Erica Montanheiro e Ana Elisa Mattos | Foto: Claus Lehmann
Erica Montanheiro e Ana Elisa Mattos | Foto: Claus Lehmann

Em 2019, após cumprir a bem sucedida temporada da ocupação artística Balada dos Enclausurados no Núcleo Experimental, em São Paulo, a dupla Erica Montanheiro e Eric Lenate iniciou processo de residência no Instituto Cultural Capobianco, voltada a ministrar uma série de workshops sobre a gestão de um espetáculo teatral solo.

Durante a experiência, Montanheiro, autora do monólogo Inventário, sobre a escultora francesa Camille Claudel (1864-1943), e diretora de Testemunho Líquido, estrelado por Lenate, sobre o bailarino ucraniano Vaslav Nijinski (1889-1950), percebeu o receio da parcela feminina de estudantes em produzir solos autorais.

“As mulheres chegavam em mim com os solos quase que com um pedido de desculpas, sabe? Como se de cara precisassem escrever maravilhosamente bem. É uma insegurança gerada pelo sistema que a gente vive”, relembra Montanheiro que, a partir daquela experiência, decidiu que era o momento de expandir o projeto de workshop para a criação de solos e voltá-los apenas para mulheres.

“Ali eu senti a necessidade de abrir mais esse contato e tentar buscar essas mulheres que queriam escrever, mas não tinham um lugar seguro para expor suas idéias”, diz. A artista buscou então a amiga Ana Elisa Mattos, com quem abriu parceria em 2017 com a encenação de Vocês que me Habitam, peça escrita por Gustavo Colombini em parceria com Montanheiro, que assinou a direção.

“Nós fomos pensando aos poucos como formar esse núcleo, estruturando, buscando pessoas interessadas e que tivessem trabalhos dentro desta proposta de solos, e estivessem disponíveis para essa troca”, lembra Mattos.

O projeto surgiu praticamente em paralelo à pandemia do novo Coronavírus que obrigou o estabelecimento de uma quarentena preventiva e do isolamento social como principais formas de combate ao vírus. Com a necessidade da comunicação remota, a dupla então criou um núcleo de estudos online via Zoom e vem realizando, há dois meses, semanalmente, encontros para discutir dramaturgia e acompanhar o desenvolvimento do trabalho de 14 dramaturgas que iniciaram o processo artístico de novos espetáculos que deverão ganhar montagens em breve.

Núcleo de Dramaturgia Feminina | Foto: Claus Lehmann
Núcleo de Dramaturgia Feminina | Foto: Claus Lehmann

“Temos que pensar o sonho junto com a realidade e o que tá acontecendo. Esse núcleo surgiu nesse momento de pandemia, vamos ver o que surge no pós-pandemia. São 14 trabalhos solos. Precisamos oferecer o que vai ser possível fazer de teatro”, conceitua Mattos.

A ideia do projeto não é apenas a do estudo dramatúrgico, mas também – e principalmente – fomentar uma nova gama de dramaturgas que decidam apresentar seus trabalhos no mercado, colaborando com a quebra da hegemonia masculina no gênero. “Isso vem de um lugar muito arraigado que são as mulheres na posição de cuidado. Sempre foi muito comum ver a mulher no lugar de produtora, de estar em casa e deixar tudo organizado, e agora é um momento histórico de as mulheres colocarem o pé na porta, é uma evolução e não tem como voltar atrás. Agora vem uma onda grande para colocar que somos dramaturgas, dramaturgues e dramaturgos assumindo um lugar de poder dentro de um processo artístico, acho bastante representativo e importante”, acredita a atriz.

Montanheiro corrobora: “Tem uma leva muito boa de dramaturgas, mas sinto que ainda precisa fincar mais o pé. Esse volume é uma onda e não tem como não ser visto. Como tá muito naturalizado que essas funções de direção e dramaturgia estão naturalizadas como sendo masculinas, então a primeira pessoa que vem na cabeça vai ser sempre um homem. É hora de criar esse volume. No mercado temos muitas mulheres como Grace Passô, Maria Shu, Silvia Gomez, entre outras, que entendem de estrutura, carpintaria, de dramaturgia, não são apenas atrizes que escrevem para si, são dramaturgas que sentam, escrevem, pensam em estrutura, sabem manipular o texto e o espectador através das vozes, seja com ou sem personagem. É um movimento que vem acontecendo há alguns anos, e eu sinto que precisamos de uma massa e perder o pudor. As mulheres precisam começar a contar nossas narrativas”.

Há três meses desenvolvendo estes estudos, o grupo conta com nomes como Anna Cecília Junqueira, Bruna Betito, Bruna Longo, Carol Carreiro, Daniela Flor, Emilene Gutierrez, Gabi Costa, Kátia Daher, Lua Negrão, Luísa Micheletti, Maria Fernanda de Barros Batalha e Mariá Guedes, além de Montanheiro e Mattos.

A ideia é que o projeto cresça, recebendo assim mais 14 mulheres interessadas no desenvolvimento da dramaturgia. Mas, antes, os 14 projetos apresentados neste primeiro experimento, serão levados para o palco com a colaboração de todas as componentes do grupo.

Entre os temas que compõem os espetáculos estão histórias como as da princesa da Angola escravizada no Brasil Zacimba Gaba, fundadora de um dos maiores quilombos do Brasil, a vida da autora Susan Sontag (1933-2004), da cientista Marie Curie (1867-1934), além da adaptação de um conto do gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996), a figura de uma noiva que questiona a busca pelo amor romântico e uma investigação sobre o universo das amantes, entre outros temas que nortearão as 14 obras.

Tendo como uma das principais referências a dramaturga Marici Salomão, Montanheiro acredita que o projeto fornecerá régua e compasso para uma solidificação do movimento da dramaturgia feminina no Brasil. “Nós criamos trabalhos mais autorais de pessoas que querem contar sua narrativa naquele momento, naquela hora, sem necessariamente ser uma dramaturga, mas há aquelas que vão se oficializar como dramaturgas de ofício”, acredita.