Nicole Cordery - Foto: Patricia Canola
Nicole Cordery - Foto: Patricia Canola

Em março, quando a pandemia do novo Coronavírus obrigou o decreto de uma quarentena preventiva que impedisse a disseminação do vírus autor de doença que, em três meses, já tirou mais de 55 mil brasileiros de cena, a atriz Nicole Cordery tinha uma agenda cheia de projetos que se formavam para ganhar os palcos.

Em abril, a artista voltaria à cena com a peça Chernobyl (indicada ao APCA de Melhor Direção para Bruno Perillo) em festival no interior do Estado de Santa Catarina, além de entrar em sala de ensaio para pôr em pé os espetáculos Aliens e Feliz Dia das Mães, de Dan Rosseto, e E as Crianças?, de Bruno Cavalcanti, sob a direção da vencedora do Prêmio Shell Noemi Marinho que marcaria seu primeiro encontro em cena com a amiga Fernanda Viacava.

A quarentena obrigou Cordery a suspender todos os projetos por tempo indeterminado, mas não a inspirou a pôr as barbas de molho. “Sempre fui uma mulher da ação!” garante. “Não perdi um dia da minha vida reclamando da nova situação mundial. Sou ‘Stanislavskiana’, entendo de circunstâncias dadas. A personagem agora vive num mundo em que a possibilidade de se apresentar perante os outros, num mesmo espaço físico, não é dada”.

Sua necessidade de produzir a levou a uma série de experimentos de seu ofício de atriz frente às câmeras. “comecei a me usar de cobaia, e a me filmar todos os dias em diferentes personagens, na minha casa, com meu celular. No dia 18 de março eu postei um vídeo antigo, divertido, com o objetivo de animar o pessoal em casa. E comecei a sentir que aquilo fazia algum sentido, as pessoas me retornaram de forma enfática, agradecendo”.

Nicole Cordery - Foto: Patricia Canola

O desejo de produzir, contudo, não impediu que a atriz também se visse fragilizada frente a pandemia iniciada na Ásia e que chegou ao Brasil sem a devida  atenção e seriedade no combate por parte do poder público. “Tendo em vista a realidade política do nosso país, e a forma como a pandemia seria conduzida, entendi claramente que o Covid não seria um drama. Que estava mais pra tragédia contemporânea”, conceitua.

“No começo da pandemia todo mundo estava assustado, com medo da doença, com medo de perder os seus. Eu estava assustada também. Mas sempre penso que, se a minha vida fosse o Titanic, eu seria uma integrante da orquestra. Tocaria até o barco afundar. Tocaria até dentro da água”.

A artista então começou a dar forma a seus experimento de onde surgiram dois projetos paralelos: a websérie Nós, dividida com a atriz e ex-colega de elenco na tragicomédia Nunca Fomos tão Felizes, de Dan Rosseto; e Pandas… ou Era uma vez em Frankfurt, experimento cênico online pioneiro dentro de um novo movimento batizado como Teatro Digital.

“Era minha forma de contribuir naquele momento. E era a minha forma também de tapar os meus vazios internos. A partir de 20 de março eu passei a postar a cada dia um texto diferente no feed do meu insta. E fui virando essa pessoa, uma espécie de ‘Cyber Atriz’”, se diverte a atriz que passou a agregar novos autores para seus experimentos online, entre eles Manoela Sawitzki, Camila Ferrazzano, Giuliana Melito, Fabiane Rivero, Pedro Scalice, Bruno Feldman, Pedro Guilherme, Fernando Pivotto e Shala Andirá.

“As pessoas começaram a me mandar seus textos e eu também fui atrás de novos escritores, e essa troca tem sido riquíssima. A quarentena tem me apresentado textos e autores incríveis. Sou uma atriz bastante sortuda”, celebra.

Entretanto, seus trabalhos de maior repercussão têm sido ainda os focados em autores mais experientes. Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt, por exemplo, é adaptação de peça do dramaturgo romeno radicado na França Matéi Visniec, com dramaturgismo e direção assinados por Bruno Kott, nome até então inédito tanto na ficha técnica quanto na vida de Cordery.

O projeto, inclusive, surgiu do encontro inusitado entre a atriz e o ator Mauro Schames que, embora dividissem os mesmos agentes, jamais estabeleceram relação profissional ou pessoal, mas, uma vez instaurado o isolamento social, se aproximaram dando vazão a uma espécie de crush profissional, como conceitua a atriz: “Sim, isso existe, uma pessoa que você segue o trabalho e gostaria de trabalhar junto, em algum momento”, explica.

