O que Mantém um Homem Vivo | Foto: Divulgação
O que Mantém um Homem Vivo | Foto: Divulgação

Em meados da década de 1970, o Brasil vivia dias cada vez mais sombrios com o endurecimento da censura de costumes sob o manto do regime ditatorial promovido pelo governo militar, à época presidido por Emílio Garrastazu Médici considerado um dos presidentes mais duros do regime.

Com o intuito de combater as ideias promovidas pelo regime, os atores Renato Borghi e Esther Góes, então casados e recém-saídos do grupo Oficina, comandado pelo diretor Zé Celso Martinez Corrêa, onde encenaram obras importantes do quilate da histórica montagem de O Rei da Vela, puseram em cena O Que Mantém um Homem Vivo, peça baseada em textos do dramaturgo alemão Bertold Brecht montada em 1973.

Costurando passagens de obras como A Alma Boa de Setsuan (1941), Galileu, Galilei (1943), Terror e Miséria no Terceiro Reich (1938), A Ópera dos Três Vinténs (1928) e Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny (1930), entre outras, o espetáculo se tornou um dos maiores sucessos da carreira da dupla, que voltou a encená-lo nove anos mais tarde, em 1982, quando se inciava a discussão acerca de um processo de abertura política.

Foram precisos 37 anos para que Borghi sentisse a necessidade de recolocar em cena a obra que se tornou carro-chefe da contestação político social que movimenta a vida e a arte do ator. “Eu sinto hoje os mesmos sintomas que sentia em 1964, e depois em 1970. Vivi 20 anos sob o regime de uma ditadura e conheço muito bem essa coisa toda de censura, ódio aos artistas e ao desenvolvimento científico. É obscuro, retrocede, deprime”, diz o ator que retomou o espetáculo em 2019 e que estreia uma nova temporada a partir de amanhã, 16, no TUSP, em São Paulo.

“Essa peça convida à reflexão. Eu sinto que não estamos falando muito claramente sobre tudo o que está acontecendo, entende? O Brecht diz que pensar é um dos grandes prazeres da raça humana, e é através dos textos dele que falamos sobre tudo o que está acontecendo, sobre esse regime nazifascista, sobre essa censura disfarçada. É um momento muito difícil porque não está claro, há um fingimento de que estamos vivendo uma democracia, e não estamos”, acredita o ator que, nesta peça, sobe ao palco ao lado do sócio Elcio Nogueira Seixas, com quem mantém há 25 anos a Companhia Teatro Promíscuo, e com a atriz Georgette Fadel, com quem dividiu o palco na encenação de Molière, em 2018.

“A Georgette tinha um pequeno papel no espetáculo, e ela transformou aquilo numa coisa importantíssima. Ela fazia um trabalho como se fosse uma comediante do cinema mudo, e eu fiquei encantado com ela. Já o Elcio é um parceiro de mais de 25 anos. Ele dirigiu coisas importantíssimas, e eu sabia que precisaria dele comigo agora”, declara o veterano, indicado ao Prêmio Shell pela montagem.

“Eu levei um susto. É gostoso ser percebido, ser notado, sabe? Na minha idade, de repente, as pessoas te indicarem como ator, é muito bom. Ser indicado já é ótimo”, garante Borghi que, prestes a completar 83 anos (em março) não tem planos de sair dos palcos.

“A todo momento, eu penso que gostaria de descansar, de passar um ano viajando, mas não dá. Em primeiro lugar tem sim uma questão financeira, econômica. O teatro que eu faço não é capitalista, a gente vai ganhando o pão de cada dia, o sustento nosso. E também porque é um trabalho que tem que existir de uma forma contínua, eu preciso estar em cena dizendo o que digo. Eu trabalho muito! Na minha idade, as pessoas já estão chegando ao fim, eu ainda não estou nem na metade”, finaliza.

SERVIÇO:

O Que Mantém um Homem Vivo

Data: 16 de janeiro a 16 de fevereiro (quinta-feira a domingo)

Local: Teatro da Universidade de São Paulo (TUSP)

Endereço: Rua Maria Antônia, 294 – Consolação – São Paulo, SP

Horário: 20h30 (quinta-feira a sábado); 18h30 (domingo)

Preço do ingresso: R$ 10,00 (meia) a R$ 20,00 (inteira)