Adriano Tunes: Entre frustrações e degraus

Ator, dramaturgo e diretor analisa o mercado e relembra frustrações que o formaram dentro do ofício

Publicado em 18/02/2022 08:30
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É difícil para o ator, dramaturgo e diretor Adriano Tunes precisar quando decidiu que enveredaria pelo mundo da arte. Mas não seria equivocado cravar que, aos 13 anos de idade, ao acompanhar o irmão, o músico Alê Araújo, em uma série de shows, o ator já se considerava um artista. 

“As coisas acontecem de um jeito tão orgânico que quando você pára pra pensar, não vem. Eu fui seguindo, mas me lembro que quando eu tinha uns 13 anos, recém-chegado a Porto Ferreira, em São Paulo, eu acompanhava meu irmão mais velho, que é músico. Meu pai era empresário dele e o vendia como um showman, porque ele fazia imitações, performava, e aí um dia um radialista foi conhecê-lo na minha casa e perguntou o que eu queria ser, e eu despretensiosamente respondi que queria ser humorista. E eu era muito tímido, muito sério, muito caladão, mas dizia que queria ser o Tom Cavalcante”, relembra.

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Hoje, prestes a completar 37 anos, Tunes não se tornou um Tom Cavalcante, entretanto a veia humorística foi o que levou ao teatro musical como figura de destaque na maioria dos espetáculos que participou. “Não quero mais ser o Tom, mas sempre gostei de ver as pessoas rindo de mim, é uma sensação boa. Quando eu brincava com meus amigos, eu queria fazer graça porque eu gostava de vê-los rindo, é uma coisa que vem de dentro, sabe?”.

Foi esse desejo íntimo de distribuir sorrisos que levou Tunes não apenas a papéis como o mamona Júlio Rasec (1968-1996), o comediante Amácio Mazzaropi (1912-1981) e a clássica Velha Surda, mas também angariar o respeito e amizade da temida diretora e coreógrafa Fernanda Chamma, com quem trabalhou em espetáculos como Hebe – O Musical, Os Produtores e no recente Silvio Santos Vem Aí – O Musical, que volta à cena hoje, 18, no palco do Teatro Raul Cortez.

“Eu tenho muita sorte! Conquistar a Fernanda Chamma é, até hoje, algo que eu não compreendo como fiz. No Hebe, quando a gente ensaiava as coreografias, ela me dava umas lapadas. Mas acho que fui pegando uma coisa caricata que ela gostou, porque eu não dançava, não era e nem sou um exímio bailarino, mas sempre me esforcei. Eu tinha uma coreografia com a [atriz, cantora e bailarina] Mari Saraiva que eu a levantava, fazia o pas-de-deux, era uma loucura, mas eu sabia que não deveria me acomodar, e que não era justo ficar sentado esperando a entrada do Mazzaropi com tantos artistas incríveis ali. Eu olhava em volta e sabia que deveria me enfiar nas coreografias, ralar e pegar. Eu tinha que estar disponível”.

Levando como um mantra o desejo de estar sempre apto aos desafios, Tunes avalia que sua melhor qualidade é a de se colocar sempre a prova, seja dentro do teatro musical, seja dentro de projetos fora da curva, como o programa infantil Dedé e o Comando Maluco, exibido pelo SBT entre 2005 e 2008.

“Quando fiz o programa, eu ganhei um bom período de trabalho por isso, pela disponibilidade. Eu fiz um teste para uma esquete, e como era um programa infantil e eu fazia um assaltante, fiz gaguejando e deu muito certo. A partir daí, fui ganhando personagens em outras esquetes até que se confirmou um personagem com falas, figurino, um personagem fixo. Mas ia além disso, porque eu fazia muitos outros: eu era o gorila, o lobisomem, a múmia, tudo eu aceitava”, conta.

