Incansável, Nicette Bruno celebrou a vida, expurgou as dores e desafiou o tempo em cena

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É difícil mensurar o tamanho da carreira teatral de Nicette Bruno (1933-2020). Em cena profissionalmente desde 1945, quando estrelou a adaptação do Teatro Universitário para Romeu & Julieta, de William Shakespeare (1564-1616), a artista nunca abandonou os palcos, mesmo quando protagonizou hiato de oito anos (de 2006 a 2014) para se dedicar a outros trabalhos e aos cuidados de seu companheiro Paulo Goulart (1933-2014), então já lutando contra um câncer renal, a artista sempre foi figura tarimbada nas plateias dos teatros de São Paulo e do Rio de Janeiro

A atriz protagonizou peças icônicas do repertório do teatro ocidental, tendo estabelecido parcerias com alguns os mais importantes diretores do teatro nacional, entre eles Zbigniew Ziembinski (1908-1978), com quem trabalhou em 1948 na montagem de Anjo Negro, de Nelson Rodrigus (1912-1980) e em 1962, na icônica encenação de Zefra Entre os Homens. A atriz também estabeleceu pontes com Antunes Filho (1929-2019) (que dirigiu  Week-End, de Noel Coward, em 1953) e Cláudio Corrêa Castro (1928-2005), com quem trabalhou nas montagens de Um Elefante no Caos, de Millôr Fernandes (1923-2012), em 1963, e A Megera Domada, de Shakespeare, em 1964.

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Mas uma das parcerias mais icônicas foi com o encenador Antônio Abujamra (1932-2015), com quem co-fundou a Cia. Teatro Livre e montando obras como Boa Tarde, Excelência, de Sérgio Jockymann (1930-2011), em 1967, Os Últimos, de Máximo Gorki (1868-1936), e O Olho Azul da Falecida, de Joe Orton (1933-1967), em 1968. A dupla voltou a se encontrar vinte anos depois e uma das principais montagens brasileiras de À Margem da Vida, de Tennessee Williams (1911-1983).

Ao lado do marido, Paulo Goulart, com quem construiu parceria na vida e no ofício, encenou montagens icônicas, como a supracitada A Megera Domada (1964), Classe Média, Televisão Quebrada ou Fim de Papo (1976), de Sérgio de Secco, Mãos ao Alto, São Paulo!, escrita pelo ator narrando a experiência de quando teve a casa que dividia com Nicette invadida por assaltantes, e Aviso Prévio, de Consuelo de Castro (1946-2016), em 1987.

Perdas e Ganhos

Em meados da década de 1990, uma rápida separação teatral, que rendeu a Nicette o protagonismo de obras como Flávia, Cabeça, Tronco e Membros (1990), Céu de Lona (1991), Gertrude Stein, Alice Toklas & Pablo Picasso (1996), Roque Santeiro (1997) e o icônico musical Somos Irmãs (1998), dirigido por Ney Matogrosso e Cininha de Paula narrando os últimos anos das irmãs Linda Batista (1919-1988) e Dircinha Batista (1922-1999).

Encenado ao lado de Suely Franco (no papel da trágica Linda),o espetáculo rendeu a Nicette um Prêmio Shell e um Prêmio APCA de Melhor Atriz. Ao lado de Goulart, a atriz subiu em cena em 1994 para encenar Enfim Sós, mas a dupla só se reencontrou para valer em 2000, quando encenaram Crimes Delicados, de José Antônio de Souza que marcou o reencontro da dupla com Abujamra.

A dupla ainda dividiu a cena em 2003 em Sábado, Domingo e Segunda, do italiano Eduardo De Filippo (1900-1984) e, pela última vez, em 2008, na montagem de O Homem Inesperado, da dramaturga francesa Yasmina Reza sob versão de Flávio Marinho e direção de Emílio de Mello.

Após o período, a atriz entrou em hiato para se dedicar a outros trabalhos e para cuidar de Goulart, que então recém-descobrira um câncer renal que o tiraria de cena em 2014, aos 81 anos de idade. Como forma de expurgar a dor da despedida e celebrar o amor que dedicou ao seu companheiro, Bruno voltou aos palcos para encenar Perdas e Ganhos, solo baseado no livro homônimo da ensaísta gaúcha Lya Luft sob a direção de sua filha, Beth Goulart.

Somos Irmãs

Em seus últimos anos, já octogenária, Bruno usou os desafios do teatro como sua principal bússola, e estrelou a adaptação teatral de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, clássico thriller cinematográfico que ganhou os palcos do Brasil em 2016 sob a direção da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho.

Na obra, Bruno dividia a cena com Eva Wilma, com quem protagonizou o clássico embate entre as irmãs Blanche e Jane Hudson, que, no cinema, reanimou as carreiras de Bette Davis (1908-1989) e Joan Crawford (1904-1977).

Em 2018, a atriz voltou a trabalhar com a dupla de diretores em seu primeiro musical em 30 anos, quando se destacou como a avó jovial do príncipe Pippin na obra homônima de Stephen Schwartz que, dirigindo algumas cenas da montagem brasileira, elogiou a vivacidade e disponibilidade da atriz.

Aos 86 anos, a atriz se preparava para embarcar em uma turnê por capitais do Brasil reprisando a parceria com a amiga Suely Franco na comédia Quarta-Feira, sem Falta, Lá em Casa, de Mário Brasini (1921-1997) sob a direção de Alexandre Reinecke, impedido pela pandemia do mesmo Coronavírus que a tirou de cena aos 87 anos, numa saída que, a julgar pela vivacidade e disposição da artista de estar em cena, foi prematura.

O Que Terá Acontecido a Baby Jane?
Somos Irmãs
Quarta-Feira sem Falta lá em Casa
Crimes Delicados
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