Rodrigo Miallaret celebra duas décadas de carreira em momento de destaque em musical

Ator coleciona elogios por seu desempenho como Vovô Joe em Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolates enquanto passa a limpo trajetória repleta de divisores de águas

Publicado em 07/10/2021 16:04
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Quem for assistir o musical Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolates, em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo, por seu título chamativo, seu cenário suntuoso ou a mítica figura de sua personagem protagonista, o doceiro Willy Wonka, talvez se surpreenda com o fato de nenhum destes tópicos ser o mais importante da obra de Roald Dahl (1916-1990) montada no Brasil sob o guarda chuva da produtora Ateliê Produções.

Quem realmente chama a atenção ao longo de três horas de espetáculo é o vovô Joe, personagem coadjuvante que, tanto nos filmes de 1971 e 2005 quanto no musical, que estreou no West End em 2013 e na Broadway em 2017, sempre teve bom apelo emocional, mas participação limitada na trama.

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Na versão nacional acontece parecido. A rigor, a personagem, embora tenha duas canções próprias, aparece como uma figura coadjuvante na trama, entretanto são suas aparições que realmente conferem charme à megaprodução. Mérito de seu intérprete, o ator e cantor mineiro Rodrigo Miallaret, que, neste 2021, celebra duas décadas de trajetória artística dentro do cenário do teatro musical tupiniquim.

“Tudo tem que ser na hora que tem que ser”, garante o ator, que, com o Vovô Joe, reacende a chama dos momentos luminosos que vinha enfileirando em sua carreira desde antes de a pandemia do Coronavírus congelar o mercado cultural ao redor do mundo. O ator acabara de dublar o vilão Scar, clássico personagem da Disney no filme live-action de O Rei Leão, e se preparava para voltar aos palcos com uma das personagens de maior expressão de sua carreira quando tudo parou.

Entretanto, a despeito do que possa parecer, a parada surtiu um resultado positivo na vida do artista. “Essa pandemia, obviamente, foi um dos piores momentos das nossas vidas. E nós estávamos prestes a estrear. Paramos dois dias antes de abrir a cortina e ficamos sem sinal de retorno, sem saber o que fazer. Mas, de certa forma, foi positivo porque eu sinto que esse personagem amadureceu nesse momento”, conta.

“Antes da pandemia eu vinha de um processo de muitas peças e dublagens, e, nos ensaios, eu ainda não tinha encontrado esse detalhe que faz toda a diferença, essa faísca da personagem, sabe? Eu acho que o afastamento do palco, que foi bizarramente horrível para todos nós, foi um aperto que me fez aflorar num cuidado maior quando eu voltasse”.

O processo de trabalhos intensos levou o ator a crer que esta seria apenas mais uma personagem para seu panteão, que guarda grandes coadjuvantes, entre eles o pai da protagonista Bela e A Bela e a Fera (2009), o motoqueiro Toca, em We Will Rock You (2016) e o roqueiro Dennis Dupree em A Era do Rock (2017). A postura, entretanto, lhe rendeu uma chamada do norte americano John Stefaniuk, responsável pela encenação brasileira.

“Ele me chamou de canto e perguntou o que estava acontecendo. Eu estava errando texto, até. Ele me deu uma chamada, disse que eu precisava acreditar em mim, porque eles acreditavam muito. Eles acreditavam mais em mim do que eu mesmo, porque eu estava muito cansado. Não era o momento ali. Agora é! Com esse afastamento eu peguei o papel com outra garra, peguei cores que eu não tinha pego até então”.

Apresentado assim, o período de isolamento pode até parecer uma espécie de descanso usado para recarregar as baterias. Mas Miallaret o enxerga com o mesmo desespero que a população que enfrentou uma crise sanitária (que se transformou em política) que vitimou mais de 600 mil pessoas. “Eu perdi o que foi, durante muitos anos, minha maior fonte de renda de um dia para o outro. E isso me fez acordar para outros fatores, como o fato de eu não poder ficar focado apenas em uma coisa, porque ela pode ruir”.

Rodrigo Miallaret, showstopper como Vovô Joe em A Fantástica Fábrica de Chocolates | Foto: João Caldas

Desta percepção surgiu a construção de seu home estúdio construído com o ator colocando a mão na massa (“e parcelando as compras em trilhões de vezes no cartão de crédito”) com base em pesquisas na internet, além de lançar outros olhares para novas formas de arte. “Meu foco nunca foi fazer novelas, mas se pintar, eu não negaria”.

“A pandemia foi muito ruim para mim como para todos nós, mas, ao mesmo tempo, serviu para eu perceber que existem outras possibilidades dentro da arte e dentro do que eu sei fazer. É só ter um olhar mais amplo, e essa amplitude que eu ganhei, não perco mais”.

