Densidade do coração selvagem de Clarice ainda bate no teatro brasileiro sem sinais de desgaste

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O mundo literário celebra, neste 10 de dezembro de 2020, o centenário de nascimento da escritora Clarice Lispector (1920-1977) sem jamais ter conseguido decifrar, de fato, qual é essa força densa e poética que faz da escritora ucraniana de criação pernambucana ainda hoje uma das principais autoras do país, com livros aclamados por leitores de todas as classes sociais e diferentes formações.

O legado literário de Lispector está longe de ser comparável a títulos blockbuster de fácil assimilação, e, mesmo assim, segue como uma das obras mais palatáveis e populares da literatura brasileira, tendo originado obras em diferentes campos da cultura das artes, como a música, o cinema e, claro, o teatro.

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A vida e a obra de Lispector são há décadas matéria prima rica para a criação de dramaturgias e encenações ao redor do Brasil, com espetáculos que já tiveram entre seus protagonistas figuras como Aracy Balabanian, Beth Goulart, Ana Beatriz Nogueira, Rita Elmor, Denise Stoklos, Mariana Lima e Laila Garin, apenas para citar alguns nomes que já deram vida a personagens da obra da escritora ou à própria autora em cena.

É, contudo, sintomático que Lispector, embora não tenha escrito nenhuma peça de teatro, seja uma figura tão popular no mundo das artes cênicas. Seus romances e contos trabalham com a densidade de figuras humanas que se revelam mais complexas do que a realidade contemporânea – em busca de personagens e personalidades maniqueístas – tem sido capaz de abarcar.

Personagens populares como Macabéa, de A Hora da Estrela, já originaram incontáveis espetáculos profissionais e amadores das mais diversas linguagens. Em meados de março estreou no Rio de janeiro A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa, no qual o romance era contado através de três atores (Laila Garin, Cláudia Ventura e Marcelo Caldi) sob a direção de André Paes Leme e com canções inéditas compostas por Chico César. 

Em 1984, Maria Bethânia estreitou os laços híbridos entre música e teatro em seu show A Hora da Estrela, no qual recontava a história do romance lançado em 1977 e apresentou canção inédita de seu mano Caetano Veloso, O Nome da Cidade.

Em contrapartida, toda a sua obra já foi tema de espetáculo-celebração no qual a figura da artista era igualada a de uma espécie de Messias numa (bela) missa armada pelo ator e diretor carioca Eduardo Wotzik; assim como sua vida já foi descortinada em paralelo à vida de suas personagens quando Beth Goulart mergulhou em Simplesmente Eu, Clarice Lispector, espécie de obra-bússola para futuras montagens de espetáculos sobre a autora.

Mesmo no âmbito infantil, Lispector vai fundo ao analisar a existência humana sem jamais subestimar a inteligência de seu público, ainda que formado de crianças, como nas inúmeras adaptações de A Mulher que Matou os Peixes na qual a protagonista confessa sem eufemismos ser a responsável pela morte anuncia já no título.

Talvez essa característica extremamente sincera e sem subterfúgios de tratar assuntos aparentemente banais (como o que norteia a montagem de Um Dia a Menos, estrelado por ana Beatriz Nogueira sob a direção de Leonardo Netto neste 2020) com a profundidade analítica tenha criado a valorização da obra desta autora nada simples e impossível de decifrar por total, como tentou Aracy Balabanian em 1998 ao encenar Clarice – Coração Selvagem, de Maria Lucya de Lima, ou mesmo conectá-la a um público mais jovem, como fez Rita Elmor em seu solo Clarice e Eu – O Mundo não é Chato.

O fato é que, independente dos motivos, o coração selvagem de Clarice Lispector segue batendo firme, forte e a todo o vapor sob o tablado brasileiro sem dar mínimos sinais de desgaste ou cansaço.

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