“Não foi uma peça arquitetada, fluiu com amor”, conceitua Miguel Arcanjo sobre estreia como dramaturgo

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Atriz e bailarina cubana, Phedra D. Córdoba chegou ao Brasil no final da década de 1950 pelas mãos de Walter Pinto, famoso empresário do Teatro de Revista carioca, que levou a artista para a mítica Praça Tiradentes, onde o gênero de Revista resistia bravamente às mudanças culturais do Rio de Janeiro da época.

Artista
trans, D. Córdoba construiu também uma carreira como cantora e entertainer nas noites do Teatro Rival
ao lado de nomes como Rogéria, Divina Valéria, Jane Di Castro e uma série de
outras artistas que passaram a ser conhecidas como as Divinas Divas.

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Na virada do
século, Phedra reinventou sua carreira se tornando uma das maiores e melhores
atrizes de São Paulo, quando encontrou Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral,
dupla fundadora da companhia teatral Os Satyros, que não apenas a recebeu, como
fez da atriz a grande dama da Praça Franklin Roosevelt, centro do teatro
independente de São Paulo.

A história
desta grande artista é contada em Entrevista
com Phedra
, peça escrita pelo jornalista e, agora dramaturgo mineiro Miguel
Arcanjo Prado, profissional que, com 15 anos de carreira na comunicação,
envereda agora pela dramaturgia teatral. Na peça, Arcanjo narra seus sucessivos
encontros com D. Córdoba para uma série de entrevistas que realizou enquanto
esteve no portal R7, que ajudou a criar, e em seus blogs e colunas em
diferentes veículos de comunicação, como o UOL, onde assina o Blog do Arcanjo.

Confira
abaixo a entrevista concedida pelo jornalista e dramaturgo a reportagem do
Observatório do Teatro por e-mail.

Observatório do Teatro: Como o teatro entrou na sua
vida?

Miguel Arcanjo Prado: O teatro faz parte da minha
vida antes de eu me dar conta de mim mesmo. Quando eu tinha sete meses, meu pai
e minhas tias, que eram bailarinos, participavam do elenco da superprodução Aleijadinho, Um Anjo de Asas Feridas
Habitou entre Nós
, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, sobre a vida do
mestre do barroco mineiro. Eles precisavam de um bebê para fazer o Aleijadinho
na cena de seu nascimento. E me levaram. Fiz a peça por todo o Brasil, ainda
bebê e nos meus primeiros anos de vida. Assim começou minha relação com o
teatro.

OT: Você acha natural essa transição do
jornalismo para a dramaturgia? Aliás, você se considera dramaturgo?

MAP: Estão dizendo que posso me chamar de dramaturgo, além de jornalista [risos]. Ainda é muito novo para mim esse termo. Eu gosto mesmo é de escrever, independentemente de qual seja o formato. Antes de ser jornalista, já escrevia contos, poemas e crônicas, desde a infância e adolescência. Comecei na máquina de datilografia do meu avô! Influenciado por minha mãe, ávida leitora, sempre fui rato de biblioteca, até já ganhei prêmio de leitor mais assíduo da biblioteca da escola. Além disso, sou afilhado de Zélia Gattai, que foi quem despertou essa paixão pela escrita e a vida cultural do meu tempo. Como me especializei no jornalismo cultural ao longo da minha trajetória profissional e me tornei crítico teatral, vi e vejo milhares de peças. Então, acho natural que em algum momento eu escrevesse uma também. O melhor curso de dramaturgia que tive foram as peças que vi. Mas, para começar nesta seara, precisava ter algo muito genuíno e verdadeiro para falar. Entrevista com Phedra não foi uma peça arquitetada, foi um espetáculo que fluiu com amor no momento em que tinha de fluir.

Entrevista com Phedra | Foto: Bob Souza

OT: Por que levou tanto tempo para
escrever uma peça?

MAP: Na verdade escrevi a peça pouquíssimo
tempo, apenas dois dias [risos]. Mas entendi o que perguntou, com 15 anos de
jornalismo cultural só agora escrevi uma peça. É que nunca pensei assim: ‘ai,
preciso escrever uma peça’. Esse espetáculo simplesmente veio na hora que tinha
de vir. A Phedra havia morrido em abril de 2016 e na primavera seguinte o
festival Satyrianas foi feito todo em sua homenagem. Eu havia passado o último
domingo que ela esteve viva em sua companhia no hospital, só nós dois. E ela me
falou que eu tinha de escrever sua história! Jogou para mim essa
responsabilidade. O sonho dela é que eu fizesse sua biografia. Com a decisão do
Satyros em homenageá-la no festival, acabei fazendo essa biografia em forma de
espetáculo, consultando as entrevistas que havia feito com ela ao longo da
carreira para me inspirar e contando também dicas preciosas do ator e diretor
Juan Manuel Tellategui. O Juan acompanhou de perto meu processo criativo, fazendo
observações que foram fundamentais na feitura do texto, já que o Juan é muito
inteligente, perspicaz e tem um farto conhecimento da linguagem teatral,
universal, latina e brasileira, por ser um ator com esse trânsito do teatro de
Buenos Aires para o de São Paulo, o que lhe deu uma visão muito aguçada e com
preciso distanciamento para ver coisas que a gente não vê.

