Fernanda Montenegro | Foto: Bob Wolfenson
Fernanda Montenegro | Foto: Bob Wolfenson

Em março de 1985, a atriz Fernanda Montenegro recebeu do ex-Secretário da Cultura de Minas Gerais e futuro governador do Distrito Federal José Aparecido de Oliveira um convite para assumir o cargo principal no então recém criado Ministério da Cultura.

Inaugurada durante o governo de José Sarney a pasta alçou pela primeira vez a cultura a um nível de incentivo federal, que tomaria contornos ainda mais profissionais a partir de 1991 com a criação da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, em 1991.

A atriz negou o convite em carta endereçada a José Aparecido de Oliveira e, depois, num encontro com o Presidente da República, indicando, através de uma reunião com a classe artística, o economista Celso Furtado, então embaixador do país junto a Comunidade Econômica Européia, em Bruxelas, na Bélgica.

Leia abaixo a íntegra da carta redigida por Montenegro em maio de 1985, e reproduzida em sua autobiografia Prólogo, Ato, Epílogo (Companhia das Letras, 2019).

Querido amigo José Aparecido de Oliveira:

Como cidadã sempre fiz do meu ofício um instrumento de participação política.Como artista fiz a minha participação política dentro do meu ofício, fora de filiação partidária, pois compreendo que o palco é, definitivamente, o espaço mais livre que o homem jamais criou. Se olharmos os palcos de um país, saberemos exatamente que país é esse.

Desde a adolescência venho, a princípio intuitivamente, mais tarde conscientemente, me expressando através dos mais variados textos, percorrendo, democraticamente, os mais diversos gêneros teatrais, sem qualquer preconceito, na medida em que, para mim, um artista do palco tem que dar voz às mais diferentes manifestações da dramaturgia. Com isso deixo claro que, no meu entender, o palco é o meu espaço também político.

Comovida, feliz, honrada, vejo a lembrança do nome de uma atriz para o Ministério da Cultura como uma conquista histórica, culturalmente falando.

Recentemente, artistas deste país foram convocados para um grande futuro e uma grande mudança. As oposições políticas armaram palanques, esses mesmos artistas, preparando o espetáculo, “esquentaram” as multidões nas praças, fortalecendo lideranças ainda não confiantes em si mesmas como comunicadores. Uma vez fortalecidas, essas lideranças políticas ocuparam o centro dos palanques. Os artistas, cumprida sua missão, recuaram. As massas humanas se impuseram. A partir daí todos nós, irmanados, começamos a construção de um Brasil novo.

Para aqueles que vêem, preconceituosamente, a indicação de um artista para um tão alto cargo, respondo, sem exagero, que esse Brasil novo nasceu num palco armado na praça. Cogitar um artista para um Ministério é prova de amadurecimento político deste país, no seu todo. É um arejamento depois de tantos anos de asfixia. Pobre do país cujo governo despreza, hostiliza e fere seus artistas.

Esse Brasil acabou.

A sondagem que me foi feita, autorizada pelo Presidente José Sarney, revela o gesto limpo, independente e original do homem que, dirigindo a Nação neste momento de tanta Esperança, deposita sua confiança numa brasileira entusiasmada e consciente.

A esse convite devo responder com a mesma limpeza de propósitos. Vejo o Minstério da Cultura como o cerne do atual governo. No meu entender nenhum outro lhe é superior. Ele dará o tom da Nova República. E, para não ser assim, melhor seria não tê-lo criado, permita-me dizer-lhe com todo o respeito e confiança. A participação nessa esfera não pode ser exercida num quadro de nostalgia, de perda ou de degredo.

Diante da sondagem que me foi feita, repasso minha vida e, felizmente ou infelizmente, compreendo que o meu amor profundo para com o exercício do Teatro ainda não foi esgotado. Ao contrário: está mais vivo do que nunca. Deixando agora o Teatro, a sensação que eu teria seria a de uma vida inacabada. Creio firmemente que cada cidadão deva exercer sua arte ou seu trabalho em conformidade com a sua vocação. Estaria sendo leviana se, pensando desse modo, agisse de outro.

Não é fácil dizer não.

Não vejo que seja mais fácil decidir pelo Teatro. Ou mais seguro. O Teatro nunca foi fácil ou seguro.

Mas é o meu lugar.

Tenho certeza de que todos os intelectuais e artistas, entidades da classe, que me demonstraram apoio através de cartas, telegramas, telefonemas, visitas, compreenderão a minha opção.

Pode parecer uma frase bombástica e teatral, mas não devemos temer nem o Teatro, nem as palavras: não estou preparada para partir.

Nesses novos tempos, gostaria que você, Aparecido, assim como o Presidente José Sarney, entendessem que a melhor maneira de prestar meus serviços à cultura brasileira, é permanecer no palco, onde continuarei à disposição do meu país, humildemente.

De sua amiga, cujo sentimento básico é a fidelidade.

Fernanda Montenegro

Rio de Janeiro, 09 de maio de 1985.