Nelson Rodrigues por Ele Mesmo | Foto: Matheus Josee Maria
Nelson Rodrigues por Ele Mesmo | Foto: Matheus Josee Maria

Atriz que construiu carreira perene nos palcos ao longo de mais de 70 anos, Fernanda Montenegro coleciona passagens marcantes pelo teatro. O Observatório do Teatro selecionou 15 espetáculos essenciais na carreira da atriz que nenhum admirador pode deixar de conhecer. Confira abaixo a seleção.

Alegres Canções nas Montanhas (1950)

Fernanda Montenegro
Fernanda Montenegro

Espetáculo do dramaturgo francês Julien Luchaire, foi o primeiro trabalho profissional da atriz, angariou elogios da crítica e iniciou a parceria com o colega e marido Fernando Torres. No elenco estavam ainda nomes como Nicette Bruno e Beatriz Segall.

A Moratória (1955)

A Moratória | Foto: Funarte

O drama de Jorge Andrade, dirigido por Gianni Ratto, rendeu à atriz seu primeiro Prêmio Saci, o mais importante do teatro nacional na época. O espetáculo foi montado quando Fernanda ainda fazia parte da Companhia Maria Della Costa, e contracenou com nomes como Monah Delacy e Sérgio Britto.

Vestir os Nus (1958) 

Vestir os Nus | Foto: O Cruzeiro

Já fora da Companhia de Maria Della Costa, ajudou a fundar o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), onde fez uma série de trabalhos marcantes. O último, Vestir os Nus, de Luigi Pirandello, guarda uma história engraçada narrada por Sérgio Britto em seu livro O Teatro & Eu – Memórias (2010). “O TBC estava com problemas financeiros. Pelo menos um terço das lâmpadas do palco estava queimado. (…) Quando a Fernanda entrou e as luzes se apagaram, as que deviam ficar acesas estavam queimadas e ficou só uma luzinha em cima da cadeira onde a Fernanda tinha que sentar. Fernanda e eu custamos a nos encontrar, e quando eu a peguei nós já estávamos morrendo de rir. (…) A Fernanda tinha um texto que acabava com uma frase fantástica (…). Essa frase era dita com a (personagem) Ersília chorando convulsivamente. Só que nesse dia, em vez de choro, a Ersília ria convulsivamente. A danada da Fernanda ria tanto, ria tão alto, que parecia uma alucinação. O público embarcou na emoção, ouvia as risadas como desespero, e, quando Fernanda gemia as suas palavras “Nua, nua”, a plateia gritava o nome de Fernanda. Sucesso Absoluto”.

O Mambembe (1959)

O Mambembe | Foto: Jornal do Brasil

Ao deixar o TBC, se juntou a seu companheiro Fernando Torres e aos amigos Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Sérgio Britto, Luciana Petruccelli e Alfredo Souto de Almeida para fundar o Teatro dos Sete, companhia que fez algumas montagens icônicas no teatro brasileiro, sendo a primeira O Mambembe, de Arthur Azevedo e José Piza. O espetáculo havia sido montado pouco antes por Sadi Cabral num fracasso retumbante. Com a descrença da imprensa, a versão do Teatro dos Sete estreou e foi um dos grandes sucessos da temporada, com sucessivas sessões lotando o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. 

O Beijo no Asfalto (1961)

O Beijo no Asfalto | Foto: Funarte
O Beijo no Asfalto | Foto: Funarte

A conhecida história de perseverança de Fernanda em busca de um texto inédito de Nelson Rodrigues já é conhecida. A atriz precisou insistir por meses para que o autor lhe entregasse um texto inédito, e acabou recebendo o título rodriguiano de Musa Sereníssima. Ao fim de oito meses, Nelson Rodrigues entregou a Fernanda O Beijo no Asfalto, considerada ainda hoje uma de suas melhores peças. “Eu subi no meu próprio conceito quando entreguei à Fernanda ‘O Beijo no Asfalto’”, narraria depois.

O espetáculo foi montado no Teatro do Sesc Ginástico, no Centro do Rio de Janeiro, onde ocorreram protestos e embates entre polícia e civis graças a renúncia de Jânio Quadros com apenas oito meses de governo, o que prejudicou a carreira da peça, mas não sua perenidade.