“A ideia veio da cabeça incrível do Mauro, um super parceiro que conheci melhor na quarentena. Nós não éramos amigos. Tínhamos as mesmas agentes, já tínhamos nos visto, nos cumprimentávamos, cordialmente. Trocamos algumas mensagens ainda em março. Falamos de projetos futuros, falamos que poderíamos ler alguns textos pelo Zoom, começamos a fazer experimentos”, conta.

Prestes a prorrogar pela segunda vez a temporada – realizada de sexta a domingo pela plataforma e reuniões online Zoom -, a peça recebeu o aval de Visniec e tem recebido críticas elogiosas, além de ser forte candidata a premiações teatrais que souberem, nesse momento, abandonar o purismo e abraçar as novas formas de resistência cultural apresentadas pela classe neste momento fora da antiga ordem mundial.

“Eu adoro trabalhar com pessoas novas. Em geral são pessoas  que me tiram totalmente do conforto.  Com o Bruno [Kott, diretor] tudo foi fluindo muito bem, ele tinha clareza do que queria, era preciso nas coisas  que nos pedia, e mesmo tudo sendo muito difícil e novo pra mim, fui me entregando. Em poucos dias a peça estava levantada. O trabalho de dramaturgismo feito, as escolhas dos fundos, a escolha de linguagem. Acho o Bruno um artista genial”, se derrete.

Outro projeto que também ganhou visibilidade foi a websérie Nós, assinada por Cordery em parceria com Larissa Ferrara. “Essa websérie caiu no gosto do público e desde o princípio temos uma quantidade grande de curtidas e comentários. A série tem chamado a atenção, e nos levou a criar um perfil (@webserienos) só para ela no Instagram. Uma equipe incrível começou a se formar: Lucas Gouvêa, grande amigo da época da CAL, assumiu o cargo de Analista de Redes Sociais; Daniel Retz, diretor que eu admiro muito, nos ajuda com a parte gráfica e edições; Alice Reis montou um teaser incrível pra gente; Letícia Negretti faz as traduções e aplica as legendas em inglês, e a Flávia Tonalezi, super Diretora de Produção que abraçou o projeto desde o princípio”. 

“Nessa série eu e Larissa criamos os roteiros, nos dirigimos e atuamos. A Larissa é uma grande editora de vídeos e ela assina essa parte também. Somos uma dupla de criação e nos entendemos muito bem, ambas muito criteriosas, escorpianas e obcecadas pelo trabalho”.

Esse desejo obsessivo pelo trabalho não apenas é o que movimenta a artista (“Eu sempre produzi muito. É da minha natureza. Não me vejo num momento de hiperprodução. O que mudou para mim é que eu não preciso mais me deslocar tanto. E São Paulo é difícil… Num deslocamento perde-se às vezes uma hora. Agora eu saio de um ensaio e entro numa reunião de produção e já emendo na aula de Pilates, e depois na terapia”) a levou ainda a assumir mais um projeto.

Trata-e da série de vídeos no qual fragmenta o monólogo Plantonista Vilma, escrito pela atriz, diretora e dramaturga Noemi Marinho em 1992. “tem sido a minha nova paixão, ideia do Mauro Schames, que dirige os vídeos. Desde que ele me conheceu melhor disse: você tem que fazer a Vilma! É uma personagem que cativa as pessoas, ela é pura, divertida, ágil. Acho que ela desperta o melhor em mim”, diz a atriz que confirma o desejo de montar o espetáculo no futuro “Se a autora Noemi Marinho permitir, claro”.

Este novo formato digital vem encantando tanto a atriz que, passada a pandemia e havendo a possibilidade de retornar à cena física, Cordery não pretende abandonar a prática. “Por que não? Talvez eleger um dia na semana em que eu não esteja em cartaz… Temos um prazer muito grande em fazer, Mauro, Bruno e eu. Acho que enquanto for bom pra gente, enquanto a troca for genuína, como tem sido, continuaremos felizes e contentes”.

Há ainda o desejo de adaptar a websérie Nós para outras plataformas – o palco entre elas. Mas, por hora, o foco da dupla de atriz é roteirizar e gravar a segunda temporada que deverá abranger questões como o teatro online e as dificuldades dos atores durante a quarentena. “A vida e a arte se retro-alimentam. Se tudo o que eu preciso no momento para contar histórias está ao meu alcance, se não preciso mais me deslocar, ou esperar que saia um edital, que eu tenha pauta num teatro… se eu posso criar uma peça, uma websérie, vídeos interessantes de casa… porque ficar sentada no sofá?”.

SERVIÇO:

Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt

Data: 15 de maio a 05 de julho (sexta-feira a domingo)

Local: ZOOM

Horário: 20h

Preço do ingresso: R$ 20,00