Ana Beatriz Nogueira - Foto: Divulgação
Ana Beatriz Nogueira - Foto: Divulgação

Ana Beatriz Nogueira abriga espetáculos em sua casa, critica falta de políticas para a cultura e avalia retorno dos espetáculos

Há quase duas décadas, Ana Beatriz Nogueira tomou as rédeas dos projetos que queria levar para os palcos e passou a assinar, sozinha ou com parceiros, as produções dos espetáculos que protagonizou ao longo dos últimos anos. Próxima dos quarenta anos de carreira, é sintomático que Nogueira seja uma das vozes mais atuantes da classe teatral desde que a pandemia do novo Coronavírus congelou o mercado da cultura das artes, fechando teatros e espaços culturais ao redor do Brasil.

Em parceria com o grupo PetraGold, a artista criou e enccaeçou o projeto Teatro Já, abrigado no palco do Teatro PetraGold, no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, no qual espetáculos – a maioria solos – realizam temporadas regulares com transmissão via streaming para todo o Brasil e já recebeu nomes como Maria Padilha, Maitê Proença, Clarice Niskier e Lília Cabral.

“Tudo é erro e acerto. Mas não estamos esperando soluções caírem do céu. Estamos procurando e tentando. E fazendo pra ver se dá certo. Estamos trocando o pneu com o carro andando (parar não é uma opção)”, pontua a atriz, que levou para o streaming dois solos de seu repertório: Tudo o que eu Queria te Dizer, baseado na obra homônima da escritora gaúcha Martha Medeiros, e Um Dia a Menos, inspirado no conto homônimo de Clarice Lispector (1920-1977).

Nogueira, contudo, decidiu que era hora de dar passos mais ambiciosos e, com recursos próprios, construiu um espaço cênico em sua casa, no Rio, para abrigar solos e shows independentes com transmissão também online. Nasceu assim o Teatro sem Bolso, com programação que contou com solo inédito escrito pela cantora Zélia Duncan e protagonizado por Cristina Flores e shows como o da cantora Ana Costa.

“Eu estou muito feliz por ter esse bicho-carpinteiro do bem dentro de mim. Tem sido maravilhoso não parar… e não deixar tantas pessoas sem a possibilidade de ter a experiência do teatro, mesmo que diferente. Acredito que a dificuldade fez novas soluções serem criadas. E que essas novas soluções possam sobreviver a tudo isso que nos coloca no ‘anormal’”.

Cristina Flores e Ana Beatriz Nogueira na estreia do Teatro sem Bolso

A atriz acredita que, havendo um controle da pandemia e um aquecimento gradual do mercado cultural, o teatro deverá olhar com mais atenção para as campanhas que visam tornar o meio mais acessível ao público de todo o tipo de renda. “Talvez o ‘normal’ volte com mais opções. Dentre elas, a democratização do acesso ao teatro. Sim, teatro é caro… e não à toa. Não grava uma vez e repete várias. É toda vez de novo, de novo e pra valer. A maioria das pessoas não imagina quantas outras pessoas estão envolvidas num único espetáculo. Gente que não aparece, mas que sem elas, não aconteceria a mágica”.

“De repente, se abateu sobre esse país uma noite, uma escuridão. Foi antes da Covid. Ela só veio colocar extremos num desmonte em andamento. Do dia pra essa noite, cultura e arte passaram a não ser importantes para o Governo. Muito pelo contrário, parece que deviam ser eliminadas”, critica.

“Com a Covid (em quem ninguém votou), veio o distanciamento, o isolamento, o confinamento necessários para a saúde de todos. Isso nos colocou cada um em seu canto seguro. Não mais teatro, não mais plateia, não mais poder exercer sua profissão. Mas a gente vive disso. E não estou falando sobre o lado financeiro. A gente vive disso, nisso e somos isso. Como um jardineiro colocado num espaço feito só de cimento, ele vai dar um jeito de plantar alguma coisa. Foi assim, nesse ambiente e contexto inóspito, que muitos artistas reagiram e continuaram regando seu jardim e oferecendo flores. Se ainda posso levar isso a outras pessoas, mesmo que forçosamente só por streaming, que assim seja. E assim foi”.

Com o comprovado sucesso de público dos dois projetos que encabeçou, Nogueira põe em cheque ainda a afirmação de que o público não aderiu ao novo formato. “É algo a se relativizar. O público amou a live de Caetano (histórica). Também a de Gil. Gal teve críticas exatamente porque se tentou fazer muito produzido, mas Gal é Gal… e foi ótimo”.

“Longe de mim condenar quem não gosta. Eu também não gosto de ser forçada a um tipo de consumo, mesmo de arte. Também gostava de como era… e voltará a ser. É exatamente essa coisa forçada, fora do costume, essa limitação, que enche o saco. Todo mundo tá de saco cheio de tantas restrições (embora necessárias). Todo mundo quer poder escolher ir lá… ou não… no teatro… no cinema… ou não. Lives viraram sinônimo de “é isso que você pode ter agora”. Quem gosta disso? Mas, reafirmo, são outras possibilidades, mesmo nascidas de um desastre, que podem ficar. Por escolha das pessoas. E com seus benefícios”.

Com programação intensa, o Teatro sem Bolso recebe no dia 18 de outubro, domingo, o show Divas do Jazz,no qual o músico João Felippe convida a cantora Camilla Marotti; No domingo seguinte, 25, Lorena da Silva encena sua A Mulher Ideal sob a supervisão de Amir Haddad; Já nos dias 08 e 22 de novembro, Andrea Dantas volta a interpretar a atriz Bette Davis (1908-1989) no monólogo O Diabo em Mrs. Davis, de Jaú Sant’Angelo sob a direção de Aloísio de Abreu.

Os espetáculos são transmitidos via plataforma de reuniões remotas Zoom e os ingressos variam de R$ 15,00 (meia) a R$ 30,00 (inteira) e podem ser adquiridos via ticketeira online Sympla.