Devota ao legado de Fosse, Ann Reinking construiu história própria para além da sombra do mentor

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Talvez seja impossível lembrar e celebrar a figura da atriz e coreógrafa norte-americana Ann Reinking (1949-2020) sem associá-la imediatamente à imagem do mítico diretor e também coreógrafo Bob Fosse (1927-1987), uma das figuras mais icônicas da história do teatro musical ocidental.

Fosse criou ao longo de 37 anos uma técnica que molda e ainda hoje influencia as coreografias dos musicais montados ao redor do mundo. Com uma assinatura minimalista e sexy, as coreografias de Fosse tinham como foco o trabalho milimétrico no corpo do bailarino, excluindo excessos histriônicos e se concentrando em detalhes que, embora soassem preciosistas à primeira vista, resultaram essenciais na criação de uma nova linguagem coreográfica, fundindo o jazz e o ballet a influências do cabaré francês.

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O trabalho de Fosse se estruturou na direção de grandes musicais, como Damn Yankees (1955), Pippin (1972) e Chicago (1975) no teatro, e em obras como Sweet Charity (1969) e Cabaret (1972) no cinema, entre outros.

Foi justamente este legado que Reinking se esmerou em manter intacto ao longo de mais de 30 anos após a morte do diretor e coreógrafo que foi seu principal mentor desde a década de 1970, quando cruzaram caminhos, até sair de cena na manhã de sábado (12), na cidade de Seattle, nos Estados Unidos. 

Reinking  criou espetáculos para celebrar o legado do mestre (Fosse, de 1992) e trouxe de volta às luzes da Broadway um dos grandes hits da década de 1970 (Chicago) que, desde sua reestreia em 1996, nunca mais deixou os palcos de Nova York e já ganhou montagens ao redor do mundo e chegará pela segunda vez ao Brasil no segundo semestre de 2021.

O fato é que, embora tenha dedicado boa parte de sua vida a manter vivo o legado de Fosse, Reinking criou ela mesma seu próprio. A artista não se deixou levar pela possibilidade de apenas copiar a linguagem do mestre, mas também de aprimorá-la. As coreografias que fizeram do revival de Chicago um acontecimento são criações da artista com base no trabalho do coreógrafo.

Mesmo revivals de obras como Pippin (2013), coreografada por Chet Walker no estilo de Bob Fosse, sofreram influência das adaptações de Reinking, que foi responsável pela condução, ainda que indireta, de obras como O Beijo da Mulher Aranha (1993) e da versão cinematográfica de Chicago (2001), vencedora do Oscar de Melhor Filme. Ambos trabalhos dirigidos e/ ou coreografados por Rob Marshall sob influência direta da artista.

No Brasil, é possível estabelecer conexões da influência da coreógrafa com artistas como Alonso Barros, responsável pelas coreografias de obras como Sweet Charity (2006), As Bruxas de Eastwick (2011), Kiss me Kate – O Beijo da Megera (2015) e Pippin (2018), todas obras dirigidas por Charles Möeller e Claudio Botelho que, em maior ou menor grau, beberam da fonte coreográfica de Fosse sob a visão de Reinking.

Portanto é injusto lembrar de Ann Reinking apenas como a musa de Bob Fosse, uma vez que a artista, mais do que simplesmente sua pupila, foi a principal responsável por renovar e estabelecer conexões da obra do artista com o teatro musical moderno, dando lufada de ar fresco não só no legado do coreógrafo, mas também nas coreografias que moldaram a reinvenção do teatro musical entre as décadas de 1990 e 2000.

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