Maitê Proença - Foto: Divulgação
Maitê Proença - Foto: Divulgação

O assassinato da professora Margot Proença Galo, morta com o golpe de 11 facadas na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, em 1970, marcou para sempre a vida da atriz, dramaturga e escritora paulista Maitê Proença, primeiro por ter presenciado a morte da jovem professora, sua mãe; segundo, pelo fato de o autor dos golpes ser seu pai, Augusto Carlos Eduardo da Rocha Monteiro Gallo.

O fato acompanhou os momentos íntimos da artista ao longo de toda a sua vida, até que, em 2005, surpreendida como convidada do quadro Arquivo Confidencial, do programa dominical Domingão do Faustão, o caso veio à tona sem seu consentimento, que, naquele momento, passou a dividir a dor privada com todo o Brasil.

Ato contínuo, num movimento de proteção, a atriz pôs no mercado literário Uma Vida Inventada (2008), autobiografia na qual narrava passagens de sua vida entremeadas por histórias fictícias. A obra se tornou um best-seller, mas não pode ser lida como uma obra definitiva sobre a vida de Proença que, neste 2020, aos 61, põe em cena O Pior de Mim, peça em que busca passar a limpo não apenas as passagens trágicas de sua vida, mas também promover uma autoanálise crua e (às vezes) cruel sob o olhar do público.

Desde 09 de setembro, a atriz sobe ao palco do Teatro PetraGold, no Rio de Janeiro, neste que já é considerado um de seus melhores trabalhos, tão vanguardista quanto corajoso. “O material onde fui catar para criar a peça era privado, não seria exibido para ninguém”, explica. Analisando a sociedade contemporânea, contudo, a artista decidiu expor seus traumas pessoais em cena.

“Observando o fascínio das pessoas pelos reality shows e pelo Instagram, da realidade maquiada até a perfeição, tive a ideia de mostrar os momentos da vida em que escorreguei, onde foi que ergui muros desnecessários, onde caí e errei sem sequer perceber o que estava fazendo. Achei que poderia ser interessante a verdade num mundo onde impera a mentira”, contextualiza.

Sob a direção do vencedor do Prêmio Shell Rodrigo Portella, o projeto nasceu justamente num momento em que as redes e as relações têm ganhado novos conceitos graças a pandemia do novo Coronavírus. “Ensaiamos sabendo que seria um produto criado especialmente para o formato. Uso a câmera como interlocutor, então é olho no olho com a pessoa que está em casa, diferente da TV, onde o ator evita olhar para a câmera. Tudo é muito íntimo, tudo é mostrado”.

No espetáculo, Proença faz uma análise ampla de sua vida pessoal e da carreira que construiu ao longo de mais de 40 anos, tanto na TV quanto no teatro (“Não estou muito no circuito da moda, não faço parte das panelas e patotas”), mas um dos temas mais contundentes e no qual vem se aproximando cada vez mais é a política, principalmente quando o assunto é a agenda ambiental. A despeito de já ter recebido sondagens para compor um ministério, a atriz procura se afastar de qualquer projeto de instituição.

“Posso ser mais efetiva fora da política. Quando um grupo de ambientalistas pensou em meu nome para o [Ministério do] Meio Ambiente, era no intuito de abrir a cabeça dos dirigentes e evitar o desastre de colocarem um inimigo da ecologia. Como o governo atual tinha ojeriza ao pessoal do IBAMA e afins, pensavam mostrar que poderíamos ter alguém não diretamente ligado a esses órgãos, mas que ainda assim fosse amante das causas ambientais. Não foi ideia minha, eu queria o [Fernando] Gabeira ou o Sérgio Besserman”, explica.

Maitê Proença no ensaio de “O Pior de Mim”

Em cartaz apenas até o dia 30, sexta-feira, com sessão única às 20h, O Pior de Mim é, na visão de Proença, uma forma de levar o público também à autoanálise, além de desvendar mistérios e impressões equivocadas que a rondam. Entre elas, ideias que não condizem com a verdade. “A ideia mais equivocada que fazem de mim é de que eu me sinto superior. Essa é uma ideia projetada. Sei do meu valor e das conquistas que fiz, mas quanto mais eu ando, mais percebo como preciso me aprimorar. Sempre tive e mantenho interesse genuíno pelas pessoas e por quase tudo a minha volta”, finaliza.

O Pior de Mim faz parte da programação digital do Teatro PetraGold e conta com sessões transmitidas via Zoom. Os ingressos custam de R$ 20,00 a R$ 200,00