Foi justamente esta amplitude que levou o ator a promover uma série de mudanças na sua vida. Fosse desistindo, no último minuto, de prestar a segunda fase do vestibular de medicina em uma universidade federal em Belo Horizonte (“Eu cheguei para os meus pais e disse que não era aquilo que eu queria fazer, que eu queria era ser ator. Aí a casa ruiu”); Fosse abrindo mão de uma vida estável na capital mineira para se lançar numa aventura musical em São Paulo.

Era final da década de 2000, quando, atendendo a um chamado do amigo e também ator Léo Diniz, Miallaret chegou na capital paulistana para dar início aos testes para compor o elenco da primeira montagem de A Bela e a Fera, no Teatro Abril. Se dividindo entre as duas capitais (“os testes eram mais tranquilos naquela época. Entre um teste e um call back levavam três, quatro dias”), o ator passava nas fases da produção da Disney enquanto apresentava um programa da rede ShopTour e estrelava campanhas de TV como o Ricardão da rede de eletrodomésticos Ricardo Eletro.

No meio dos testes, a produtora argentina Eloísa Canton o puxou de lado com um convite para assistir à superprodução da época, o épico Les Miserablés. “Eu nunca tinha visto nada de Broadway, e há 20 anos, era a coisa mais incrível, mais surreal do universo. Eu chorava vendo o Marcos Tumura (1968-2017) dando um show, eu chorava de emoção, de surpresa, eu fiquei passado com aquilo tudo. Eu estava acostumado com o teatro de Minas Gerais, que era outra coisa”.

O convite, então, se transformou em uma oportunidade. “Uma pessoa do elenco tinha deixado a produção e faltavam quatro meses para o fim da temporada. Eles me perguntaram se eu não aceitaria fazer e na hora eu topei. E foi uma loucura, porque eu trabalhava em BH ainda, e isso era uma quarta-feira. Os ensaios começavam na segunda, eu precisava dar um jeito na minha vida”.

Com o incentivo da produção da ShopTour e a má aceitação do dono da Ricardo Eletro, Miallaret veio a São Paulo e se instalou definitivamente na cidade. “Na segunda-feira eu estava ensaiando, fiz os últimos meses e também passei n’A Bela e a Fera, e não voltei mais. Fiz muitos musicais, tive alguns perrengues, mas quem não teve?”.

Desde temporadas em navios até assumir o cargo de secretário financeiro de um espetáculo, os perrengues não parecem fazer sequer cócegas na carreira que o ator construiu ao longo destas duas décadas repletas de divisores de águas. Desde aquela desistência, no início da década de 80, passando pela chegada a São Paulo, até o brilho em Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolates.

“Não sei explicar como aconteceu, mas me dediquei muito a esse papel, então eu consegui um refinamento em alguns detalhes que me deixaram distante dos outros pais e avôs que eu interpretei. E talvez isso tenha sido um divisor, apesar de eu já ter feito muitos velhos, esse é diferente. E é uma coisa intencional. Eu não queria que fosse só engraçado e pitoresco. O John [diretor] foi muito bacana comigo. Ele me disse que teríamos momentos muito fantasiosos e momentos muito realistas. Busquei esses momentos”, conceitua.

“O que é fantasia é fantástico, mas o que é real é pra ser feito com verdade. E aí eu construí uma coisa bem arrematada. De momentos engraçados e de momentos emocionantes. E é isso que eu tentei buscar, na hora de pegar o pessoal, é pra falar sério. E daqui a pouco volta a fantasiar porque a personagem abre mão de tudo o que ele já guardou em prol da felicidade do neto, e é essa a verdade dele”.

Celebrando duas décadas de trajetória (com direito a um pôster próprio na porta do Teatro Renault – dividido com a colega de cena, com quem estreou em 2001, Sara Sarres), Rodrigo Miallaret se mantém como, em suas palavras, um operário da arte. Mas não se priva de fazer seu próprio balanço destes vinte anos de presença nas principais produções do teatro musical paulistano.

“Eu estou no céu quando faço teatro musical. E ainda fico surpreso, principalmente com este espetáculo. Estamos há pouco tempo em cartaz, mas, graças a Deus – e a mim, também – já chegou muita coisa positiva do público e eu não esperava. Não esperava que causasse esse tipo de impacto. Fazendo um balanço, eu só tenho a agradecer. Não tem como eu reclamar de nada que aconteceu nesses 20 anos em São Paulo, fora os outros 20 em Belo Horizonte. Fiz muitas coisas, e eu só agradeço”.

Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolates fica em cartaz até meados de janeiro no Teatro Renault, em São Paulo, com sessões de sexta-feira a domingo. Os ingressos custam de R$ 50,00 a R$ 310,00.

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