Bruno Kott, Nicole Cordery e Mauro Schames | Foto: Montagem
Bruno Kott, Nicole Cordery e Mauro Schames | Foto: Montagem

Em 1993, ao encenar sua décima peça, História do Urso Panda (contada por um saxofonista que tem uma namorada em Frankfurt), o dramaturgo romeno radicado na França Matéi Visniec não imaginava os rumos que, aliada à tecnologia, a experiência teatral tomaria. Mas foi justamente tomando como base seu texto – uma comédia dramática sobre a relação de um homem com a morte – que os atores Mauro Schames e Nicole Cordery se jogaram numa experiência inédita sob a direção de Bruno Kott.

O trio se prepara para estrear no dia 15 de maio, sexta-feira, Pandas ou era uma vez em Frankfurt, experiência cênica na qual fogem ao lugar da leitura ou da transposição para o vídeo de uma concepção cênica pensada para o teatro. A obra, pensada especialmente para o formato online, mescla linguagens e foge à discussão acerca do que é ou deixa de ser teatro no atual cenário de quarentena em contenção a pandemia do novo COVID-19 (Coronavírus).

“Não estou pensando nisso. Essa pesquisa é fruto de uma necessidade de adequação a um momento mundial delicado. A arte sempre acompanhou e acolheu a sociedade em grandes crises. Estamos aqui usando desse único meio que é a internet para compartilhar experiências sobre sentimentos que de certa forma nos unem como sociedade”, conceitua Bruno Kott, diretor responsável também pelo dramaturgismo do espetáculo.

“Como atriz eu me preparo, alongo, aqueço, monto a contrarregragem. Passo muitas vezes o texto com meu parceiro. O que eu faço, internamente é teatro. O espaço teatro não existe, é a minha casa. É algo híbrido, como muitas coisas do mundo em que vivemos agora. Não acho que fazemos algo genial, apenas tentamos com muita humildade fazer o que sabemos fazer (teatro) com as ferramentas e condições que a humanidade nos apresenta agora”, complementa Nicole Cordery, que, dividindo a cena com Mauro Schames, dá vida a uma personagem sem nome ou biografia definidos, mas que busca discutir sentimentos como o pertencimento, o nascimento de uma relação em comum.

Pandas ou era uma vez em Frankfurt | Foto: Divulgação

O projeto, contudo, embora tenha se tornado pioneiro no uso da tecnologia para criar uma linguagem realmente nova, com direito a cenário, iluminação e público com a possibilidade de microfones abertos e a intervenção do público, tal qual num espaço reconhecidamente teatral, mas transportado para a plataforma de reuniões online Zoom, não nasceu com a característica de vanguarda.

A ideia era a de inscrever uma leitura dentro do polêmico edital da instituição Itaú Cultural, que acabou não sendo contemplada, e deu vazão a obra que chega à plataforma de venda de ingressos Sympla a partir desta sexta-feira.

“Não acho, de forma alguma que isso substitui a troca que acontece num espaço teatral, seja ele num palco, numa arena aberta, itinerante, no meio da rua. É apenas uma forma do ser humano continuar representando para alguém, ao mesmo tempo em que aquela pessoa está nos vendo”, declara Cordery, que, aliada ao momento de contato virtual, não teve a chance de conhecer pessoalmente o diretor.

O encontro – inédito – se deu por um desejo de Mauro Schames de trabalhar com a atriz, e de ser dirigido por Kott, diretor com larga experiência e estudo do cinema nacional. “Como a impossibilidade de encontros força uma busca por novas possibilidades de comunicação, entendemos que seria necessário utilizarmos os mesmos meios que são atualmente conhecidos pela grande maioria da população. Como podemos contar uma história e ao mesmo tempo estarmos próximos no tempo presente? Como buscar o encontro mesmo quando não é possível sair de casa?  A nossa proposta surge dentro de uma necessidade de abrir uma porta e se relacionar com alguém”, conceitua Schames.

Pandas ou era uma vez em Frankfurt | Foto: Divulgação

A chance de que este novo formato – a encenação de obras pensadas especificamente para o cenário online – paute a relação do público com o teatro no futuro não preocupa o grupo, que vê com bons olhos a possibilidade de uma plataforma que co-exista com o teatro em si. “Uma coisa é inegável. Essa possibilidade de experiência faz com que pessoas do mundo inteiro possam estar ao mesmo tempo assistindo a uma representação ao mesmo tempo e ao vivo”, acredita Cordery, embasada por Kott: “Tudo que é realmente vivo está em transformação. Sinto que muitas coisas virão. As plataformas de streaming são uma realidade contemporânea”.

A chance de que o espetáculo chegue ao palco de um teatro após o processo de quarentena não foi pautado, mas também não está descartado. “Usaríamos a experiência atual como outra camada de dramaturgia”, adianta Cordery, enquanto Kott finaliza: “Nesse momento estou trabalhando com o presente. Com o desejo de fazer esse projeto com a coerência artística que carrego comigo. O futuro está em aberto”. Quem viver…

Pandas, ou Era uma Vez em Frankfurt fica em cartaz de 15 de maio a 06 de junho na plataforma Zoom, com sessões às sextas e sábados, sempre às 20h. Os ingressos serão vendidos na política do pague o quanto puder, e toda a renda será revertida para o Fundo Marlene Colé, idealizado para assistir artistas neste momento de pandemia. Os ingressos serão vendidos através do site oficial da ticketeria Sympla.

A produção avisa: para assistir à experiência, é necessário baixar o aplicativo Zoom no seu computador através deste link. Depois, é só reservar o seu ingresso pelo Sympla clicando neste link e seguir as instruções.