Nelson Rodrigues | Foto: Reproducao
Nelson Rodrigues | Foto: Reproducao

Anunciada na última semana pelo tabloide americano Deadline, a compra dos direitos da obra O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, pela produtora e atriz vencedora do Oscar Viola Davis causou alvoroço nas redes sociais. A obra, uma das mais importantes e significativas da obra do dramaturgo carioca, deverá ganhar adaptações para os palcos e para o cinema ou a TV americana.

Autor de uma das obras mais significativas da dramaturgia brasileira, Nelson Rodrigues, contudo, não é um estreante em terras norte americanas. O nome do autor de A Falecida carrega consigo o peso de ter sido um dos dramaturgos mais difíceis de serem traduzidos para a língua inglesa. O tradutor e pesquisador nova iorquino Alex Watson até tentou, em 2007, se aventurar pelas obras de Rodrigues, sem sucesso.

Dois anos depois, ainda nos Estados Unidos, a editora Host Publications encomendou uma tradução de A Vida como Ela É, clássica coletânea de crônicas escritas por Rodrigues em diversos jornais por onde passou ao longo de sua carreira. A obra, intitulada Life Like It Is e lançada em 2009, foi um retumbante fracasso de público e crítica. A época, se diagnosticou que a tradução não dava conta do estilo desenvolvido por Nelson, o que não ajudou no desempenho comercial do livro.

Agora, dez anos após a primeira tentativa frustrada, o dramaturgo volta às capas dos jornais em nova tentativa norte americana de exportar aquele que é considerado um dos autores brasileiros que melhor souberam reproduzir o clima de uma época – o subúrbio do Rio de Janeiro em meados da década de 1950.

O Beijo no Asfalto

Para o diretor e encenador Marco Antônio Braz, especializado na obra do dramaturgo, este interesse não é algo inédito, tampouco surpreendente. “Eu acredito que quando se tem um interesse pela obra, alguma coisa na essência dela te toca. Você pode atualizar, ter alguma coisa de tradução, da poesia dramática, mas a essência não dá ara mudar”, diz em entrevista exclusiva ao Observatório do Teatro.

Entretanto, a questão linguística também apresenta uma barreira para além da gramática quando se trata de Rodrigues. “As expressões da época, na boca do Nelson, se tornou poesia dramática, e hoje a gente a ouve no palco. Então o prejuízo seria nesse sentido”, garante o diretor.

Compactuando com essa visão, o diretor e encenador Gerald Thomas, com carreira desenvolvida e consolidada entre Europa e Estados Unidos, acredita que a dificuldade de se compreender as figuras criadas pelas personagens de Nelson esteja na cultura de cada país.

“É muito difícil, quando você não cresce com isso no teu repertório habitual”, garante o artista que vê em Nelson um paralelo com o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973). “A obra do Nelson é dividida em partes míticas, em tragédias cariocas e outras, e talvez ele seja mesmo compreendido como muito diversificado. Talvez nessa área, Picasso, como pintor, tenha conseguido fazer as fases e conseguiu cobrir o território crítico, metafísico e o belo, mas o Nelson, como é palavra e texto, e precisa ser traduzido, se perde muito”, opina o diretor direto de Nova York, de onde atendeu a reportagem.

Contudo, a despeito de não terem conseguido dar conta da linguagem do dramaturgo, os americanos souberam absorver seu universo próprio, com é o caso do cineasta Sam Mendes que, ao estrear no cinema com a obra Beleza Americana, se valeu de duas figuras criadas por Nelson. A primeira é a da figura dramática da protagonista de Bonitinha, mas Ordinária, enquanto a segunda, mais delicada, retrata justamente O Beijo no Asfalto, como explica Braz.

“Em Beleza Americana, Sam Mendes usa um dos elementos dramáticos de O Beijo no Asfalto, que é quando o sujeito começa a achar que o rapaz é homossexual, e tudo não passa de uma projeção do desejo dele”, conta o autor, que consegue apontar o interesse justamente por esta obra em específico: “O que atrai é a questão forte e sintética da peça. Nesse ponto, das 17 peças escritas por Nelson, essa é a que tem um poder de síntese mais claro. São três atos em uma hora e vinte de peça, com um desenvolvimento dramático galopante”, conceitua.

O mesmo diretor teve a intenção e até chegou a adquirir os direitos para montar “Toda a Nudez Será Castigada” a Broadway em uma montagem que, de tão inusitada, nunca aconteceu. Pode estar nas mãos de Viola Davis, atriz com dois prêmios Tony no currículo, a chance de Nelson Rodriges, um aplicado discípulo de Eugene O’Neill, estrear, enfim, na Broadway. Quem viver…

Miss Margarida’s Way

Marília Pêra em “Apareceu a Margarida” – 1973

Ainda que Nelson Rodrigues eventualmente desperte uma série de interesses do púbico estrangeiro, o autor que de fato mais chama a atenção em terras estrangeiras é Roberto Athayde, autor de um dos clássicos da dramaturgia brasileira: a comédia ácida Apareceu a Margarida.

Montada originalmente em 1973 sob a direção de Aderbal Freire Filho e estrelada por Marília Pêra, a peça foi montada na França em 1974 e, desde então, já ganhou mais de 60 produções francesas ao longo de mais de 40 anos, além de ter ganhado montagens em diversos países, como Grécia, Hungria, Alemanha, Inglaterra e, claro, Estados Unidos.

Representada por um dos escritórios de direitos autorais mais importantes do mundo, Samuel French, Miss Margarida’s Way chegou a Broadway em 1977 encenada em inglês por Estelle Parsons, atriz que ganhou, no ano seguinte, um Drama Desk Awards por sua performance como a tirana professora Margarida, e uma indicação ao Prêmio Tony, o mais importante do teatro americano, que acabou nas mãos de Jessica Tandy, por sua celerada interpretação em The Gin Game, de Donald L. Coburn.

A peça chegou a ganhar outra montagem na Broadway em 1990, com a mesma Estell Parsons no papel de dona Margarida em uma curtíssima temporada de apenas 10 dias. A peça, contudo, segue em cartaz na França desde o final da década de 1970, quando foi estrelada pela primeira dama do cinema francês da segunda metade do século XX, Annie Girardot.

Estelle Parsons em “Miss Margarida’s Way”, em 1974