A Mulher de Todos Nós (1966)

A Mulher de Todos Nós | Foto: Funarte

Com uma dívida imensa com o banco após o fim do Teatro dos Sete, em 1964, e com o nascimento de sua primeira filha, Fernanda, em 1965, a atriz passou a aceitar papéis que lhe gerasse algum lucro para saldar a dívida. Mas foi com A Mulher de Todos Nós, de Henry Becque sob versão de Millôr Fernandes, sob produção de Fernando Torres, Sérgio Britto, Ítalo Rossi e da própria atriz, que veio a possibilidade de saldar tudo o que devia ao banco graças aos empréstimos que fez para montagens de outros espetáculos. A peça também lhe rendeu seu primeiro Prêmio Molière. A laureação, criada em 1963, se tornou a mais importante do teatro nacional até sua extinção, em 1998, por falta de patrocínio. Fernanda venceu sete estatuetas, sendo uma especial em homenagem ao conjunto de sua obra.

É… (1977)

Peça escrita por Millôr Fernandes especialmente para o casal Torres & Montenegro, É… foi um sucesso por satirizar os costumes libertários e, ainda assim, retrógrados da revolução sexual e social da classe média brasileira. Embora tenha sido recebida com pouco entusiasmo pela crítica, foi um dos maiores sucessos dos atores, e ficou quatro anos em cartaz e foi, nas palavras de Fernanda Montenegro, em seu livro de memórias recém lançado pela Companhia das Letras, Ato, Prólogo, Epílogo (2019), “(…) O espetáculo, para nós memorável, , significa um parêntese de estabilidade nos sobressaltos de nossa sobrevivência teatral, financeira – e porque não também -, artística.”

Sobre a mesma peça, Fernanda também narra, no mesmo livro, um carinho especial de Fernando, que, no fim da vida, a escolheu para ensaiar no hospital e, pouco antes de morrer, levou para a mesa de leitura. “No sábado que precedeu sua morte, ele pegou o texto de ‘É…’ – sempre esse texto do nosso amigo, o grande e eterno Millôr Fernandes – e me chamou: ‘Vamos ensaiar?’. Nós nos sentamos à mesa e ele leu o título, o nome do autor. Leu a descrição do cenário. Percebeu que aí começava o diálogo. Olhou para os lados – não havia elenco em torno daquela mesa. Estávamos só eu e ele. Voltou a si”.

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1982)

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant | Foto: Funarte

A atriz escolheu a peça do alemão Fassbinder para comemorar, com algum atraso, seus 30 anos de carreira, quando recebeu um Prêmio Moilière pelo conjunto de sua obra e, pela primeira vez, foi a vencedora do Prêmio Mambembe, numa laureação dada pelo governo Federal através da Funarte desde 1977. Foi um dos trabalhos mais elogiados pela crítica até aquele momento.

Fedra (1986)

Fedra | Foto: Funarte

O grande trunfo dos anos 80 na carreira da atriz foi a montagem de Augusto Boal para o clássico de Jean Racine, naquela que se tornou sua performance mais icônica até hoje no teatro. Com plateias lotadas ao redor do Brasil, o espetáculo foi um dos primeiros a dar projeção internacional a Fernanda Montenegro, que ganhou sucessivos elogios de críticos europeus que, interessados na montagem brasileira da tragédia do francês Racine, compareceram a sessões populares no Teatro João Caetano, onde mais de 1200 cariocas disputavam semanalmente ingressos para as apresentações.

Dona Doida, Um Interlúdio (1987)

Dona Doida, Um Interlúdio | Foto: Divulgação

Outro grande sucesso teatral, o espetáculo era uma encenação de poemas da escritora e poeta Adélia Prado. Se tornou o espetáculo mais longevo da carreira da atriz, que, entre idas e vindas, o apresentou nos palcos ao redor do mundo por 13 anos. Sob a direção de Naum Alves de Souza, o monólogo rendeu a atriz passagens de sucesso por países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Portugal, Espanha, Argentina, México, entre outros. Lhe rendeu mais um Prêmio Mambembe e deu título a uma música composta por Rita Lee em sua homenagem lançada em 1997 no disco Santa Rita de Sampa.