“Numa dessas, tive o prazer de ter uma aula com o Dedé de como ter um embate circense. Ele me chamou de canto e ensinou um jogo cênico de circo que ele fazia nos Trapalhões. Por conta dessa disponibilidade, e sempre muito consciente de que eu aceitava para poder aprender e ter história, fui evoluindo, mas sempre tive o pé no chão”.

É essa consciência sobre o mercado que o cerca que Tunes tenta transpor para uma série de jovens alunos do curso que ministra no Estúdio Broadway, a escola de teatro musical de Chamma. Desta experiência, o ator traz análises mais profundas sobre o futuro do mercado e de como os jovens atores ainda precisam se disciplinar para o que acredita ser essencial: a importância do ofício.

“Quando comecei a dar aula, havia uma deficiência no interesse das crianças. Quando chegava minha aula era uma zona, e eu não entendia porque eles faziam tão bonitinho o canto e o sapateado, mas achavam que a aula de interpretação era o intervalo. O teatro musical tem esse mesmo glamour que tem a TV, por exemplo. E quando se vende o glamour em primeiro lugar, a gente não constrói atores”, critica.

“A pessoa senta na plateia, é uma fã de teatro musical, começa a entender que aquele é o universo dela, e quando vai atrás para estudar, para tentar entrar nesse mundo, a primeira coisa que ela pensa é que vai ser protagonista, ter a foto no banner, cantar 20 músicas, ter um monte de falas, é isso que se vende. E é uma coisa que eu tento aos poucos quebrar, desconstruir de uma forma que não seja traumática para essas crianças, mas é importante que elas entendam que cada um tem seu papel e cada papel é importante”.

Adriano Tunes caracterizado como a Velha Surda de Silvio Santos Vem Aí – O Musical | Foto: Thiago Almeida

Tunes, contudo, acena para o fato de as crianças não serem as únicas deslumbradas com o mundo dos musicais. “Os pais também precisam criar essa consciência, porque às vezes esse é um sonho do pai, não da criança, então é preciso enxergar se não existe ali uma pessoa tentando compensar no filho um desejo que não pôs em prática”, avalia.

“O que interessa não é a personagem, é a história. O protagonista não é o ator, nunca é o ator, é o personagem. Quando eu fazia O Júlio no Musical Mamonas, tive que entender que eu não era o protagonista. Ele era. Se eu coloco isso na cabeça, ponho o pé no chão, porque todos estamos numa máquina para contar uma história”.

E se manter com os pés no chão foi o resultado de um processo regado a impressões e frustrações com um mercado que nem sempre respondeu da forma que o ator esperava. Quando brilhava dentro do elenco de Musical Mamonas, sob a direção de José Possi Neto e narrando a trajetória de vida dos cinco garotos que formaram uma das bandas mais populares da década de 1990, e tiveram a trajetória interrompida por um trágico acidente de avião.

À época em cartaz no palco do mesmo Teatro Raul Cortez para onde retorna para compor o elenco de Silvio Santos Vem Aí – O Musical, Tunes decidiu investir em obra autoral num espaço alternativo, e estreou Aos Domingos, drama singelo sobre a relação de um casal de terceira idade que precisa lidar com a solidão e com o mal do Alzheimer. Em cena, o ator dava vida a uma simpática senhora que, ao lado de seu marido, recebiam as pessoas para um café no fim da tarde.

Bem recebido pelo público, o espetáculo – dirigido por Bernardo Berro e dividido com Emerson Grotti – não teve a adesão de público que o ator esperava. “Não foi como eu gostaria, mas foi boa a experiência de entender públicos, porque eu me iludi um pouco, sim, achando que o público do Mamonas viria. Eu não parava de receber solicitação de amizade, curtidas no Instagram, eu apostei nesse público, apostei de verdade, e entendi que não é assim que funciona, existem públicos e públicos. O público era do Mamonas, e não do musical, mas da banda! Claro que não iriam assistir, e mesmo algumas pessoas que foram, gostaram e tudo mais, tiveram dificuldade de desbloquear aquela imagem do Júlio com o que eu tinha acabado de fazer. Não ganhei dinheiro com o Aos Domingos. Nem dá pra ganhar dinheiro com um espetáculo daquele”, analisa.

