Carol Hubner - Foto: Divulgação
Carol Hubner - Foto: Divulgação

Foi em meados de 2004, ano em que o Brasil já se acostumava com a febre dos reality shows e a fama fácil atribuída a ex-participantes de programas de confinamento, como o Big Brother Brasil, que a atriz Carol Hubner decidiu se aventurar pelo mundo efêmero da televisão ao se candidatar a uma vaga da quarta (e derradeira) edição da Casa dos Artistas, programa transmitido pelo SBT e considerado uma espécie de precursor no Brasil de realities do gênero.

Diferente das edições anteriores, quando os vencedores levavam, além da fama previsível, um prêmio em dinheiro, o que encantou a artista foi a possibilidade de, caso saísse vencedora, abocanhar um papel em uma novela do canal de Silvio Santos. 

“Eu tinha 24 anos e a ilusão de que se eu fosse protagonista de novela as coisas seriam muito mais fáceis pra mim como atriz. Achava que iria ganhar dinheiro,ficar conhecida e produzir minhas coisas”, relembra a artista, que enxergava no ato uma espécie de sentimento comum dos trabalhadores do mercado da cultura das artes.

“É o que todo artista sofre, a gente ama a arte, ama ser ator, mas como ganhar dinheiro? É cruel. Eu pensei: vou ser protagonista de uma novela, é pra lá que eu vou. Quando me perguntaram se e queria ser famosa, eu disse que não não era só isso. Senão teria me inscrito no Big Brother, o meu desejo era ser protagonista”, afirma.

O resultado não foi o esperado. Embora tenha participado da novela Esmeralda, protagonizada por Bianca Castanho, Hubner encontrou real projeção dentro do teatro, onde havia iniciado carreira ainda adolescente. “Não deu a projeção que eu queria, mas me deu um espaço muito bom dentro do mercado teatral e aos olhos de alguns produtores”, relembra, citando o produtor Francesco Gagliano, gestor da Tchesco Produções.

“Imaginei que seria uma grande estrela”

“Ele me chamou para trabalhar porque era muito mais fácil para ele ligar para uma cidade no interior de São Paulo e dizer que eu, saída de um reality show e de uma novela em rede nacional, estava no elenco. As pessoas têm interesse em receber quem estava na TV”.

A fama no meio, contudo, também durou pouco. “Não foi nem um ano!”, se diverte. Mas a experiência serviu, principalmente, para que a artista criasse estofo dentro do meio, uma vez que, embora estudasse desde cedo e se aventurasse em experiências amadoras, sua estreia tenha acontecido apenas em 2001 com a peça O Dia da Noiva, de Ronaldo Aranha, produzida pelo Grupo Barriga Viva,  em Curitiba (PR).

“Claro que eu imaginei que seria a grande estrela! Eu tinha certeza, achava que ia ser famosa, ficar rica, fazer muito teatro, e aí menino, você cai do cavalo e rola o morro! Daí chega a idade e você percebe que dura muito pouco tempo. A fama é muito rápida se você não fica na mídia. E tudo muito efêmero”.

Tal qual na TV (que abriu mão após não aceitar a ideia de uma mudança para o Rio de Janeiro), Hubner seguiu caminhos menos clássicos no teatro. Diferente de outros artistas de sua geração, que procuraram validação artística e crítica ao se unir a companhias e grupos de pesquisa, a atriz caiu de cabeça no mercado da comédia popular.

“Eu acredito no teatro popular, acho que ele transform muito mais a população do que um nicho muito pequeno de pessoas que vai entender uma peça um pouco mais cabeça. Eu faço peça pro povo, qual o problema? Qual o problema de fazer uma peça popular? Porque a pessoa vai, assiste, assiste de novo e vai se preparando para ver peças que pedem um nível de cognitivo um pouco maior. Não me importo com o que as pessoas pensam porque eu sei o serviço que eu tô fazendo, eu sei o que é ter o teatro cheio”.

A atriz, contudo, é nome multifacetado no universo teatral paulistano, colecionando parcerias com nomes como Dan Rosseto, Mônica Carvalho, Eduardo Martini e agora segue, há quatro anos, em cartaz com a comédia A Banheira, de Gugu Keller, dirigida por Alexandre Reinecke, um dos principais diretores do teatro brasileiro respons´vel por algumas das melhores comédias dos últimos anos.

