a nível global o mercado da cultura das artes, Carolina Stofella caminhava com a pré-produção de Loucas, texto da dramaturga uruguaia Sandra Massera que marcaria a carreira da atriz catarinense como seu primeiro solo.

Sem enxergar previsão de resolução para a crise sanitária que fez do Brasil uma de suas piores vítimas graças a (falta de) gestão governamental, Stofella então se reuniu com o produtor Fábio Câmara e com o diretor Dan Rosseto para desbravar o universo online em experimento cênico surgido quando ainda se engatinhava na linguagem resultante da fusão entre o teatro e o digital.

Continua depois da publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

A obra resultou em experimento de tom protocolar aquém do histórico e potência da dupla formada por diretor e atriz, que já havia trabalhado em conjunto no revolucionário anti-musical Enquanto as Crianças Dormem (2017) e em adaptação menos brilhante do clássico Eles não Usam Black-Tie (2018), de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006).

A obra agora ganha nova encenação com temporada virtual a partir do registro de sessão única, gravado no Viga Espaço Cênico, em São Paulo. Idealizada originalmente para ser transmitida a partir de apresentações ao vivo, o plano sofreu alterações a partir do recrudescimento das medidas de isolamento na cidade de São Paulo.

Tendo como base principal a vida da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943), Loucas narra a vida de Maria do Pilar, mulher que acabou internada em um sanatório ainda jovem, em pleno século XIX, e, ao longo de três décadas escreve cartas para se corresponder com sua família, enquanto clama por liberdade. Os pedidos são endereçados primeiro a seu pai, em seguida a seu irmão e, por fim, a sua sobrinha.

Sempre com palavras de incentivo e conforto, as respostas que seguem são negativas, levando a interna a questionar não apenas sua saúde mental, mas também erguer discussões acerca da evolução do tempo e da sociedade, além do sistema em que se estrutura as ações manicomiais, consideradas subumanas até meados do século XX.

Mais azeitada, a nova encenação abdica da estrutura de um monólogo para inserir a presença do ator e cantor Gilberto Chaves, que interpreta todas as personagens masculinas que passam ao redor de Pilar, e pontua a passagem do tempo e a deterioração da saúde da protagonista a partir de árias da obra do compositor austríaco Franz Schubert (1797-1828).

Embora o peso da dramaturgia ainda se concentre no trabalho desenvolvido por Stofella, a inserção da presença de Chaves adiciona charme trágico à montagem, valorizando registros dramáticos sem jamais se deixar levar pela proposta melodramática impressa na estrutura do texto de Massera.

E é justamente este o ponto que faz desta nova encenação de Loucas experiência superior à anterior. Ao fugir do registro do melodrama, a direção de Rosseto caminha por estrada sólida para experimentar as possibilidades da linguagem que vem desenvolvendo ao longo de quase uma década assinando a direção de seus espetáculos.

É difícil, por exemplo, não traçar relação direta da montagem com outro espetáculo de forte acento plástico da trajetória do diretor, o drama Diga que Você já me Esqueceu, que ganhou duas encenações distintas sob sua direção, uma irregular em 2016 e outra mais feliz, ao sublinhar a potência da obra, em 2018.

Loucas, assim como Diga que Você já me Esqueceu, é peça que se sobressai principalmente pela linguagem plástica sublinhada – principalmente – pela ótima luz desenhada pelo vencedor do Prêmio Bibi Ferreira, César Pivetti, e por figurino e (igualmente ótimo) visagismo assinados, respectivamente, por Kleber Montanheiro e Louise Hèlene.

Contudo, se repete fórmulas bem sucedidas, Rosseto também tropeça em armadilhas, como o excesso da obra de Schubert no desenvolvimento do espetáculo. Embora surta bonito efeito (até) poético na primeira metade da obra, à medida que a montagem corre, as inserções da voz tamanha de Gilberto Chaves ameaçam soar excedentes à beira de um preciosismo que não auxilia no desenvolvimento da encenação.

Entretanto, este é detalhe menor em espetáculo de pouco mais de uma hora que é inteligente ao se alicerçar na figura de Carolina Stofella, atriz que desenvolve seu melhor trabalho em cena desde que iniciou parceria com Rosseto em 2017, e compôs o elenco de outras obras, como a comédia pueril A Banheira, de Guga Keller.

Stofella cresce na pele de Maria do Pilar justamente por desenvolver registro delicado de uma personagem que, embora lute contra a imposição da loucura, se desespera dentro das múltiplas impossibilidades e flerta com uma senilidade capaz de atingir qualquer ser humano minimamente são.

A atriz dribla armadilhas da dramaturgia (em versão fluente assinada pelo produtor, Fábio Câmara) e consegue dar vida a uma mulher de tons fortes sem jamais apelar para muletas vazias, focando o alicerce de sua obra no olhar desta personagem que, mesmo à beira do abismo, ainda guarda alguma esperança, e emerge com um registro de delicadeza que se irmana bem aos registros bufões e até cômicos experimentados pela atriz.

O registro da obra mostra claro avanço na compreensão de Rosseto a respeito de uma linguagem desenvolvida para o universo online se comparado ao solo Doralice Senhora Meretriz, estrelado por Glória Rabelo. Embora não interfira diretamente no desenvolvimento do espetáculo, a posição das câmeras tampouco assinala o efeito de mero teatro filmado.

A despeito de irregularidades marcadas pelo excesso, Loucas é obra que resulta mais ambiciosa do que sua premissa faz supor, exaltando a beleza plástica do trabalho teatral feito para a tela e triunfa mesmo ao não negar o protagonismo de seu elenco – com óbvio, porém digno foco a Stofella – em prol e outros elementos cênicos ou digitais. É mais uma obra que prova que independente do cenário, o que ainda sustenta um grande espetáculo é o tripé texto-direção-elenco.

SERVIÇO:

Data: 12 a 28 de março (sexta-feira a domingo)

Local: Plataforma Zoom

Horário: 20h (sextas e sábados); 19h (domingos)

Preço do ingresso: Grátis

Ingressos devem ser retirados através do site Sympla. Espetáculo previamente gravado

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio