Marighella é só a ponta do iceberg

Bruna Burkert analisa o mercado do audiovisual a partir do caso de censura de Marighella

Publicado em 04/11/2021 15:54
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O lançamento de Marighella foi por tantas vezes adiado que chegou trazendo sua própria história como pano de fundo da coletiva que aconteceu no dia 29 de outubro em São Paulo.

Não bastasse a figura de Carlos Marighella (1911-1969) já ser suficientemente intensa para resgatar antigas discussões, que por lapsos vergonhosos foram se perdendo ao longo dos anos, isso acontece em meio a governo bolsonaro e escancara o fim não anunciado da Ancine e de toda estrutura no cinema nacional. 

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Pura ironia o baianão Marighella ser o porta voz das denúncias de censura mais de 40 anos após a sua morte,  comprovando que, mesmo conquistada à duras penas,  sempre tivemos o esboço do que seria uma democracia. 

Apesar da aparente disparidade, a platéia que vê Marighella hoje não encontra um Brasil tão diferente da ficção assim. Foi durante a ditadura militar que muitos órgãos governamentais fundamentais e que existem até hoje (pelo menos no papel) foram criados, como a Funarte, por exemplo. 

Por que é importante saber disso? Porque em muitos momentos algumas discussões sobre o desmonte da cultura levantadas pelos apoiadores do atual governo são tão ultrapassadas que até a história do próprio Brasil já havia superado isso. Mas o filme em questão carrega consigo a carga de uma sociedade que ainda não entendeu o valor da cultura e um governo que se atreve a usar a máquina pública para definir os amigos e os inimigos. 

O ponto principal em torno do filme é sobre a definição do que é ou não censura. É claro que o governo não iria declarar censura, até porque ela não faz parte da nossa sociedade, toda censura em 2021 deve vir acompanhada de uma justificativa, mesmo que pífia, no caso de Marighella as justificativas se dão por ajustes de produção muito comuns e corriqueiros projetos em andamento. 

Agora para além de Marighella, que trás consigo a carga da mídia e a direção de um ator consagrado internacionalmente,  provocando um debate intenso na semana de sua estreia, fica a preocupação com o que tem sido feito da estrutura criada para apoiar os projetos culturais como um todo. 

Muito se tem falado sobre as aprovações de projetos e os absurdos que têm sido feitos diante disso, ao ponto de concentrar poderes nunca antes vistos a uma pessoa só, mas a condução dos projetos captados e andamento que podem estar respondendo a perseguições e tratativas desonestas como as que Marighella foi sujeitado é grave, pequenos produtos possam, até por medo de represália, se calar.

Fica ai um grande sinal de alerta para o que possa vir depois disso. Que a voz de Marighella foi mais uma voz de denúncia. Denunciando o fim do audiovisual brasileiro, denunciando as amarras da Secretaria Especial da Cultura e denunciando um governo sem o menor comprometimento com anos de luta e construção democrática por uma cultura para brasileiros. 

Especialista em Acessibilidade Cultural, Bruna Burkert é atriz, dramaturga e produtora. Ativista Cultural, amante do teatro de rua e da cultura periférica e inclusiva.
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