OT: A Phedra não era uma figura
necessariamente conhecida de um grande público. Sua peça faz um trabalho de
resgate e também de apresentação desta atriz para um público que talvez não a
conheça. Você enxerga esse poder no espetáculo?

MAP: Sim, esse sempre foi um objetivo, que não fosse apenas uma peça da Phedra para seus amigos íntimos da praça Roosevelt. Esse questionamento de buscar essa universalidade na Phedra quem me trouxe, logo que comentei que iria escrever essa peça, foi o Juan Manuel Tellategui. Ele sempre me falou: “a peça precisa funcionar para quem nunca viu ou soube da Phedra, precisa funcionar aqui em São Paulo, em Buenos Aires, em Belo Horizonte ou para qualquer teatro no futuro que deseje montar sua peça”. Acho que dão conta disso não só a dramaturgia, como também a direção do Juan ao lado do Robson Catalunha, que teve papel primordial na construção estética e rítmica da obra, inclusive propondo leves e precisos cortes no texto original acatados por mim. E o resultado deu certo: a Phedra D. Córdoba de Entrevista com Phedra é para todos.

Phedra D. Córdoba | Foto: Divulgação

OT: Achei muito corajoso você se colocar
em cena como personagem. Como foi esse processo para você?

MAP: Não pensei muito sobre isso, senão
não faria [risos]. Na verdade, ao falar sobre a Phedra, eu parti de um ponto de
vista muito pessoal. A Phedra do espetáculo parte da visão desse jornalista
embasbacado por essa figura tão carismática e temperamental, uma verdadeira
diva como já não se faz mais, uma diva real que ele sempre sonhou conhecer. Eu
tive a sorte de conhecer essa mulher, é isso que tento dizer ao público com a
presença de meu personagem em cena. O Raphael Garcia está me interpretando
muito bem, sem qualquer tipo de cerimônia em relação à minha figura, ao autor
estar vivo ali na plateia. Minha mãe, Nina, por exemplo, viu a peça na estreia
e disse que ele está igualzinho. Amigos que trabalharam em redação comigo por
muitos anos também me disseram que o Raphael reproduz alguns gestos típicos
meus. Para mim, é tudo muito intenso, já que não tenho o distanciamento nem do
personagem nem da história. Para você ter uma ideia, Bruno, fui ver uma parte
do ensaio duas semanas antes da estreia, vi a primeira cena e saí aos prantos,
nem consegui chegar à segunda cena. Foi só na estreia que vi a peça completa.
Fiquei tão emocionado que não consegui agradecer ninguém ao fim. Eu só chorava,
assim como quase todo mundo naquele teatro.

OT: O espetáculo está em cartaz
praticamente na casa da Phedra, que é o Satyros. Você enxerga uma carreira do
espetáculo fora desse espaço e dessa localização, que é a Praça Roosevelt?

MAP: O espetáculo foi lido pela primeira
vez em 2016, durante a Satyrianas, justamente nesta mesma sala, por indicação
do Gustavo Ferreira, que coordena o festival e também é nosso diretor de
produção agora. Também foi nesta sala que vi Phedra atuar tantas vezes, me
comovendo de uma forma profunda, muitas vezes compartilhando elenco ou sendo
dirigida pelo Robson Catalunha, agora diretor da minha peça com o Juan. E o
apartamento da Phedra era naquele prédio, lugar onde a entrevistei várias
vezes. Foi também no Espaço dos Satyros Um que Phedra atuou em uma peça dos
Satyros pela última vez, Pessoas
Sublimes
. E Juan e eu assistimos essa última sessão que a Phedra fez, já
muito doente, em um domingo triste para todos nós. E eu fui ao intenso velório
dela, também naquele palco. Assim que, quando resolvemos que era hora de montar
definitivamente o espetáculo, tinha de ser naquele palco. Rodolfo García
Vázquez e Ivam Cabral, fundadores do Satyros e realizadores da peça, também
concordaram. É ali que a energia da Phedra segue viva, agora ressignificada
pela arrebatadora atuação de Márcia Dailyn, a nova diva da praça Roosevelt que
personifica Phedra em um trabalho arrepiante de uma grande atriz. 

SERVIÇO:

Entrevista
com Pedra

Data: 08 de
julho a 02 de setembro (segundas-feiras)

Local:
Satyros 1 – São Paulo (SP)

Endereço:
Praça Franklin Roosevelt, 222 – Consolação

Horário: 21h

Preço do ingresso: R$ 40,00

Marcia Dailyn em Entrevista com Phedra | Foto: Annelize Tozetto
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