“Eu amo fazer comédia por causa da liberdade, por causa da crítica social. Na comédia você poder falar e ser cruel com o público, ele te escuta. A comédia faz com que o público pense e reflita sem perceber. Ele acha que você está sendo engraçado e você está sendo cruel, tem uma lição de moral nebulosa”, conceitua.

Em A Banheira, Hubner dá vida a uma mulher traída e conservadora, que se vê em meio a uma teia de confusões quando o marido leva uma amante pouco convencional para dentro de sua casa. “A peça fala sobre a hipocrisia da família. De como a gente é preocupada com o corpo do outro, principalmente com a questão da sexualidade. Como uma sociedade é tão preocupada com o que as pessoas fazem do próprio corpo”.

“Existem muitos níveis intelectuais e o artista tem que estar onde o povo está”

O espetáculo, que cumpria bem sucedida temporada no Teatro Maria Della Costa, na Bela Vista, precisou, como todo o mercado cultural, congelar suas sessões devido à pandemia do novo Coronavírus. O retorno, contudo, aconteceu imediatamente após o anúncio de que a cidade de São Paulo avançaria para a fase verde, afrouxando as medidas de quarentena e permitindo o funcionamento de espaços culturais, como teatros e cinemas.

Com a casa cheia, a comédia comprovou sua vocação para o sucesso, o que, na percepção da atriz, causa certa resistência da classe teatral. “O nosso meio é um pouco preconceituoso. Primeiro a gente tem que entender que o mundo, o Brasil e a nossa cidade são muito grandes. Você vai ver A Banheira e tem muita gente assistindo. Existem vários níveis intelectuais, e o artista tem que estar onde o povo está. Essa semana uma trans foi nos assistir e disse que a peça serve para abrir os olhos de algumas pessoas, para que elas se preparem para conversar com uma militância, por exemplo”.

A fé que leva no poder da comédia, contudo, não se repete quando o assunto é a crise de saúde que assola o mundo desde meados de 2019 e chegou avassaladora no Brasil no início  deste 2020. “Eu não sei nem se isso vai acabar, sabe? Quando a gente está no apocalipse não tem noção que é o fim, e eu fico me perguntando: será que vai acabar? Mas quando a gente volta ao começo, eu penso que a gente é muito burro, em povo, em bloco”, critica. 

“Eu quis ser atriz e eu sou atriz, e é isso que vale”

“A hora que a Val [Keller, produtora] ligou me convidando para voltar eu topei na hora! Tô acreditando nesse cara que está levando essa nave, nesse nosso governador, porque não tem em quem acreditar. Não tenho o sonho de que as coisas vão mudar porque elas já estão mudando. O dinheiro já tá mudando de mão, as pessoas dão mais valor à família, estamos mais introspectivos. E a gente quer que acabe, mas quando vai acabar? Não sei. Tem vacina, não tem, essas informações andam tão misturadas que a gente precisa acreditar em alguma coisa, por isso existem as religiões e os teatros, precisamos acreditar em algo, ter fé, mas não tenho uma falsa ilusão para o futuro”.

Preste a completar 20 anos de trajetória artística, Carol Hubner se enxerga com mais maturidade frente o ofício que exerce. “Até meus 30 anos e sonhava que ganharia o Oscar, sonhava em ser uma grande atriz do cinema, do teatro, do cinema. Quando fui entendendo que era simplesmente o meu ofício, minha vocação e que, por sorte ou por determinação, eu realizei, vi que era o que valia. Eu quis ser atriz e eu sou atriz, e é isso que vale”, analisa

“Não ganhei milhões e, se tivesse esse prêmio, talvez nem me candidatasse. Quando eu venci o programa algumas pessoas do teatro vieram me pegar, trabalhei muito com o Tchesco, conheci o Sebastião Apolônio e o Ronaldo Ciambroni, que é um cara muito generoso e entende do teatro popular como poucas pessoas. Aprendi ali com esses mestres que vieram do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), do teatro de revista, eles merecem esse crédito”.

Sobre planos ambiciosos para o futuro, embora esteja envolvida com a produção de um infantil e de produções que dependem de uma vacina contra o Coronavírus, Hubner é categórica: “Eu quero exercer minha profissão!”.

SERVIÇO:

A Banheira

Em cartaz até 19 de dezembro (sextas e sábados)

Local: Teatro Maria Della Costa – São Paulo (SP)

Endereço: Rua Paim, 72 – Bela Vista

Horário: 21h30

Preço do ingresso: R$ 60,00 a R$ 70,00 (com meia entrada)