Terrence McNally - Foto: Divulgação
Terrence McNally - Foto: Divulgação

A notícia da saída de cena do dramaturgo norte americano Terrence McNally, morto na manhã de ontem, 24, devido a complicações após contrair o novo COVID-19 (Coronavírus), deixou a Broadway ainda mais escura após um dos principais pontos de efervescência teatral do Ocidente suspender todos os seus espetáculos em ação de contenção a pandemia.

Aos 81 anos de idade, McNally foi um dos poucos dramaturgos do teatro nova iorquino a trafegar com perfeição e desenvoltura entre a dramaturgia chamada “convencional” e aquela criada especialmente para o teatro musical.

Embora seja mundialmente conhecido por ter escrito Master Class, drama que narra uma série de aulas magnas ministradas por Maria Callas na Juilliard School, em Nova York, e, em menor escala, a adaptação musical do livro O Beijo da Mulher Aranha, de Manuel Puig, montado na Broadway em 1993, McNally é um dos autores mais celebrados do teatro internacional.

McNally é autor de musicais vencedores (e indicados) ao Prêmio Tony, como Ragtime, The Full Monty e The Visit, adaptação de “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) estrelado por Chita Rivera. Suas peças ao longo dos anos também ganharam imenso destaque, principalmente It’s Only a Play e Mothers and Sons, ambas com montagens previstas no Brasil para breve.

Confira abaixo cinco espetáculos essenciais para conhecer mais da obra do dramaturgo:

1- Master Class

Master Class
Master Class

Montada originalmente em 1993, o espetáculo vencedor do Prêmio Tony foi estrelado pela também vencedora do prêmio Zoe Caldwell (1933-2020) e chegou ao Brasil em 1996 com Marília Pêra (1943-2015) no papel principal sob a direção de Jorge Takla. Na obra, a soprano Maria Callas dá uma série de aulas magnas na Julliard School of Music, em Nova York, enquanto repassa a limpo passagens de sua vida. A obra se tornou a mais famosa da carreira de McNally ao redor do mundo, e deu ao dramaturgo sucesso e prestígio por sua visão histórica, sardônica e pouco complacente da figura de Maria Callas. Pelo papel da soprano mais famosa da história passaram nomes como Faye Dunaway, Patti LuPone e Tyne Daly. No Brasil, uma nova montagem em 2015 trouxe Christiane Torloni (foto) na pele da soprano sob a direção de José Possi Neto.

2- O Beijo da Mulher Aranha

O Beijo da Mulher Aranha
O Beijo da Mulher Aranha

Baseado no livro homônimo de Manuel Puig, que também originou o filme estrelado por Sônia Braga, Raul Julia (1940-1994) e William Hurt  e sob a direção de Hector Babenco (1946-2016) em 1985, o espetáculo estreou em 1992 em Londres e, logo depois foi transferido para a Broadway com Chita Rivera no papel principal. Na obra, McNally deu um nova roupagem a personagem de Aurora, a diva do cinema B idolatrada pela personagem Molina, possibilitando as atrizes brilharem mesmo sem uma única ala (apenas canções compostas por John Kander e Fred Ebb). Pelo papel, Rivera ganhou seu segundo Prêmio Tony. No Brasil, a montagem de 2000 trouxe Cláudia Raia no papel-título e Tuca Andrada e Miguel Falabella como os dois prisioneiros de um regime ditatorial na América Latina. Pelo papel da diva do cinema passaram nomes como Vanessa Williams (em sua estreia na Broadway), a vencedora do Tony e do Emmy Bebe Neuwirth e a cantora Maria Conchita Alonso. A atriz multi vencedora do Prêmio Tony Audra McDonald chegou a participar de uma leitura em meados de 2014, mas a produção nunca foi pra frente. Um nova produção do musical chegou a ser estudada no Brasil e contaria com José Possi Neto na direção, mas também nunca aconteceu.

3- Ragtime

Ragtime
Ragtime

Baseado no livro homônimo do escritor norte americano E. L. Doctorow, o musical estreou na Broadway em 1998 narrando as tensões entre três grupos sociais no início do século 20: afroamericanos, imigrantes europeus e a high-society nova iorquina. No elenco do espetáculo passaram nomes como Marin Mazzie (1960-2018), Audra McDonald, Lea Michele, Maria Friedman, Brian Stokes Mitchell e Rosalie Craig. No Brasil, a possibilidade de uma montagem chegou a ser aventada e nomes de diretores como Jorge Takla e Tadeu Aguiar foram consultados, mas o projeto nunca foi pra frente. 

4- It’s Only a Play

It's Only a Play
It’s Only a Play

Montada originalmente em 1982, a peça se tornou um dos grandes sucessos da temporada nova iorquina do off-off Broadway e chegou a ganhar uma montagem 1986 no off-Broadway. Sua estreia o circuito da Broadway aconteceria apenas em 2014, repetindo o sucesso de público das montagens anteriores, mas não de público. Contudo, o espetáculo prova a verve de McNally para a comédia irônica e sardônica com a representação da alta classe teatral. Na obra, uma produtora de primeira viagem lança uma festa para comemorar a estreia de sua primeira produção, e reúne o ingênuo autor do texto, o diretor excêntrico, o elenco estelar e os amigos do autor, como um egocêntrico astro da TV que aceitou a oferta do papel principal e se arrependeu. O grupo espera pela publicação da primeira crítica do espetáculo. No elenco estelar da primeira montagem da Broadway estavam Matthew Broderick, Nathan Lane, Megan Mullally e Rupert Grint, entre outros. Os direitos do espetáculo foram comprados no Brasil e um dos nomes mais cotados no elenco é o de Herson Capri, no papel da estrela de TV que, na Broadway, foi vivida por Nathan Lane.

5- The Visit

The Visit
The Visit

Adaptação de McNally para o clássico A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt, o musical estreou em 2001 em Chicago estrelando Chita Rivera em substituição a Angela Lansbury que, após ensaiar o espetáculo, deixou a produção para cuidar de seu marido que havia acabado de descobrir um câncer. Rivera assumiu o papel e seguiu com a produção para uma nova montagem em 2008 na Virgínia e em 2015, quando o espetáculo finalmente estreou na Broadway. Com canções escritas pela dupla Fred Ebb (1928-2004) e John Kander (os mesmos de O Beijo da Mulher Aranha), o espetáculo narra a volta da multibilionária Claire Zachanassian a sua antiga cidade, em algum lugar da Europa. Em busca de vingança, a empresária encontra uma cidade de terra arrasada e promete dar milhões ao grupo de cidadãos se lhe entregarem a vida de seu ex-amante, Anton. No Brasil, Marília Pêra batalhou para montar o espetáculo no final dos anos 2000, sem sucesso. Os direitos só estariam disponíveis para o Brasil em 2016, um ano após a atriz sair de cena vítima de um câncer no pulmão.