Luccas Papp em A Ponte | Foto: Fernando Maia
Luccas Papp em A Ponte | Foto: Fernando Maia

Quando a pandemia do novo Coronavírus chegou ao Brasil congelando o mercado cultural e fechando teatros e espaços da cultura ao redor do país, Luccas Papp havia recém-estreado O Canto de Ninguém, drama musicado no qual estabelecia conexões artísticas com o maestro João Carlos Martins e com a atriz e cantora vencedora do Prêmio Bibi Ferreira Fabi Bang.

Apontada como um dos melhores trabalhos do artista, a produção precisou encerrar a temporada no Teatro Itália para atender às determinações do governo do Estado de São Paulo de quarentena restritiva como meio de impedir a disseminação do vírus que já tirou mais de 200 mil pessoas de cena em quase um ano apenas no Brasil.

Embora não tenha conseguido dar continuidade ao espetáculo – sucessor do consagrador O Ovo de Ouro, estrelado pelo autor ao lado de Sérgio Mamberti, Ando Camargo, Rita Batata e Leonardo Miggiorin -, Papp entrou em exílio criativo e, entre o final de fevereiro e o início de maio, deu vida a nada menos que cinco textos dramatúrgicos, sendo quatro inéditos e um a adaptação de filme dinamarquês.

“Eu sou muito inquieto, não consigo ficar muito tempo sem produzir, principalmente no início da pandemia, quando não havia nenhuma produção e o teatro online ainda não estava estabelecido. Minha produção era a dramaturgia, então os cinco primeiros textos que eu escrevi foram do início da pandemia até maio. E tudo o que me movia eram projetos que eu tinha na gaveta, gêneros que eu queria escrever, gêneros que eu queria explorar e essa necessidade de produzir, de fazer as coisas acontecerem”, conta o autor que, em junho, precisou dar uma pausa na produção compulsiva.

Com uma carreira se consolidando na TV e despontando como um dos principais autores do teatro paulistano – graças a produções como 2 Palitos e O Último Mafagafo, entre outras -, Papp recebeu o diagnóstico de depressão, aprofundado após a perda do avô. O ator, então decidiu realizar pausa estratégica para recarregar as baterias emocionais e exorcizar os demônios com um novo texto.

Em A Ponte, eleito um dos melhores textos de 2020, o artista fazia um inventário do processo depressivo na pele de um músico famoso que decide transmitir online e em tempo real seu suicídio ao se atirar de uma ponte.

A produção intensa seguiu, e o ator voltou a entrar em cena ao lado de Leonardo Miggiorin para encenar o drama A Bicicleta de Papel, em cartaz com a presença do público no Teatro das Artes, em São Paulo, e se prepara para estrear um novo solo, retornando ao universo online: Jimmy, solo no qual narra a vida de um rapaz, réu de um julgamento com razões desconhecidas. O relato apresenta uma visão sobre a relação do jovem com sua família, com seus amores e sobre a descoberta da homossexualidade, elementos que formam a tríplice dramatúrgica da obra do ator: a perda, a relação familiar e a relação com Deus, todos entremeados pelo sexo.

“A existência de uma boa obra se baseia nesse triângulo da relação que você tem com a sua família, como ela ajudou a desenvolver você e seus traumas; como se ela lida com a divindade e meus espetáculos mostram um tipo de perda, em geral a morte. Ela pode acontecer no espetáculo ou antes, e ter uma reverberação. Então escrevo sobre tragédia e sobre família com uma pincelada com o divino”, exemplifica.

Entre as obras que marcaram sua produção dramatúrgica estão títulos como SonheComigo.com, Estepe, Tetris, A Ponte e Jimmy, além de duas adaptações: Libélula, baseado no romance inédito lançado pelo escritor e psicanalista Marcos Lacerda em 2014, e Culpa, adaptação do filme homônimo lançado em 2018 e dirigido pelo dinamarquês Gustav Möller. 

“Eu tinha uma média de um, dois textos por ano. Escrevi o equivalente a três anos de trabalho dramatúrgico. Fluiu muito a criatividade e ainda tem muita coisa que quero escrever em 2021”, diz Papp que começou a dividir seu tempo entre a escrita e a produção das obras que desejava pôr em cena. Para isso, a nova dinâmica de produção teatral online foi fundamental.

“O teatro online dá a possibilidade de a pessoa que assistiu a novela As Aventuras de Poliana lá na Bahia, ver meu trabalho no teatro. Me interessa nesse sentido de conseguir atingir o público que não conseguiria me assistir no teatro convencional”.

Vencedor do Prêmio Contigo de Ator Revelação por seu papel na novela assinada por Íris Abravanel no SBT, Papp enxerga ainda a possibilidade de mostrar a versatilidade do seu trabalho para um número maior de pessoas. 

“Eu ganhei o Prêmio Contigo e tal, mas não acho que a personagem da novela mostra um décimo do que eu consigo fazer dramaturgicamente como ator no teatro. Então o teatro online me interessa para levar a minha obra teatral para onde não chegava antes. A pandemia acelerou esse processo e nos levou a um lugar que não nos levava antes. A produção é diferente, mas a escrita em si para mim não se altera. Não escrevo pensando online, escrevo pensando na produção presencial. Penso que é muito mais fácil escrever de forma convencional e adaptar para o online”, finaliza.

Jimmy estreia no dia 06 de fevereiro e permanece em cartaz durante todos os sábados do mês às 19h. A transmissão acontece via Zoom e os ingressos começam a ser vendidos nesta segunda-feira, 25, via Sympla.