Suburbano Coração (1989)

Suburbano Coração | Foto: Acervo O Globo

Após o sucesso de Dona Doida, Fernanda decidiu dar continuidade a parceria com Naum Alves, e lhe pediu um musical. Com canções de Chico Buarque, nasceu Suburbano Coração, um espetáculo sobre as peregrinações de uma mulher solteirona em busca do amor dos seus sonhos. O espetáculo, verdadeiro sucesso na temporada carioca, teve sua excursão pelo Brasil frustrada graças ao confisco do dinheiro do Plano Collor. Foi a impossibilidade do espetáculo, que contava com Ana Lúcia Torre, Otávio Augusto e Ivone Hoffman no elenco, que permitiu o sucesso de Dona Doida que, a partir de então, se tornou o carro chefe da carreira da atriz durante a derrocada do governo de Fernando Collor de Mello.

The Flash and Crash Days (1993)

The Flash and Crash Days | Foto: Divulgação

Através da cineasta Monique Gardenberg chegou o convite do diretor Gerald Thomas para que Fernanda protagonizasse aquela que seria uma das peças mais lembradas de sua carreira. Dividindo a cena com a filha, Fernanda Torres, Montenegro se sentiu testada pelo diretor, que construiu um jogo cênico homicida de mãe e filha no palco, com cenas de masturbação, brigas e uma eterna rivalidade entre duas figuras sórdidas que se sabiam destinadas a matar ou morrer. No processo, a atriz quebrou uma perna (e entrou em cena engessada) e furou um olho (e entrou em cena de tapa olho). Nos Estados Unidos, a peça foi consagrada e, acredita-se, ajudou a pavimentar o caminho da indicação ao Oscar que Fernanda receberia seis anos mais tarde por Central do Brasil.

Dias Felizes (1995) 

Das Felizes | Foto: Divulgação

Peça de Samuel Beckett dirigida por Jacqueline Laurence, foi o último espetáculo de Fernando Torres. O ator morreria 13 anos depois, vítima de um enfisema pulmonar. No espetáculo, Fernanda vivia Winnie, enterrada até o pescoço num morro. A personagem de Fernando Torres tentava, a todo o momento, escalar o morro para chegar a ela, e sempre escorregava. Fernanda narra, em suas memórias: “Foi uma experiência dolorosa para Fernando, porque espelhava o que havia sido a sua vida naqueles últimos anos. Ele tinha horror do papel. Atuava mesmo assim. Como se negar ao seu ofício?”.

Viver sem Tempos Mortos (2009)

Viver sem Tempos Mortos | Foto: Divulgação

Após onze anos fora dos palcos cuidando da saúde de Fernando (morto em 2008), Fernanda decide enfrentar seu luto nos palcos ao dar voz a obra da filósofa francesa Simone de Beauvoir sob a direção de Felipe Hirsch. Entretanto, a despeito das questões pessoais, o projeto Viver sem Tempos Mortos tinha caráter social ainda mais intenso. O espetáculo foi pensado para ser apresentado em periferias das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, e quase não aconteceu, como narra: “Essa produção foi minha última atividade teatral a recorrer a tal comissão a fim de ter acesso aos incentivos fiscais previstos pela Lei Rouanet. Na época, julgaram o projeto complexo demais para temporadas populares em periferias. Penso que entenderam a proposta como um capricho histriônico. Exibicionismo de uma atriz. Uma temática improdutiva, inútil, sofisticada demais para plateias ditas do ‘povão’. (…) Pergunto: por que, no campo da cultura, comissões prejulgam a sensibilidade do dito ‘povão’?”.

Nelson Rodrigues por ele Mesmo (2014)

Nelson Rodrigues por Ele Mesmo | Foto: Divulgação
Nelson Rodrigues por Ele Mesmo | Foto: Divulgação

Há cinco anos rodando o Brasil com um espetáculo em que lê crônicas de Nelson Rodrigues a partir do livro homônimo lançado pela filha do dramaturgo, Sônia Rodrigues. O espetáculo marca o retorno de Fernanda a um dos autores que mais montou ao longo de sua carreira, tanto no teatro quanto no cinema e na TV. No espetáculo, a atriz encarna a figura do anjo pornográfico numa produção que só aconteceu porque sucessivos problemas de agenda impediram que outros três atores escalados para o papel o realizassem. A peça virou quadro no Fantástico e acabou por se tornar o marco de comemoração dos 90 anos desta atriz que finaliza a peça com uma frase de Nelson Rodrigues que leva para a vida: “Aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo”.