Há 40 anos fora de cena, Vinicius de Moraes também merece ser lembrado por colaboração na dramaturgia musical

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Ao sair de cena em 09 de julho de 1980, aos 67 anos de idade, o poeta Marcus Vinicius de Moraes já era dono de uma fama que transcendia seu próprio nome. As letras que escreveu para as canções compostas por parceiros como Baden Powell (1937-2000), Edu Lobo, Carlos Lyra, Toquinho e, claro, o maestro soberano Antônio Carlos Jobim (1927-1994) ganharam fama internacional e elevaram o nome do poeta à eternidade de ser interpretado por nomes do quilate de Frank Sinatra (1915-1998) e Ella Fitzgerald (1917-1996).

Como poeta, Vinicius de Moraes também se tornou uma das figuras mais importantes da segunda fase do modernismo no Brasil, com obras que caíram no gosto popular e ajudaram a difundir e popularizar a poesia no cenário nacional. São dele obras como Soneto de Separação, Soneto do Amor Total, Soneto de Fidelidade, entre outros temas que chegaram a ser musicados e se transformaram em hits da música popular (Rosa de Hiroshima e Poema dos Olhos da Amada, entre outros).

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O fato é que, além de poeta e letrista, Vinicius também merece ser lembrado por sua contribuição para a dramaturgia do teatro musical brasileiro. Embora tenha se aventurado como dramaturgo por como Cordélia e o Peregrino (1965), As Feras (1966) e Procura-se uma Rosa (1968), obras em que tentava emular uma espécie de híbrido entre o teatro de Nelson Rodrigues (1912-1980), a bossa nova e o teatro de protesto de Augusto Boal (1931-2009), Moraes se saiu melhor mesmo ao experimentar linguagens para o que seria uma espécie de semete para o teatro musical brasileiro.

A partir de obras como Orfeu da Conceição (1956) e, guardadas as devidas proporções, Pobre Menina Rica (1963), Moraes criaria um experimento sólido fora do universo do teatro de revista e das operetas teatrais, que ajudaria a pauta, por exemplo, a decisão de trazer para o Brasil obras como Minha Querida Dama (1960) e Alô, Dolly (1966) e O Homem de La Mancha (1972), estreladas e produzidas por Bibi Ferreira (1922-2019).

Com Orfeu da Conceição, Moraes daria os primeiros passos para uma linguagem que ajudaria a pautar obras posteriores, como Gota D’Água, de Chico Buarque de Hollanda e Paulo Pontes (1940-1976), baseado no mito Medéia, de Eurípedes; Ópera do Malandro, de Chico Buarque de Hollanda, baseada na Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht (1898-1956); e Calabar, também de Chico Buarque de Hollanda, em parceria com Ruy Guerra, narrando o processo de mudança da corte portuguesa para o Brasil.

Ao mesmo tempo, a obra de Vinicius e Jobim também serviria como uma espécie de norte a não ser seguido pelos musicais pensados pelo Arena de Augusto Boal, que produziria obras como Arena Conta Zumbi (ironicamente com uma de suas canções, A Morte de Zambi, composta por Edu Lobo em parceria com Vinicius) e Opinião, ambos de 1964.

Em paralelo a importância de Orfeu da Conceição – narrando as dores de um relacionamento interracial -, Moraes também viria a assinar, sete anos mais tarde, Pobre Menina Rica, espetáculo criado ao lado de Carlos Lyra sobre a relação de amor entre um mendigo e uma jovem moradora da zona sul carioca.

Vinicius de Moraes | Foto: Divulgação

Embora o musical nunca tenha ganhado uma encenação teatral – apenas apresentações no formato de concerto -, Pobre Menina Rica foi uma primeira (boa) tentativa de traçar um caminho para a produção de comédias românticas musicais no Brasil, que não teria grande mercado dali para frente, mas passou a ser considerado um marco inicial com as apresentações do concerto protagonizado por Lyra e Nara Leão (1942-1989).

O fato é que, embora tenha uma colaboração de peso inegável na transformação da música popular brasileira através das parcerias estabelecidas com Tom Jobim, Edu Lobo, Carlos Lyra, Toquinho e Baden Powell, Vinicius de Moraes merece ser lembrado nestes quarenta anos de sua partida também como um autor importante para os rumos que o teatro musical brasileiro começou a tomar entre as décadas de 1950 e 1960 (com produção intensa na década de 1970 e uma quebra brusca em 1980 e 1990).

NA BROADWAY

Em 2014, uma montagem de Orfeu da Conceição foi anunciada para estrear em 2016 na Broadway. A ideia inicial era a de que os diretores brasileiros Charles Möeller e Cláudio Botelho assumissem a encenação nesta que seria a primeira produção internacional da dupla.

Com o tempo, os planos foram esfriando, e uma nova produção foi anunciada em fevereiro deste ano de 2020 com o vencedor do Tony George C. Wolfe assinando a direção, uma adaptação do texto assinada pelo vencedor do Prêmio Pulitzer Lynn Nottage e com novas letras assinadas por Susan Birkenhead, além de contar com clássicos como Manhã de Carnaval e A Felicidade, da dupla Jobim e Moraes.

Baseado no mito grego de Orfeu, que vai até o inferno para tentar ressuscitar sua amada Eurípedes, o espetáculo ainda não tem data confirmada para a estreia, mas, de acordo com os planos de produção, a ideia é que o musical chegue aos palcos nova iorquinos em 2022. Quem viver…

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