Entre as frustrações, Tunes ainda precisou lidar com a morte do ator e diretor José Wilker (1944-2014), que dirigiria uma montagem de O Arquiteto e o Imperador da Assíria protagonizada pelo ator com Grotti, um monólogo que teve uma temporada curta de apenas uma apresentação no palco do Teatro Augusta (não havia dinheiro para outras sessões) e a consciência de que não conseguiria se manter como produtor. “Sou péssimo! É um talento maravilhoso quem tem o dom de não levar os ‘nãos’ para o lado pessoal”, ri.

Mas nenhuma frustração até o momento foi tão forte quanto o fracasso de Eu, a Vó e a Boi, série de Miguel Falabella baseada numa thread de sucesso do Twitter. Encomendada por Glória Perez para a grade da Rede Globo, a série seria a estreia de Tunes no audiovisual com uma personagem dramática: a travesti Sapori. 

Contudo, problemas internos fizeram com que a obra, prevista para ter 12 capítulos, fosse cortada pela metade, com a diminuição de todas as personagens que não estivessem envolvidas diretamente com o arco principal protagonizado por Vera Holtz e Arlete Salles.

“Rolou uma frustração bem grande, eu fiquei muito triste. Era minha primeira teledramaturgia, minha primeira experiência na Globo, uma personagem diferente, eu me doei mais de 100% por ela, e confesso não entender direito o que houve. O [diretor] Paulo Silvestrini foi um fofo, ligou pra gente para explicar que aconteceria uma frustração ali. E quando eu li as críticas, fiquei frustrado pelo Miguel, porque ele escreveu uma obra prima. Inclusive, acho que seria uma coisa que também mudaria a vida dele, sabe? Era totalmente diferente, 12 episódios fugindo de esteriótipos, uma tragicomédia incrível. Enfim, esquartejaram a série, minha personagem perdeu muito, e exibiram as coisas menos interessantes, sabe? Se perdeu muita coisa, muitas cenas bonitas, ela surge do nada e some do nada”.

Contudo, mesmo essa frustração também levou o ator a um avanço na carreira. “Mudou toda a minha vida em relação a estudo de personagem, a entendimento com a câmera, eu sofri demais para gravar porque me faltava experiência, técnica, enfim, ali pude entender o mínimo do mínimo e ir mais além, porque é isso, é estar disponível”.

“O tempo todo, na minha cabeça, apesar de ter os picos de pânico, do tipo: meu deus, que horas eu vou acontecer, que horas vai acabar esse sufoco de pegar moedas debaixo do sofá? Mas em todos os momentos eu penso: não, degrau por degrau, passo por passo, sempre tive isso muito consciente, porque eu quero essa carreira sólida”, finaliza o ator que, mesmo no fim da entrevista, ainda tinha dúvidas sobre como tinha iniciado sua trajetória. 

“Quando eu falei: sou ator! Foi quando vim para São Paulo e passei a dar aula numa escola em que eu fui aluno. Aí recebi meu primeiro salário e foi quando eu entendi que estava nesse lugar e queria permanecer. Nossa é uma resposta muito aérea, quando a gente terminar com certeza eu vou pensar: não! Eu decidi ser ator em outro momento, e vou ligar pra você e refazer tudo!”. Até agora, não ligou.

SERVIÇO:

Silvio Santos Vem Aí – O Musical

Data: 18 de fevereiro a 10 de abril (sexta-feira a domingo)

Local: Teatro Raul Cortez – São Paulo (SP)

Endereço: Rua Doutor Plínio Barreto, 285 (dentro do prédio da Fecomércio) – Bela Vista

Horário: 21h (sextas); 16h e 20h (sábados); 15h e 19h (domingos)

Preço do ingresso: R$ 37,50 (meia) a R$ 150,00 (inteira)

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